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Estado de Minas ENTERVISTA/LUIZ RABI

"É preciso manter a agenda reformista", diz economista

Para especialista, crescimento sustentado depende da arrumação das contas públicas


postado em 27/07/2018 06:00 / atualizado em 27/07/2018 07:37

(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)

São Paulo – O Brasil conheceu em 2018 três cenários distintos. No início do ano, o otimismo levava a crer que a economia cresceria acima de 3% e os níveis de emprego melhorariam de forma expressiva. A partir de março, com a crescente indefinição do cenário eleitoral e a liderança nas pesquisas dos candidatos dos extremos da ideologia, a confiança deu lugar à cautela e começaram a aparecer os primeiros prognósticos pessimistas. Depois da greve dos caminhoneiros, em maio, o país passou a enfrentar uma avalanche de previsões e indicadores negativos.

Para Luiz Rabi, economista-chefe da empresa de serviços financeiros Serasa Experian, fatores como a adiada reforma da Previdência e o conservadorismo na liberação de crédito contribuíram para a piora das projeções dos analistas de bancos e corretoras. Tanto é assim que a empresa reduziu a expectativa de expansão do Produto Interno Bruto (PIB, o conjunto da produção de bens e serviços do país) em 2018 de 2,8% para 1,6%.

Luiz Rabi diz que o próximo presidente precisa ter uma agenda reformista para que o país volte a conquistar crescimento sustentável. “A pauta do próximo governante vai definir os rumos da economia brasileira nos próximos anos”, avalia.

O economista-chefe da Serasa também vê a possibilidade de fuga de capital e recrudescimento da crise econômica se o país eleger um presidente que não esteja comprometido com o ajuste fiscal. “Se essa possibilidade ficar cada vez mais real, imediatamente o mercado vai fazer o ajuste pela via dolorosa, colocando o dólar e a inflação em outros patamares. Poderíamos mergulhar em nova recessão sem saber quando vamos sair dela de novo.”

O país começou o ano com expectativa de crescimento de 3% e muitos indicadores otimistas. Por que a economia não decolou?
A política monetária foi um dos fatores. A redução de juros que o Banco Central implementou desde o fim de 2016 e ao longo de 2017 acabou chegando muito pouco na ponta do varejo. Para quem toma crédito, os juros não caíram tanto quanto a Selic (a taxa básica). Houve uma certa obstrução no canal do crédito na economia. Então, por uma postura mais conservadora por parte dos bancos, todo movimento de redução de juros que se imaginava que estimularia a concessão de crédito às pessoas físicas e jurídicas não ocorreu na intensidade que se esperava. Isso gerou frustração no ritmo do crescimento econômico em 2018.

"A greve dos caminhoneiros sepultou qualquer expectativa de que reformas econômicas importantes sejam retomadas ainda em 2018"



A não aprovação da reforma da Previdência também decepcionou empresários e investidores...
Com certeza. Desde o processo do impeachment (da presidente Dilma Rousseff), quando houve a troca do comando do Executivo, a nova equipe econômica conseguiu bons avanços do ponto de vista fiscal, como a emenda do controle do gasto público. Mas parou por aí. A reforma da Previdência começou a ser inviabilizada logo depois da divulgação da conversa entre o presidente Michel Temer e o empresário Joesley Batista, em junho do ano passado. O governo perdeu capital político e mostrou fragilidade para aprovar questões de maior porte no Congresso. Depois vieram a intervenção federal no Rio de Janeiro, impedindo votações de emendas constitucionais, e a greve dos caminhoneiros, que enterrou de vez qualquer expectativa de que a medida fosse aprovada neste ano. Acredito que a continuidade da reforma fiscal vai ficar para o próximo presidente.

O que explica a revisão feita pela Serasa do crescimento do PIB, devido à paralisação nas estradas no fim de maio?
A greve dos caminhoneiros praticamente sepultou qualquer expectativa de que reformas econômicas importantes pudessem ser retomadas ainda em 2018. O movimento abalou a confiança de praticamente todos os setores produtivos e dos consumidores. O ritmo da retomada, que já era lento, ficou ainda pior. Por isso, reduzimos a projeção de expansão do PIB de 2,8% para 1,6%, ou quase metade do que era no início do ano.

