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Estado de Minas ECONOMIA

Ninguém sai vitorioso de uma guerra comercial, diz ministro Marcos Jonas


postado em 01/08/2018 20:25

Apesar de a balança comercial brasileira ter registrado em julho um aumento de 44% no volume de soja exportada para a China, na comparação do mesmo mês do ano passado, o ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, Marcos Jorge, vê com preocupação os efeitos da guerra comercial entre Estados Unidos e China.

"Sempre tenho dito que uma guerra comercial acaba sendo ruim para todos os envolvidos. Ninguém sai vitorioso. Perde o comércio global. Podemos ter ganhos eventuais, mas que no longo prazo podem não se sustentar", comentou o ministro ao jornal O Estado de S. Paulo.

A alta nas vendas de soja para a China não são razão de euforia porque, no entendimento da área técnica do governo, o grão produzido pelos Estados Unidos que antes ia para a China pode "inundar" o mercado mundial e provocar uma queda nos preços internacionais, prejudicando inclusive as exportações brasileiras. Além disso, avalia-se que o aumento episódico dos embarques do grão nem de longe compensa os estragos do protecionismo no comércio mundial.

"É muito cedo para afirmarmos, mas esse movimento (de aumento na exportação para a China) pode ser um indício de que a soja brasileira pode estar, no momento, aumentando a sua participação no mercado chinês", disse o ministro. "Entretanto, é importante destacar que, de modo geral, ainda não há impactos estatísticos nas exportações e importações brasileiras, tampouco há reportes de impacto sentido pelos setores."

A nova ameaça de escalada na guerra comercial pela administração de Donald Trump, com uma possível sobretaxa de 25% em importações de US$ 200 bilhões da China causa apreensão tanto no governo e no setor privado.

Embora em tese isso possa aumentar as exportações do Brasil para a China de produtos como a soja, o entendimento é que todos sairão perdendo no médio e longo prazos, com a retração da economia, o enfraquecimento do sistema internacional de comércio e o aumento da insegurança jurídica. Além disso, a indústria teme o desvio, para outros mercados inclusive o brasileiro, dos produtos industriais que a China hoje vende para os Estados Unidos.

Para o setor industrial, o risco que a concretização dessa ameaça de Trump traz é o desvio do comércio. "O grande medo é a China querer colocar sua produção em outros países", disse o diretor de Desenvolvimento Industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Carlos Abijaodi. "Se a sobretaxa for mesmo aplicada, acho que vai haver um desvio de comércio grande, que será problema para nossa indústria."

"Precisamos torcer para que isso (a aplicação da sobretaxa) não aconteça", comentou o diretor. "Torcer para que haja uma negociação."

A aplicação unilateral de restrições à importação fere as normas da Organização Mundial do Comércio (OMC). "É muito ruim, porque tira o poder de uma entidade que dá as regras do comércio mundial", avaliou Abijaodi. Ele observou que, no momento, o órgão de solução de controvérsias da OMC está parado por falta de indicação de membros pelos Estados Unidos.

Na direção contrária, o Brasil apoia a atuação da OMC. Além disso, tem buscado diversificar acordos comerciais com países e blocos. A iniciativa mais ambiciosa sobre a mesa é o acordo do Mercosul com a União Europeia, que tem mais uma rodada de negociações programada para setembro.

Além desse, o Mercosul negocia acordos com Canadá, Coreia do Sul, Cingapura e um bloco chamado Associação Europeia de Livre-Comércio (Efta, na sigla em inglês), formado por Islândia, Noruega, Suíça e Liechtenstein. As entidades industriais de Brasil e Japão lançaram um documento propondo a negociação de um acordo de livre comércio.

No final de julho, o presidente Michel Temer esteve no México e lá foi firmado um compromisso de fortalecimento do comércio com os países da Aliança do Pacífico (Chile, Colômbia, México e Peru). E o próprio Mercosul trabalha para reduzir as barreiras ao comércio dentro do bloco, além de haver assinado, no ano passado, um acordo de facilitação de investimentos entre os membros e outro de compras governamentais.

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