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Estado de Minas PETRÓLEO EM CRISE

Brasil pode ter de gasolina mais cara a inflação maior, dizem especialistas

Com queda da produção da Arábia Saudita, preços sobem no mundo, dão ganho à Petrobras, mas tendem a promover aumento na bomba


postado em 17/09/2019 04:00 / atualizado em 17/09/2019 10:00

Movimento no mercado financeiro de Dubai refletiu instabilidade no Golfo (foto: Karim Sahib/AFP)
Movimento no mercado financeiro de Dubai refletiu instabilidade no Golfo (foto: Karim Sahib/AFP)

O consumidor brasileiro deve se preparar já para sofrer os impactos da crise provocada por ataques no fim semana a infraestruturas petroleiras na Arábia Saudita, que o governo dos Estados Unidos (EUA) atribuiu ao Irã, e que levaram ao corte de metade da produção do maior exportador mundial do óleo.

Especialistas ouvidos pelo Estado de Minas concordam em que os impactos devem ser sentidos nas bombas dos postos de gasolina a partir da próxima semana, caso persista a instabilidade dos preços do petróleo, com viés de alta. 
 
O ataque a unidades da petroleira Saudi Aramco, na Arábia Saudita teria sido equivalente ao atentado contra as torres gêmeas, nos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001, considerando-se o risco imposto ao mercado de petróleo, afirmou o diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Décio Oddone, em rede social.
 
Já o governo brasileiro afirma que não haverá reajuste de preços em decorrência do ataque no Golfo.
 
Para o mercado financeiro, a Petrobras deve seguir com sua atual política de preços atrelados ao movimento das cotações no mercado internacional, alterando os valores dos combustíveis no país, quando houver mudança de patamares no exterior. O uso político das estratégias da companhia, para atender demandas do governo, é condenado por analistas de bancos e corretoras, além dos próprios investidores.

Ainda em relação a reflexos possíveis da crise no Golfo Pérsico, sempre que os combustíveis encarecem, o frete das mercadorias fica mais alto e isso reflete nos preços de praticamente todos os produtos e serviços, com consequências indesejáveis sobre a inflação.

A maior incerteza no cenário internacional pode, ainda, interferir na política monetária no Brasil, contendo a redução da taxa básica de juros, a Selic, que remunera os títulos do governo no mercado financeiro e serve de referência para as operações nos bancos e no comércio.

Com a disparada das cotações no mundo, as ações da Petrobras tiveram, nessa segunda-feira (16), valorização de 4,52% dos papeis ordinários (com direito a voto) e de 4,39%, no caso dos preferenciais. A petroleira tende a ganhar com a crise no Golfo Pérsico também na oferta de áreas para investidores na camada do pré-sal, as quais devem, da mesma forma, ficar mais valorizadas.
 
A amplitude dos efeitos da crise devem ser medidos nos próximos dias. Para Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), o momento será uma espécie de “teste de fogo” para verificar como o atual governo vai conduzir, agora, a política de preços dos combustíveis. “De qualquer maneira, o preço vai ficar alto e vai ter que aumentar por aqui também. Aí teremos que ver como a Petrobras vai fazer”, afirmou.

Segundo estimativa de Adriano Pires, em cerca de uma semana os investidores começarão a pressionar a estatal por alguma medida diante da crise internacional e como ela vai se posicionar. “Não deve demorar muito tempo, no máximo uma semana, para ver os reflexos e ver o que pode fazer. Acima desse prazo o mercado já deve começara pressionar e o preço (nas bombas) deve aumentar”, avalia.

Outro reflexo, neste caso positivo para a Petrobras, é que a crise na Arábia Saudita pode valorizar o preço do leilão das áreas de exploração da camada do pré-sal, previstos para ocorrer em outubro. “Esse ataque a refinaria na Arábia é uma coisa inédita, as empresas compradoras podem considerar isso, já que no pré-sal não tem esse risco”, pondera. Além disso, em tempos de penúria das contas públicas da União, estados e municípios, ele ressalta que com a alta no preço a arrecadação dos royalties do petróleo deve subir.

