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Estado de Minas ENTREVISTA

Executivo de uma das maiores corretoras do mundo está otimista com economia do Brasil

"O mercado aprendeu a separar a economia da política" afirma Erminio Lucci, CEO da BGC Partners Brazil


postado em 30/12/2019 07:30 / atualizado em 30/12/2019 07:52


São Paulo – O executivo Erminio Lucci, CEO da operação brasileira da gigante americana BGC Partners, uma das maiores corretoras do mundo, está otimista com os rumos da economia em 2020. Para ele, 2019 ensinou investidores a separar ruídos políticos de fundamentos macroeconômicos, o que ajudou a levar a bolsa a novos recordes. “Os grandes ruídos que presenciamos durante o ano foram, basicamente, de relacionamento entre os três poderes. Esses conflitos vão continuar acontecendo, o que é natural numa democracia consolidada”, diz Lucci.

Tivemos um bom ano. Os números da bolsa em geral foram muito positivos. Várias emissões de dívidas, várias emissões de ações. No contexto geral, o volume negociado cresceu bastante, e a BGC conseguiu capturar esse movimento. O crescimento foi muito representativo em equity, principalmente. A BGC Brasil nunca foi uma casa grande em equity, mas a gente se posicionou estrategicamente para ter uma participação maior em ações. Conseguimos. Montamos uma equipe bem sênior, do Goldman Sachs e UBS, além de uma parceria com a Eleven Research, para vender serviço de equity. Não posso abrir muitos números, mas em equity crescemos acima de três dígitos. No geral, em receita no Brasil, o crescimento ficou acima de dois dígitos.

O que motivou um número tão expressivo de investidores a migrar para a bolsa?
Com certeza foi o juro real próximo de zero. Há um movimento estrutural de saída de recursos de poupança e de renda fixa para multimercado e ações. Todos os investidores estão buscando maior rentabilidade.

A conjuntura macroeconômica foi um fator decisivo para levar mais investidores para a bolsa?
No fim das contas, tudo se reflete nos juros. Estamos com juros competitivos, de primeiro mundo. Temos juros reais em níveis de país que quer crescer. O fato de juros básicos estarem nos patamares de hoje significa que há uma série de fatores favoráveis que permitem isso. Uma política fiscal responsável, a aprovação da reforma da previdência, um Banco Central ativo e com boa comunicação com o mercado, ancorando bem as expectativas, e a inflação baixa são condições macroeconômicas do país que foram muito bem colocadas. Isso indica um ambiente muito bom para 2020. A consequência dos juros reais baixos é o principal motor da alocação de recursos da renda fixa em renda variável. Acredito que esse processo vai durar um bom tempo.
 

"O presidente fez um bom trabalho em isolar e deixar sua equipe econômica trabalhar"

 
 
Mas a queda nos juros não foi reflexo também de uma economia apática, sem crescimento da atividade produtiva e do consumo?
Também. A economia desaquecida, com o hiato do PIB bem aberto ainda, se reflete na inflação. Essa é mais uma variável para os juros continuarem baixos. Esta á a variável A. Mas a variável B é, claramente, a reforma da previdência. Com a aprovação, o Brasil voltou a ser fiscalmente solvente. Naturalmente, isso é um fator que puxa a estrutura da curva de juros para baixo. Foram esses dois temas principais que explicam esse cenário.

Quais são suas projeções para 2020?
Estamos projetando um crescimento de 2% para o PIB, com viés de alta, com uma inflação de 3,7% e câmbio ao redor de R$ 4,00. O que pode mudar isso, para baixo, é uma crise política que ninguém está antevendo. Talvez uma crise americana desfavorável para o mercado, algum ruído político ou escândalo que possa m udar o humor geral. Internamente, só um black swan (cisne negro) político pode atrapalhar. Mas isso não está no nosso radar. Externamente, uma desaceleração grande na economia global ou a eleição de um candidato mais à esquerda nas eleições americanas.

Há motivos para se preocupar com ruídos políticos no Brasil? Afinal, não faltaram polêmicas em 2019 e tudo indica que elas continuarão em 2020.
Os investidores conseguem hoje distinguir o que é ruído daquilo que não é ruído. No Brasil, o mercado aprendeu a separar a economia da política. Afinal, na política sempre vai ter ruído. A política é a arte do possível. Então, não existe política sem ruídos. Podemos ter períodos de maior ou menor turbulência, mas sempre haverá polêmicas pelo caminho.

