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Estado de Minas CRISE

Depois de impacto de Brumadinho, especialistas apontam que indústria deve se recuperar em 2020

Segundo pesquisa do IBGE divulgada nesta terça-feira, a produção industrial brasileira caiu 1,1% em 2019, puxada pela redução de atividade mineral, consequência do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho. Foi a primeira queda em dois anos


postado em 05/02/2020 13:30 / atualizado em 05/02/2020 14:10

Um ano depois do vazamento em Brumadinho, o Corpo de Bombeiros varreu 95% da área afetada e ainda busca desaparecidos (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press - 14/1/20)
Um ano depois do vazamento em Brumadinho, o Corpo de Bombeiros varreu 95% da área afetada e ainda busca desaparecidos (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press - 14/1/20)
A produção industrial brasileira de 2019 caiu 1,1% em relação a 2018, segundo a Pesquisa Industrial Mensal (PIM-PF), divulgada nesta terça-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foi a primeira queda após dois anos, influenciada pelo baque sofrido na mineração de ferro, após o rompimento da barragem de Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho, na Grande Belo Horizonte. O vazamento do reservatório deixou 259 mortos, 11 pessoas desaparecidas e contaminou mananciais hídricos. Segundo o IBGE, o ritmo das fábricas foi derrubado pela redução de 9,7% na produção da indústria extrativa, que engloba a atividade mineral.
 
O gerente de pesquisa do instituto, André Macedo, afirmou que se o setor extrativo fosse retirado do cálculo, a indústria teria registrado expansão de 0,2% no ano. Em 2018, a produção industrial havia avançado 1% e em 2017 o crescimento foi de 2,5%. O IBGE identificou, ainda, outros 15 setores com resultados negativos, totalizando 16 no vermelho, entre 26 atividades da indústria observadas. Entre elas, estão a metalurgia (-2,9%), a indústria de celulose e papel (-3,9%) e a manutenção, reparação e instalação de máquinas e equipamentos (-9,1%).

O economista da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) Marcos Marçal explica que o recuo na produção de minério de ferro resultante do rompimento da barragem da Vale, no fim de janeiro de 2019, se espalhou para outros setores. “A indústria extrativa demanda de outros setores. As empresas compram máquinas e veículos. Com o desastre, a queda se dissemina. Além disso, houve redução da atividade extrativa no Pará, por outros motivos, bem como em outras instalações da Vale em Minas”, afirma.
 
O economista também aponta a crise na Argentina, que mantém grande demanda à mineração e à metalurgia devido à compra de veículos e partes de carros, como outro fator que contribuiu para a retração da atividade extrativa em 2019. Para 2020, Marçal espera recuperação do setor minerário. Porém, ele acredita que é algo dependente de uma série de fatores, como a demanda da China. “Ainda é cedo para falar, estamos avaliando o impacto. Mas a recuperação deve ser mais moderada”, diz.
 
O professor de economia da escola de negócios Ibmec/MG, Felipe Leroy, atribui o impacto da retração da indústria extrativa na produção industrial geral a uma concentração nas mãos de poucas empresas. “O impacto de um desastre ambiental, que é o maior da história, transborda para dentro do próprio setor e de outros, como o de serviços”, explica. Na opinião de Leroy, especialmente para Minas Gerais, o estrago é maior devido a uma concentração da produção em poucos setores: o minerário e o agropecuário.
 
Por isso, na avaliação de Leroy, Minas não deve ficar dependente de fatores como a demanda chinesa e a concorrência externa na mineração. “Como estratégia econômica, é necessário fugir dessa matriz de minério, dependente da exportação”, argumenta. Porém, o professor afirma que commodities (produtos agrícolas e minerais com preços cotados no exterior) tradicionais da economia mineira, como o café, têm boa performance no comércio internacional.
 
Em relação à redução de desempenho da indústria em geral, Marcos Marçal avalia que foi algo próprio de 2019 e não deve representar tendência para o ano que vem. “As perspectivas para 2020 são melhores. A redução da taxa Selic (aquela quer remumera os títulos do governo no mercado financeiro e serve de referência para as operações nos bancos e no comércio) e a retomada dos índices de confiança do empresário devem significar um nível de investimento maior na indústria”, afirma. Já para Felipe Leroy, a tendência é de “leve recuperação no médio e no longo prazo. A indústria é um dos últimos setores a responder com a recuperação econômica”, diz.

Consumo

 
Duas das quatro grandes categorias econômicas monitoradas pela pesquisa apresentaram queda. A produção do grupo de bens de capital, que representa a fabricação de máquinas e instalações que são utilizadas para produzir outros bens, teve queda de 0,4%. A de bens intermediários, que envolve as matérias-primas usadas na produção industrial – onde a mineração é contabilizada – caiu 2,2% em 2019.
 
Por outro lado, as outras duas categorias, referentes aos bens de consumo, apresentaram crescimento em 2019. A de bens de consumo duráveis teve expansão de 2%. Já a de bens de consumo semiduráveis e não duráveis cresceu 0,9%. Dessa forma, atividades como a produção de veículos automotores (2,1%), produtos alimentícios (1,6%) e bebidas (4%) tiveram expansão durante o ano passado.
 
Ou seja, em 2019 a tendência foi de recuo da produção de máquinas e matérias-primas, mas de expansão do consumo. Para o professor Felipe Leroy, como a demanda estava baixa, não havia necessidade do empresário investir na ampliação da capacidade de produção e em novas máquinas. “Com a retomada de atividade da economia, o consumo aumentou. Por isso, depois devemos ter uma ampliação da capacidade de produção para atender essa demanda”, analisa.
 
Na comparação do índice de produção industrial de dezembro de 2019 com dezembro de 2018, a queda foi de 1,2%. O quadro é similar ao do acumulado de 2019, com retração na indústria extrativa de 12,2%. No entanto, a produção de derivados de petróleo e biocombustíveis teve expansão de 10,8% no período. Já na comparação do índice do quarto trimestre do ano passado com o terceiro trimestre, houve “redução na intensidade da perda”, como descreveu o IBGE. Nos três últimos meses de 2019, predominou queda de 0,6% na produção industrial, ante redução de 1,2% no terceiro trimestre.
 
*Estagiário sob supervisão da sub-editora Marta Vieira 

Baque é de 3,1% na venda de carros

A Federação Nacional de Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) informou que continua otimista quanto ao comportamento das vendas neste ano, apesar da queda nas vendas em janeiro e dos temores globais que surgiram com o surto do coronavírus. “A crença para o restante do ano é muito positiva, em especial por causa da disponibilidade de crédito, com taxa de juros e inadimplência extremamente baixas”, disse o presidente da federação, Alarico Asumpção Jr.
 
A economista Tereza Fernandes, que trabalha na consultoria MB Associados e elabora cenários econômicos para a Fenabrave, acredita que o surto do coronavírus deve criar um cenário desfavorável para o Brasil e para o mercado de veículos. As vendas de carros novos começaram o ano em baixa no Brasil. Foram vendidas 193,4 mil unidades em janeiro, queda de 3,1% ante o mesmo mês do ano passado, em comparação que considera os segmentos de automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus. Em relação ao último mês de 2019, que tradicionalmente é mais aquecido, houve recuo de 26,3%
 
Para a economista Tereza Fernandes, a projeção de crescimento global de 3,3% feita pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) deve perder 0,3 ponto percentual. “Uma taxa, portanto, de 3% ainda é um belo crescimento e nos deixa tranquilos, com um olhar otimista para o mundo”, disse.
 
Tereza afirmou ainda que o mercado de veículos em 2020 será beneficiado por uma combinação de fatores econômicos que inclui aumento da massa real de salário, expansão do crédito e queda do desemprego. Ela disse também que a taxa de câmbio, apesar de mais alta, não alterou o risco/país e não tem influenciado a inflação.
 
A Fenabrave divulgou, no início de janeiro, que espera expansão do mercado total de 9,6%, para 3,05 milhões de unidades. Apesar da queda no primeiro mês do ano, a estimativa está mantida. Entre os veículos leves, que somam os segmentos de automóveis e comerciais leves e representam mais de 90% do mercado, os emplacamentos atingiram 184,1 mil unidades em janeiro, queda de 3,4% frente igual mês de 2019 e de 26,9% em relação ao último mês do ano passado. A projeção para o ano é de alta de 9%.


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