Já o diretor do site de pesquisas de preços Mercado Mineiro, Feliciano Abreu, concorda que haverá reflexos inevitáveis nos preços dos combustíveis. Contudo, acredita que o prazo para que os aumentos sejam repassados aos consumidores deva seja superior a uma semana. Para ele, neste momento ainda é difícil mensurar todos os reflexos da crise. “Vamos ser afetados, sim. Qualquer movimento nos preços internacionais acaba afetando o mercado interno também. E isso acaba sendo repassado, em alguma medida para os consumidores. Mas ainda é muito cedo para saber em que nível esses preços ficarão estabelecidos”, analisa.

Opções

 
Para Feliciano Abreu, apesar do cenário dado como certo de que os preços vão se elevar em alguma medida, no caso brasileiro, os consumidores podem ter algumas opções, como o etanol. Embora os repasses aos preços cobrados pelos litros da gasolina e do diesel influenciem toda a cadeia produtiva, em alguns casos a opção pelo etanol pode ajudar a aliviar um pouco o peso no bolso dos motoristas.

“Ocorre a adição de gasolina no etanol, mas ele pode ser uma opção já que nas bombas está com preço competitivo”, disse. A influência nesse caso, além do percentual de gasolina, é o momento atual em que a cana-de-açúcar fica no período de entressafra. “Por isso, o consumidor tem que ficar esperto e pesquisar ou mesmo economizar e não abastecer para forçar a queda do preço”.


Investidor reage ainda no escuro


As ações da Petrobras mostraram alta na manhã desta segunda-feira, 16, após o ataque a unidades de processamento de petróleo da Saudi Aramco, na Arábia Saudita, no sábado. O ataque foi reivindicados pelos rebeldes houthis do Iêmen. Às 11h30 as ações ordinárias da companhia (ON, com direito a voto) avançavam 3,61%, sendo cotadas a R$ 30,73, enquanto as preferenciais (PN, sem direito a voto) subiam 3,31%, a R$ 27,77; mais cedo a alta chegou a 4%. No fim do dia, o balanço foi de valorização de 4,52% e 2,39%, respectivamente. O índice das ações mais negociadas na bolsa, o Ibovespa, teve leve alta de 0,17% a 103.680 pontos, mas outras empresas sofreram os reflexos da crise do petróleo.
 
A instabilidade também afetou os papéis das empresas aéreas brasileiras: as ações PN da Gol caíam 6,53% e as da Azul, 7,42%. O ataque às instalações sauditas comprometeu metade da produção da petrolífera do país. Com isso, os preços do petróleo dos tipos Brent e WTI mostraram alta de mais de 10%. As ações de companhias petrolíferas ao redor do mundo também tiveram forte alta, incluindo as americanas ExxonMobil e Chevron, e as europeias Shell e BP.

“Para a Petrobras, vemos como positiva a alta do petróleo, contribuindo não só para o melhor preço de venda da commodity como também pode aumentar o interesse pelos ativos da cessão onerosa, com leilão previsto para os próximos meses”, apontou Luis Gustavo Pereira, estrategista da Guide Investimentos.

A XP Investimentos destaca em relatório que cerca de 30% dos custos das companhias aéreas estão relacionados ao querosene de aviação, que deve subir com o petróleo mais caro.

O Ibovespa, principal índice de Bolsa de São Paulo, chegou a subir na abertura do dia, atingindo a máxima de 103.713,17 pontos, mas logo em seguida passou a cair, com a maioria das ações da carteira do índice cedendo. Às 11h43, depois de chegar à mínima de 102.782,33 pontos, tinha queda de 0,07%, aos 103.431,20 pontos. Vale lembrar que segunda-feira é dia de vencimento de opções sobre ações, o que tende a gerar instabilidade. Às 11h51, o dólar era cotado a R$ 4,0824, com queda de 0,09%.


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