Quais foram os ruídos de 2019 que chamaram a atenção dos investidores?
Os grandes ruídos que presenciamos durante o ano foram, basicamente, de relacionamento entre os três poderes. Esses conflitos vão continuar acontecendo. Isso é natural numa democracia consolidada, com três poderes fortalecidos. Há picos e há vales, mas não vejo isso afetando a democracia e os rumos da economia. Os investidores, tanto os estrangeiros como os locais, já entenderam isso.

Qual o seu balanço do primeiro ano do presidente Jair Bolsonaro?
O presidente fez um bom trabalho em isolar e deixar trabalhar sua equipe econômica, seja o ministro da Infraestrutura, seja o ministro da Economia. As privatizações, as concessões, o processo de desburocratização, as reformas e a estabilidade monetária avançaram. Então, houve uma certa blindagem dos ministérios ma is essen ciais. Isso foi o grande pilar que sustentou as expectativas do mercado.

A separação entre economia é política é, geralmente, uma característica de país desenvolvido?
Sem dúvida. Veja o exemplo dos Estados Unidos. O presidente Donald Trump está respondendo a um processo de impeachment, mas parece que nada está acontecendo na economia do país. Os ativos estão em alta histórica. Agora, no Brasil, não posso afirmar que esse descolamento entre economia e política é uma tendência de longo p razo. Tudo vai depender do nível da polêmica. Se houver uma crise mais aguda no governo ou uma ruptura política, aí não tem como evitar a contaminação. Mesmo que o mercado esteja separando bem o que é ruído e o que é fundamento, o descolamento tem limite.

O que se pode esperar das privatizações e das reformas em 2020? Esses fatores podem ser mais positivos para a economia do que foi a reforma da previdência?
Para o crescimento econômico, sim. A reforma da previdência atingiu a economia de forma indireta. Ela deixou o país solvente. Agora, a reforma tributária e as concessões vão, efetivamente, ter impacto direto no crescimento. Primeiro, com a desburocratização do nosso regime tributário, que é muito complexo. Segundo, com o aumento do investimento estrangeiro direto. Se as duas andarem, como parecem que vão andar, o país tende a ter uma alta do PIB maior do que os 2% que estamos estimando atualmente.
 

"A reforma da Previdência atingiu a economia de forma indireta. Ela deixou o país solvente. Agora, a reforma tributária e as concessões vão ter impacto direto no crescimento"

 
 
Na avaliação dos investidores estrangeiros, qual é o maior entrave para que ingressem de vez no Brasil?
Esse tema está em todas as reuniões que temos com o mercado. O problema é o que Brasil compete hoje com outras classes de ativos de investimento. Neste ano, o S&P subiu mais que a bolsa no Brasil. A Nasdaq também. Então, o investidor analisa se compensa gastar a “hora-homem” dele em uma economia como a do Brasil, em que é pr eciso te r um grau de detalhamento maior e mais complexo. No mercado americano, o crescimento é mais fácil, mais transparente e mais líquido. É um país mais estável e seguro. O Brasil tem gargalos a serem resolvidos.

Que gargalos são esses?
Infraestrutura, custo-Brasil, falta de mão de obra qualificada e energia. Essas quatro variáveis vão determinar os rumos da economia nos próximos anos.

Se o Brasil não é atrativo comparado com os Estados Unidos, por que os investimentos crescem tanto?
Atualmente, o mercado brasileiro está andando com o fôlego doméstico. Não precisou de capital estrangeiro para levar a bolsa de 90 mil para 117 mil pontos. O poupador brasileiro está tomando risco porque acabou o período de rentismo, com CDI a 14% ou 15%. O investidor se viu obrigado a tomar risco e isso voltou a fazer do Brasil um mercado n ormal. O mercado de rentismo bloqueia investimentos, bloqueia a alocação produtiva dos recursos da economia. Tudo isso é um grande novo mundo para o poupador brasileiro.

Quanto tempo vai durar essa migração da renda fixa para a variável?
Difícil saber. Antes, o padrão era de 20% a 30% dos recursos ficarem em ações e o restante em renda fixa. O mix não vai se inverter, mas certamente a fatia em renda variável vai crescer bastante.

O que explica a preferência do brasileiro por investimento em poupança?
A única explicação é a falta de educação financeira. O brasileiro, em geral, não entende o que é risco e retorno do investimento. Muitos estão buscando se informar mais sobre as opções de investimento, mas uma grande parcela não quer ou não se interessa em entender mais sobre multimercado ou sobre bolsa. Esse processo de aprendizado demora alguns anos.


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