Publicidade

Estado de Minas FÓRUM MUNDIAL EM DAVOS

Meio ambiente domina preocupação empresarial

Para um dos representantes do organismo internacional, o Brasil repete erros do passado e deve parar o desmatamento antes que seja tarde demais. Apesar da exposição negativa do país, Bolsonaro não irá à Suíça


postado em 16/01/2020 04:00


Brasil foi bastante criticado por causa das queimadas e desmatamento na Amazônia no ano pasado. A ativista Greta Thunberg será uma das palestrantes. No último dia 8, o presidente Jair Bolsonaro decidiu não comparecer ao Fórum Mundial (foto: Vinícius Mendonça/Ibama)
Brasil foi bastante criticado por causa das queimadas e desmatamento na Amazônia no ano pasado. A ativista Greta Thunberg será uma das palestrantes. No último dia 8, o presidente Jair Bolsonaro decidiu não comparecer ao Fórum Mundial (foto: Vinícius Mendonça/Ibama)





São Paulo – O Brasil mereceu uma menção especial durante a divulgação, ontem, em Londres, do Relatório de Riscos Globais 2020, encomendado pelo Fórum Econômico Mundial. A razão, no entanto, não foi meritória. Peter Giger, especialista-chefe do Departamento de Risco da Zürich Insurance e um dos autores do levantamento, que neste ano aponta o meio ambiente como foco central das preocupações dos maiores líderes globais do planeta, alertou para o crescimento do desmatamento.

“O Brasil é um exemplo diferente. Da perspectiva do risco, está repetindo erros do passado, de centenas de anos atrás. Isso é sempre uma tragédia. No Brasil, a questão é não repetir os mesmos erros como sociedade global e como parar o desmatamento antes que seja tarde demais”, disse no encontro com jornalistas internacionais.

Já o presidente do Fórum Econômico Mundial, Borge Brende, lamentou a ausência de Jair Bolsonaro, chefe do Executivo brasileiro, na edição deste ano do encontro, que acontece entre os dias 21 e 24, em Davos, na Suíça, e alertou para a necessidade de as reformas do Estado avançarem sem que se descuide de políticas de redução da desigualdade no Brasil.
 
(foto: Unclimate Change/Divulgação)
(foto: Unclimate Change/Divulgação)
 
 
PUXÃO DE ORELHA 

Segundo Brende, o discurso do presidente brasileiro foi bem recebido pelos participantes na versão 2019 do encontro. Mas ainda há uma agenda importante de reformas pela frente, com o objetivo de garantir o crescimento econômico do país. “Isso precisa ser feito em paralelo com medidas para conter as desigualdades, que ainda são significativas no país”, declarou. O cancelamento da viagem de Bolsonaro à Suíça foi anunciado no último dia 8.

Bolsonaro desistiu de participar do Fórum Econômico Mundial em um momento ainda delicado para a imagem do Brasil, depois de as queimadas e o desmatamento na Amazônia terem dominado o noticiário internacional. 

Em 2019, o total de focos de fogo na região cresceu 30% na comparação com os números do ano anterior, conforme mostram os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados recentemente. Foram, ao todo, 89.178 incêndios detectados pelo satélite. Esse volume só perde para o registrado em 2017, quando ocorreram 107.439 focos.

Ao citar o presidente brasileiro e levantar a bandeira da preocupação ambiental, o discurso dos representantes do Fórum Econômico Mundial se mostra alinhado ao resultado do Relatório de Riscos Globais 2020. Feito neste ano a partir de entrevistas com cerca de 750 especialistas e tomadores de decisão, o documento costuma embasar as discussões em Davos.
 
 
(foto: José Cruz/Agência Brasil)
(foto: José Cruz/Agência Brasil)
 
EM ALERTA 

Neste ano, pela primeira vez, as cinco maiores preocupações apontadas pelos entrevistados são ambientais. São elas, classificadas em termos de probabilidade e gravidade:

1. Eventos climáticos extremos com grandes danos à propriedade, infraestrutura e perda de vidas humanas.

2. Falha na mitigação e adaptação às mudanças climáticas por parte do governo e das empresas.

3. Grande perda de biodiversidade e colapso do ecossistema (terrestre ou marinho) com consequências irreversíveis para o meio ambiente, resultando em recursos severamente esgotados para a humanidade e para as indústrias.

4. Grandes desastres naturais, como terremotos, tsunamis, erupções vulcânicas e tempestades geomagnéticas.

5. Danos e desastres ambientais causados pelo homem, incluindo crimes ambientais, como derramamentos de óleo e contaminação radioativa.

