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Estado de Minas

Maior bienal do livro do país sofre com a crise

Feira literária de São Paulo, considerada uma das maiores do mundo, começa com queda no número de expositores e escancara a perda de fôlego do mercado editorial brasileiro


postado em 03/08/2018 06:00 / atualizado em 03/08/2018 08:13


São Paulo – Uma das maiores feiras literárias do mundo, a Bienal Internacional do Livro de São Paulo chega aos 50 anos de existência em crise de meia-idade. A 25ª edição do evento, que começa hoje na capital paulista e vai até o dia 12 de agosto, é o retrato da perda de fôlego do setor e dos tremendos desafios que o futuro impõe. Neste ano, serão 197 expositores. Em 2016, foram 280. Também há menos autores: 313, ante 388 da versão anterior.

Como de hábito, a participação dos escritores continuará qualificada. Entre os 22 autores internacionais estão os americanos A. J. Finn, autor do best-seller A mulher na janela, David Levithan, de À primeira vista, e Charlie Donlea, de A garota do lago. Entre os brasileiros, que somam 291 autores, estão confirmados Fernanda Montenegro, Mário Sérgio Cortella e Mauricio de Souza.

Para Luís Torelli, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), a redução do número de expositores se deve à instabilidade econômica brasileira. Em menor ou maior grau – e acentuada pelas incertezas eleitorais –, ela chegou a quase todos os setores. A opinião é compartilhada por Marcos da Veiga Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), que também atribui ao ambiente recessivo as dificuldades enfrentadas por editoras, livrarias e, consequentemente, organizadores de feiras literárias.

A recente crise econômica traz obstáculos, mas não é de hoje que o mercado editorial brasileiro enfrenta dificuldades. Estudo realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) mostra que, entre 2006 e 2017, as perdas do setor totalizaram R$ 1,4 bilhão. Em volume de vendas, a queda no período foi de 21%. Dados consolidados do ano passado confirmam os percalços. Em 2017, o faturamento foi de R$ 5,17 bilhões, ou uma redução real de 4,76% em relação a 2016.

O começo de 2018 parecia sinalizar uma leve recuperação, mas indicadores recentes decepcionaram. Números da Nielsen revelam que, em junho, as vendas caíram 4,11% ante o mesmo mês do ano passado. Segundo as empresas, isso se deve principalmente à greve dos caminhoneiros, que atrasou entregas e afetou os negócios em todas as regiões o país.

O declínio das vendas tem provocado estragos nas livrarias e editoras. No ano passado, a Saraiva fechou 13 lojas no país. Desde que assumiu as operações brasileiras da Fnac, há exato um ano, a Livraria Cultura cortou pela metade o número de endereços do grupo francês, de 12 para seis.

Com menos lojas e vendendo pouco, as empresas têm dificuldade para honrar compromissos financeiros. Segundo o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), as três grandes redes de livrarias do Brasil (Saraiva, Fnac e Cultura) têm cerca de 1,3 mil títulos protestados. Juntos, eles somam R$ 38 milhões de pagamentos em atraso. As editoras sofrem os efeitos do calote. Gigantes do mercado como Geração Editorial, Sextante, Record e Intrínseca demitiram funcionários e reduziram o número de lançamentos.

É um equívoco atribuir a crise do setor apenas a fatores econômicos. Ela se deve também a questões comportamentais. As mídias sociais ocuparam um lugar de destaque e estão dominando as formas de entretenimento. Pesquisas no mundo inteiro indicam que os índices de leitura caem ano após ano em decorrência da dura competição com Facebook, Instagram e afins. As pessoas simplesmente trocaram os livros pelos smartphones.

No Brasil, o cenário é mais preocupante. Estudo do Ibope revelou que a leitura ocupa o décimo lugar na lista das atividades favoritas de lazer, sendo que as preferidas são ver televisão, navegar na internet e ouvir música. Outro ranking mostrou que os brasileiros são os que passam mais horas por dia na internet, e o tempo gasto aumenta a cada ano. O quadro é grave. Segundo pesquisa da Câmara Brasileira do Livro, 40% dos entrevistados jamais compraram um livro – e continuam sem a intenção de fazer isso.

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