Publicidade

Estado de Minas

Coronavírus fecha portas do Mercado Central em domingo histórico

Habitual agito na principal avenida da cidade aos domingos deu lugar ao fraco movimento de carros e pedestres. O Mercado Central fechou as portas pela segunda vez em 40 anos


postado em 30/03/2020 04:00 / atualizado em 29/03/2020 23:59

Pelo segundo domingo consecutivo, a Avenida Afonso Pena fica sem a tradicional feira de artesanato(foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)
Pelo segundo domingo consecutivo, a Avenida Afonso Pena fica sem a tradicional feira de artesanato (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)


Um dos mais famosos pontos turísticos de Belo Horizonte, a Feira Hippie, pelo segundo domingo consecutivo, não funcionou. Ontem, a Avenida Afonso Pena perdeu a agitação e alegria que artesãos, belo-horizontinos e turistas imprimem ao Centro da capital. O não funcionamento atende ao decreto do prefeito Alexandre Kalil, que para combater o avanço do novo coronavírus, suspendeu o comércio e atividades comerciais que levam à aglomeração de pessoas, entre eles, o Mercado Central.

O artesão Marcus Afonso dos Santos Brant, de 61 anos, lembra que, desde quando iniciou o trabalho na Feira Hippie, há 47 anos, é a primeira vez que ela é suspensa por outra razão que não o Desfile de 7 de setembro, quando a Avenida Afonso Pena costuma ser fechada para os desfiles.

As exceções foram os feriados da Independência do Brasil, que caíram no domingo. "Nunca parou a não ser em 7 de setembro. Já são dois domingos parados", observa. Diante da incerteza de quando o comércio será retomado devido à COVID-19, o artesão paralisou a produção. "Não tem onde vender. O jeito é ficar em casa e esperar", diz.

Marcus é um dos feirantes mais antigos e lembra do tempo em que a Feira Hippie era montada na Praça da Liberdade. "Tinha licença de número 86, que herdei do meu irmão. Sou um dos mais antigos remanescentes da Praça da Liberdade", afirma. Além da venda no varejo, que fazia na Feira Hippie, Marcus também comercializava no atacado para lojistas do interior. "Ninguém está comprando. Alguns estão devolvendo as mercadorias. As lojas estão fechadas", diz.

Ele ainda não tem um plano B, mas conseguirá se manter por um tempo com as reservas que fez ao longo dos anos. No entanto, ele se preocupa com outros feirantes que não têm uma poupança. "Até onde sei, não tem uma política pública para a Feira Hippie. Muita gente conta com a solidariedade de parentes e vizinhos".

A artesã A.C.B., de 49 anos, apesar de preocupada com a redução na renda da família, acredita que o isolamento social é uma medida acertada para barrar o avanço do novo coronavírus. "É uma boa medida. Necessária. Ficarei apertada com dinheiro, mas é melhor do que ficar exposta. É muito grande o número de pessoas que circula na feira", afirma. Mãe de uma filha de 21 anos e de um filho de 18, ela disse que a família ainda conta com o salário do marido. "Trabalho com a produção de roupas femininas. Vou ficar apertada. Tenho contas a pagar, mas é o jeito".

Nesse domingo atípico, outros pontos turísticos de Belo Horizonte ficaram fechados.  Apesar de a Igrejinha de São Francisco, na Pampulha, estar fechada, muita gente se arriscou na manhã de ontem para fazer caminhada e outras atividades físicas na região.

Estranho silêncio no Mercado


O Mercado Central de Belo Horizonte ficou de portas fechadas ontem. A situação inusitada se repetiu 40 anos depois da primeira suspensão de suas atividades em toda a história. No dia 1º de julho de 1980, a capital mineira recebia pela primeira vez a visita de um pontífice da igreja católica, o papa João Paulo II. A diferença é que naquele dia, mais de 800 mil pessoas se aglomeravam pelas ruas no trajeto que levaria o chefe da igreja católica do Aeroporto da Pampulha (Confins seria inaugurado quatro anos depois) até a região Centro-Sul, aos pés da Serra do Curral, onde posteriormente foi construída a praça do Papa.

Contrastando com a multidão de quatro décadas atrás, neste segundo domingo de isolamento social em BH – recomendação dos órgãos mundiais e nacionais de saúde para barrar a contaminação pelo coronavírus –, os arredores do Mercado Central ficaram desertos. No início da semana, alguns comerciantes anunciaram o atendimento delivery, mas ontem a maioria não estava respondendo aos telefones e Whatsapp disponibilizados para o público.

A comerciante Mariana Tavares, do Império dos Cocos, informou que o serviço de entrega será retomado na segunda-feira. A empresa da família, fundada pelo avô de Mariana há 58 anos, fornece castanhas, bacalhau, frutas secas, temperos e frios. As entregas cobrem toda a cidade, sem taxas extras. Ela disse que precisou reinventar os trabalhos.

“No mercado, os lojistas estão se virando. Temos 12 funcionários e demos férias para seis, priorizando os mais velhos ou aqueles com problemas de saúde. E mesmo assim, a demanda tem sido muito baixa”. A comerciante, que vem assumindo a frente dos negócios da família, disse que a primeira preocupação é garantir os salários dos colaboradores. No sábado, foram entregues 20 pedidos; durante a semana, a média diária é de 30.

A loja de embalagens Gato Preto informou que o serviço delivery funciona de segunda a sábado, das 8h às 13h. No Whatsapp divulgado pela Loja da Kátia para entrega de artigos para confeitarias em geral, para confecção de ovos de Páscoa caseiros e cestas de café da manhã, o recado é que os pedidos “serão atendidos por ordem de chegada”.

Na parte externa do estabelecimento, faixas informam sobre a redução do horário de funcionamento de segunda a sábado, que passa a ser das 8h às 17h (antes era das 7h às 18h) e o fechamento aos domingos. O acesso será restrito a algumas das entradas. Na semana passada, apenas as lojas de alimentos estavam funcionando.

HISTÓRICO MERCADÃO

O Mercado Central nasceu em 7 de setembro de 1929, quando Belo Horizonte tinha 47 mil habitantes e 31 anos de fundação. O então prefeito Cristiano Machado resolveu reunir em um único espaço, de 22 lotes (14 mil m²), próximo à praça Raul Soares, as feiras da praça da Estação Ferroviária (Rui Barbosa) e da atual Rodoviária (Rio Branco).

O terreno descoberto abrigava barracas de madeira e lona, circundado por estacionamento de carroças que transportavam os produtos. Em 1964, o prefeito Jorge Carone resolveu vender o terreno sob argumento de impossibilidade do município administrar a feira. Os comerciantes se organizaram, criaram uma cooperativa e compraram o imóvel da prefeitura, com a exigência da construção de um galpão coberto no prazo de cinco anos, caso contrário o imóvel seria retomado pela administração municipal.

Duas semanas do fim do prazo, foram contratadas quatro construtoras, cada uma responsável por uma lateral, que executaram o serviço a tempo. Atualmente, o mercado conta com 400 lojas e atrai anualmente milhares de visitantes de várias partes do Brasil e do mundo.

Inaugurado em setembro de 1929, o mercado já tinha fechado as portas em 1980, durante a visita do papa João Paulo II(foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)
Inaugurado em setembro de 1929, o mercado já tinha fechado as portas em 1980, durante a visita do papa João Paulo II (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)


receba nossa newsletter

Comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Cadastro realizado com sucesso!

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade