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Estado de Minas INOVAÇÃO

Falta de crescimento pode esfriar investimentos em energia eólica

Para a presidente da entidade que representa o setor, incertezas deixam tudo em compasso de espera


postado em 29/05/2019 06:00 / atualizado em 29/05/2019 08:51

Projetos de energia eólica, obtida da força dos ventos, proliferam no Brasil, como no complexo Eólico Ventos de São Clemente (foto: Abeeólica/Divulgação)
Projetos de energia eólica, obtida da força dos ventos, proliferam no Brasil, como no complexo Eólico Ventos de São Clemente (foto: Abeeólica/Divulgação)

São Paulo – O Boletim Anual de Geração da ABEEólica, divulgado ontem na abertura do Brazil Windpower, em São Paulo, mostra que a energia eólica vem despontando na matriz energética do Brasil.

Apenas em 2018, o país ganhou mais 1,94 GW de energia eólica em 75 novos parques, distribuídos por Bahia, Rio Grande do Norte, Piauí, Ceará e Maranhão.

Com isso, no fim do ano, a capacidade instalada já havia chegado a 14,71 GW, distribuídos em 583 parques eólicos. Ela é composta por 14,44 GW de parques em operação comercial (98,17%) e 0,27 GW de operação em teste (1,83%).

Esse número representa 9% de toda a energia gerada no país – uma participação elevada se for considerado o tempo de desenvolvimento desse tipo de projeto em território nacional.

Nos dias em que a geração é recorde, essa fonte chega a abastecer em torno de 14% do país. No Nordeste, onde está boa parte da operação, esse volume ultrapassa os 70%.

EM EXPANSÃO


Atualmente, mostra o levantamento, o Brasil tem por volta de 7 mil aerogeradores em operação, distribuídos por 12 estados. Essa energia gerada pelos ventos é suficiente para abastecer, em média, cerca de 76 milhões de pessoas por mês.

Ao logo de 2018, foram gerados 48,42 TWh de energia eólica, uma alta de 14,6% na comparação com 2017.

No ano passado, foram realizados dois leilões de energia – o A-4 e o A-6 –, que viabilizaram 1,25 GW de capacidade instalada em 48 parques. No A-4, a eólica foi responsável por 11,17% das contratações. Já no A-6 a participação da energia dos ventos chegou a 57,22%.

Por conta do crescimento do mercado livre, o valor de contratações no ano é estimado em uma faixa bem acima dessa.
Outro dado relevante apontado pelo boletim é que 2018 foi o primeiro ano em que as contratações no mercado livre foram maiores do que nos leilões do mercado regulado.

Segundo a publicação, foram realizados ao menos três grandes leilões para o mercado livre, dedicados à comercialização de energias renováveis.

Os números dessas operações não foram divulgados, mas a associação calcula que as empresas de energia eólica venderam por volta de 2 GW de capacidade instalada para o mercado livre em 2018. Com isso, o ano terminou com uma contratação estimada de pelo menos 3 GW de nova capacidade instalada.

BRASIL EM DESTAQUE


Segundo informações do Global Wind Energy Council (GWEC), no ano passado, o Brasil foi o quinto país que mais instalou energia eólica, atrás de China, Estados Unidos, Alemanha e Índia, que instalaram, respectivamente, 21,20 GW, 7,58 GW, 2,40 GW e 2,19 GW.

Para Elbia Gannoum, presidente executiva da ABEEólica, os investimentos no setor só vão voltar quando a economia retomar o ritmo(foto: Abeeólica/Divulgação)
Para Elbia Gannoum, presidente executiva da ABEEólica, os investimentos no setor só vão voltar quando a economia retomar o ritmo (foto: Abeeólica/Divulgação)

Na análise de Elbia Gannoum presidente executiva da ABEEólica, 2018 foi um ano favorável ao setor de energia eólica, tanto pelo aumento de produção e de novas instalações, quanto pelo desempenho dos leilões e pelo protagonismo do mercado livre, que, segundo ela, apresenta uma tendência de expansão nos próximos anos.

Para a representante da entidade, “a jornada da energia solar tem sido intensa e rápida no Brasil. Em 2012, o Brasil ocupava a 15ª posição em geração, mas no ano passado já estava em 8º lugar”. O Brasil já está entre as 10 potências em capacidade instalada.

DÁ PARA CRESCER MAIS


Segundo Elbia, no entanto, o Brasil está abaixo do que teria condições de instalar se forem levados em consideração sua força de trabalho, o total de empresas e a capacidade de mobilização.

“Com mais contratações, poderíamos facilmente instalar mais de 2 GW por ano com tranquilidade, mantendo nossa posição entre as potências mundiais e ampliando a participação da eólica na matriz brasileira”, afirma a executiva.

Para a presidente da associação, o Brasil tem tanto vantagens quanto desvantagens quando se trata de energia eólica. O principal ponto a seu favor é a grande extensão territorial.

