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Estado de Minas COVID-19

Coronavírus derruba o PIB e especialistas projetam retração maior que a anunciada

Economistas já projetam até mesmo uma retração de 0,5% da geração de riqueza do país. Mesmo os menos pessimistas não acreditam na alta de 2,1% prevista pelo governo


postado em 15/03/2020 04:00 / atualizado em 15/03/2020 10:44

Queda das ações na Bolsa de Valores antecipa o impacto da doença na redução da atividade das indústrias, comércio e serviços(foto: Miguel Schincariol/AFP %u2013 29/1/19)
Queda das ações na Bolsa de Valores antecipa o impacto da doença na redução da atividade das indústrias, comércio e serviços (foto: Miguel Schincariol/AFP %u2013 29/1/19)

Brasília – Depois da semana de terror nos mercados globais e da Bolsa de Valores de São Paulo (B3), as instituições financeiras e especialistas começaram a revisar para baixo o crescimento, em 2020, do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. As projeções já tinham sido rebaixadas após a divulgação do frustrante resultado de 2019, com alta de apenas 1,1%, e agora há quem aposte até numa retração de 0,5% da atividade econômica este ano.
 
Na avaliação da economista Monica De Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics (PIIE), de Washington, a crise econômica que está se desenhando nesse cenário de pandemia do coronavírus é extremamente grave e muito diferente das anteriores. Por conta disso, ela prevê retração de 0,5% no PIB do Brasil neste ano. “O país vai ter uma recessão contratada, que poderá ser bem pior do que a de 2008”, alerta.
 
Para Monica, a equipe econômica não está entendendo a gravidade da situação ao prever crescimento de 2,1%. “Estamos falando de uma questão de saúde pública que pode ter um impacto na economia em projeção geométrica e não linear, como muitos economistas estão estimando”, completa. A consultoria britânica Capital Economics também fez um alerta para os efeitos catastróficos da pandemia do novo coronavírus combinada à queda nos preços de petróleo na América Latina. E, com isso, as projeções de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil neste ano ficaram abaixo de 1% em função do “limitado espaço de resposta” do governo.
 
Em menos de uma semana, a consultoria reduziu de 1,3% para 0,5% a expectativa de expansão do PIB brasileiro, enquanto a equipe econômica liderada pelo ministro Paulo Guedes aposta que o país poderá crescer 2,1%. Em relatório, o economista da Capital Economics William Jackson destaca a falta de espaço fiscal para uma resposta política à crise, especialmente, porque as moedas latino-americanas tiveram as piores performances na semana. “As quedas acentuadas nas moedas, provavelmente, tiraram da mesa os cortes de juros que havíamos antecipado nas próximas semanas. Os governos têm pouco espaço para afrouxar a política fiscal”, aponta.
 
Para o economista-chefe do Banco Haitong, Flavio Serrano, que revisou de 2,3% para 2% o crescimento da economia depois da divulgação do PIB de 2019, ainda não mudou formalmente sua projeção para 2020. “Mas estou vendo, claramente, que pode ser de 1% a 1,5% e não mais entre 1,5% e 2%. O Brasil está passando por um processo semelhante ao de outros países. As pessoas estão evitando sair. Isso vai ter impacto no comércio, mas não se sabe quanto tempo vai durar”, explica.
 
Segundo ele, a atividade industrial, muito mais coligada com a dinâmica internacional, sofrerá e a queda dos ativos nas bolsas antecipa esse movimento. “O setor usa peças importadas de países parados. Por isso, pode haver reflexo, mesmo em uma situação em que os serviços pesam mais no PIB. Até porque toda a economia é afetada. As empresas aéreas, que são serviços de transportes, serão muito afetadas”, diz. Os papéis dessas companhias foram os que mais caíram em termos globais. “Se falava em um efeito de 0,3% a 0,5% na economia mundial, mas pode ser muito mais. O Focus deve cair de 1,99% para algo como 1,60%”, estima.

Menos otimista No entender de Eduardo Velho, estrategista chefe da INVX Global, as projeções serão revisadas por conta do impacto das empresas de capital aberto. “Essa previsão do governo, de 2,1%, é muito otimista. Nós trabalhamos com dois cenários. Um crescimento de 1,72%, considerando estabilidade na variação do segundo trimestre ante o primeiro. E uma expansão mais tímida, de 1,32%, que ainda seria maior do que foi em 2019”, afirma. A justificativa de Velho é que, mesmo que as reformas passem, a recuperação não será imediata. “Nada acontece de uma hora para outra”, resume.
 
O próximo relatório da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, que será publicado na semana que vem, também vai trazer números atualizados para pior. A atual previsão de crescimento de 2,2% deve cair para menos de 2%, diz o diretor-executivo da entidade, Felipe Salto. Apesar de haver projeções mais pessimistas, como a da SBX, que prevê PIB de 0,9% em 2020, o mercado ainda trabalha com uma margem entre 1,5% e 2%, observa Salto. “Abaixo de 1%, agora, acho exagero. Talvez seja um pouco precoce”, avalia. Revisar para algo perto de 1% nos próximos meses, no entanto, “não é impossível”, alerta o economista da IFI, que considera o quadro geral “bastante negativo”.
 
A situação é tão incerta que a 4E Consultoria revisou duas vezes a projeção nos últimos 20 dias. Nesta semana, caiu de 2,3% para 1,8%. Em fevereiro, o grupo achava que o Brasil poderia crescer 2,8% este ano. O economista Rodolfo Cabral, da 4E, explica que a surpresa negativa com o resultado do PIB de 2019, que ficou em 1,1%, teve impacto na primeira atualização dos números. O que mais influenciou nas quedas recentes, no entanto, foi o cenário internacional.


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