JOVENS MAIS PREOCUPADOS 

Em particular entre as gerações mais jovens, a saúde do planeta é alarmante. Os riscos são percebidos de maneira diferente pelos nascidos após 1980, aponta o relatório. Esse público classificou os riscos ambientais mais altos do que outros entrevistados, a curto e a longo prazo.

Para aproximadamente 90% dos entrevistados dessa faixa etária, as “ondas de calor extremas”, “destruição de ecossistemas” e “saúde impactada pela poluição” serão agravadas em 2020, em comparação com cerca de 70% para outras gerações. 

Eles também acreditam que o impacto dos riscos ambientais até 2030 será mais catastrófico e mais provável.

Diante dessas avaliações, faz todo sentido a apresentação da ativista Greta Thunberg como uma das palestrantes em Davos neste ano, onde poderá esbarrar novamente com o presidente americano Donald Trump, com quem já teve atritos pelas redes sociais (modelo seguido por Bolsonaro logo depois).

Além da pauta ambiental, a pesquisa destaca a cautela dos entrevistados quanto às limitações na governança do setor de tecnologia, dos setores de saúde e da elevada desigualdade.



Pauta ambiental está atrelada à comercial

Eventos climáticos extremos, como os incêndios na Austrália servem de alerta. O país encara grandes danos à propriedade, infraestrutura e perda de vidas (foto: nswrfs/Divulgação)
Eventos climáticos extremos, como os incêndios na Austrália servem de alerta. O país encara grandes danos à propriedade, infraestrutura e perda de vidas (foto: nswrfs/Divulgação)
 
Tema sempre presente nas versões anteriores da pesquisa, os riscos econômicos perderam espaço entre os itens mais relevantes para os exe- cutivos. Essa percepção alertou os coordenadores da pesquisa. Segundo o autor principal, Emilio Granados Franco, chefe de Riscos Globais e Agenda Geopolítica do Fórum Econômico Mundial, “como os riscos ambientais e econômicos estão indissociavelmente ligados, as percepções de risco que representam apenas um outros pontos cegos podem estar surgindo e esforços integrados de mitigação podem estar faltando.”

As guerras comerciais e a ascensão de políticos nacionalistas em todo o mundo também foram lembrados pelos especialistas e tomadores de decisão como problemas que dificultam aos países trabalharem juntos em busca de soluções. “O panorama político está polarizado, os níveis do mar estão subindo e os incêndios decorrentes do clima estão ardendo”, disse Brende.

O relatório aponta também para um ano de aumento das divisões domésticas e internacionais e desaceleração econômica. Segundo o Fórum Econômico Mundial, a turbulência geopolítica está dando ao mundo contornos unilaterais “instáveis” de grandes rivalidades de poder. Mas, diferentemente dessa realidade, o momento deveria levar líderes empresariais e governamentais a se concentrarem com urgência no trabalho conjunto para enfrentar os riscos compartilhados.

PESO NO SEGURO 

Giger, diretor de risco do grupo Zurich Insurance Group, pede que as empresas se voltem ao desenvolvimento de métricas que avaliem o valor da natureza em seu trabalho. Ele lembra que a degradação de áreas úmidas, manguezais e recifes de coral reflete em custos de seguro para empresas locais. “O investimento em práticas florestais ecológicas e sensatas reduziria os custos de seguro para setores como empresas de energia e água, que podem estar expostos a riscos de incêndio.”

Ainda que o meio ambiente domine a pauta, questões econômicas e políticas fazem parte do rol de preocupações. Segundo a pesquisa, 78% consideram que os “confrontos econômicos” e a “polarização política doméstica” provavelmente aumentarão e terão um forte impacto em 2020.

John Drzik, presidente da Marsh & McLennan, que participou da elaboração do relatório, atribui ao setor privado a responsabilidade em assumir a liderança. Com o progresso multilateral limitado, diz, as corporações devem agir de forma coesa para mitigar riscos e encontrar oportunidades.

“Há uma pressão crescente sobre empresas de investidores, reguladores, clientes e funcionários para demonstrar sua resiliência ao aumento da volatilidade climática. Os avanços científicos significam que os riscos climáticos agora podem ser modelados com maior precisão e incorporados ao gerenciamento de riscos e aos planos de negócios”, explica Drzik.

Ainda segundo o executivo da Marsh & McLennan, “eventos de grandes proporções, como os incêndios florestais recentes na Austrália e na Califórnia, estão pressionando as empresas a tomar medidas contra os riscos climáticos em um momento em que também enfrentam maiores desafios geopolíticos e de riscos cibernéticos”.
 


Publicidade