Com isso, o potencial eólico on-shore (em terra) do país é da ordem de 500 GW, e explora de 20% a 25% desse total. “O potencial é quase infinito. O vento brasileiro é forte, constante e unidirecional, principalmente no Nordeste, por isso vento é altamente produtivo’, avalia Elbia.

ECONOMIA ATRAPALHA


Mas a principal desvantagem hoje, segundo a executiva, não tem a ver com o a direção dos ventos, mas sim com o humor dos investidores. “O problema hoje está na macroeconomia, no crescimento econômico. Os investidores todos querem investir no Brasil, mas a economia não está crescendo e não há demanda suficiente na contratação de energia. Os investimentos só vão voltar a ser feitos quando a economia retomar”, alerta a representante da ABEEólica.

A baixa expectativa de crescimento do país atrapalha, mas o câmbio desfavorável ao real não tem afetado a indústria eólica. Isso porque nos últimos seis anos a produção nacional de equipamentos tem crescido exponencialmente, reduzindo a exposição à moeda americana.

Esse crescimento visto na indústria eólica brasileira nos últimos anos tem uma explicação: a redução do custo da tecnologia. Segundo Elbia, esse foi um fator decisivo para a expansão dessa fonte de geração de energia no país.

“O fator central foi a tecnologia, com a redução de custo. Agora, 10 anos depois do primeiro leilão de energia de fonte eólica, em 2009, vemos como os preços se tornaram competitivos. Por outro lado, as hidrelétricas foram se tornando mais escassas”, conta.

Em 2011, a energia eólica já se tornou a segunda fonte mais barata. A partir de 2017, ela passou a ser a primeira fonte, lembra Elbia. “Todo esse crescimento nos últimos 10 anos e o potencial a ser explorado têm a ver também com a disponibilidade de recursos. Diferentemente dos projetos de hidrelétricas, que se tornaram coisas escandalosas do ponto de vista socioambiental”.

“BRASILEIRO ACHA BONITO”


Com os avanços tecnológicos, a energia eólica tem conseguido minimizar parte de seus problemas, apontados por especialistas. Um deles é o impacto visual e de ruído dos aerogeradores.

Como eles têm sido construídos para serem ainda mais altos, o barulho já é menor para a população que mora nas proximidades dos parques. Já o efeito visual, afirma Elbia, não chega a ser um problema para os brasileiros.

“Sabemos que os brasileiros não se incomodam muito com o impacto visual, diferentemente dos europeus. O brasileiro acha muito bonito, portanto o impacto visual é subjetivo, depende da cultura”, diz.

No Brasil, o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) é responsável pelas regras para a instalação dos aerogeradores, que têm de estar dentro das regras mínimas de distância e de altura das áreas ocupadas por moradores.

Quanto aos impactos ambientais, Elbia acredita que a energia eólica “é a fonte com menor impacto ambiental de todas as fontes”. Segundo a executiva, na região Nordeste não há problemas de aerogeradores instalados em áreas onde há aves voando. Já no Sul, segue-se a restrição para a construção de parques eólicos onde há rotas migratórias de pássaros.

Elbia, no entanto, acrescenta um dado positivo em relação ao crescimento da energia eólica no país. “Quando os aerogeradores são levados para o interior do país, especialmente para o Semiárido, leva-se também o desenvolvimento com pouco recurso. Normalmente, os equipamentos são instalados em pequenas propriedades, que recebem um aluguel pela área ocupada (paga-se cerca de R$ 1 mil por mês por aerogerador).

Muitos viviam dos R$ 100 ou R$ 150 do Bolsa Família, então essa fonte de renda tem um impacto econômico e no desenvolvimento muito grande”, avalia a presidente da associação.

Chineses avançam no Nordeste


Neste mês, foi anunciado o contrato entre a italiana Enel, por meio da subsidiária Enel Green Power, e a chinesa CGN Energy Internacional Holding para a venda de 540 megawatts em usinas eólicas e solares no Brasil.

O negócio é avaliado em cerca de R$ 2,9 bilhões e envolve 100% dos ativos, que já estão operacionais, com pagamento no momento da conclusão do negócio.

Fazem parte do acordo as usinas solares de Nova Olinda, com 292 megawatts, no Piauí, e Lapa, de 158 megawatts, na Bahia, além do parque eólico Cristalândia, de 90 megawatts, também na Bahia.

A decisão de passar o ativo adiante tem a ver com a estratégia da Enel de “construir, vender e operar” (BSO, na sigla em inglês), e assim se capitalizar para outros projetos estratégicos.

A transação deve ser concluída no terceiro trimestre deste ano. Em janeiro, a empresa chinesa já havia comprado cerca de R$ 3 bilhões em ativos energéticos eólicos e solares pertencentes ao grupo italiano Enel Green Power.

Quase ao mesmo tempo em que acertou o acordo com a Enel, a CGN Energy International Holdings anunciou na China, durante visita do governador da Bahia, Rui Costa (PT), que investirá R$ 1 bilhão em energia solar e eólica no estado. Os aportes serão feitos na região de Caetité, Tanque Novo, em Morrinhos e Bom Jesus da Lapa.

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