"Se o próximo presidente não fizer o ajuste fiscal, quem vai fazer é o mercado"



Os efeitos da greve dos caminhoneiros poderão ser dissipados ao longo do segundo semestre?
A metade final do ano normalmente é um pouco mais aquecida em termos de atividade econômica por causa das vendas de Natal. Então, entre agosto e outubro, a produção industrial costuma ser mais intensa. Depois de outubro temos datas importantes no varejo, como Dia das Crianças e Black Friday (megapromoção do comércio, inspirada em evento feito nos Estados Unidos). Há ainda o ingresso do 13º salário na economia e o saque das contas do PIS/Pasep. Então, temos alguns elementos que podem proporcionar crescimento no segundo semestre um pouco melhor do que foi no primeiro. Agora, não será nada que vá mudar de forma radical o cenário para o país.

As tensões eleitorais podem atrapalhar as perspectivas?
Vamos ter que conviver com as incertezas. Nas eleições de 2002, que também foram tumultuadas, o dólar chegou a alcançar R$ 4, quando ficou muito provável que o Lula (o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva) seria vitorioso. Nunca o candidato do PT havia vencido uma eleição, então existia receio de que decisões radicais fossem tomadas. Depois, a poeira foi assentada e nada disso ocorreu. Acho que vivemos o mesmo cenário. Independentemente de quem for o próximo presidente, está muito claro que a agenda fiscal precisa ser tocada, porque não é algo que seja opcional. Ela é absolutamente necessária se, de fato, queremos colocar o Brasil de novo no caminho do crescimento econômico sustentável.

A vitória de um candidato dos extremos da ideologia política pode ser perigosa para os rumos da economia?
O que se imaginava, há um ano, era que o centro seria protagonista da disputa eleitoral deste ano. Se a economia estivesse deslanchando, fortaleceria o centro e enfraqueceria as propostas radicais. Mas isso não está ocorrendo. As pesquisas, até o momento, mostram que a tendência é de que as candidaturas de centro fiquem de fora do segundo turno. Por enquanto, é uma eleição polarizada entre a esquerda e a direita.

Qual é o efeito disso no processo eleitoral?
Isso vai jogar um pouco de calor no processo eleitoral porque esses dois lados ainda não foram claros nas propostas em relação às questões fiscais. Ninguém sabe se, de fato, vão querer enfrentar o problema para retomar a confiança dos agentes econômicos para que o país volte a crescer. Se não houver uma alternativa viável de centro, é preciso que haja uma conversão dos extremos, assim como o ex-presidente Lula fez em 2002, abandonando as ideias mais radicais e caminhando para o centro para poder governar.

O que o próximo presidente precisa fazer para melhorar o ambiente de negócios no país?
Ele precisará manter uma agenda reformista. Ela é que vai definir o crescimento econômico do ano que vem. Se o candidato que ganhar as eleições não levantar a bandeira das reformas, provavelmente vai sepultar qualquer expectativa de crescimento econômico mais sustentável do Brasil nos próximos anos.

Então, necessariamente, precisamos ter um presidente comprometido com o ajuste fiscal?
Sem dúvida. A questão fiscal é o principal problema do Brasil. A dívida pública não para de crescer, o governo tem déficit nas suas contas, não temos mais superávit primário. Tivemos recentemente várias pautas-bomba que foram aprovadas no Congresso, que são bilhões de gastos a mais pendurados na conta do contribuinte e o governo não tem mais de onde tirar coelhos da cartola. Então a questão fiscal é uma condição necessária. Sem que ela esteja razoavelmente equacionada, a confiança dos agentes econômicos não retorna. Pelo contrário, vamos começar a ver fuga de capitais.

"A questão fiscal é o principal problema do Brasil. A dívida pública não para de crescer e o governo tem déficit nas suas contas"



Por quê?
O país passa a sinalizar aos investidores que não vai conseguir controlar o endividamento do setor público a médio e longo prazo. Se essa possibilidade ficar cada vez mais real, os mercados vão estressar as suas posições em relação ao Brasil.

Quais podem ser as consequências?
Isso significa dólar disparando, bolsa despencando e economia entrando de novo em recessão por falta de investimento. Então, é importante que essa possibilidade seja cada vez mais afastada. Se o próximo presidente não fizer o ajuste fiscal, quem vai fazer é o mercado. E o mercado faz do jeito dele, como fez na Grécia e na Argentina. É um ajuste fiscal que passa por calote ou hiperinflação. Essas são as alternativas que estão colocadas para o próximo ocupante do Palácio do Planalto. Ou se faz o ajuste fiscal da forma correta ou a intervenção do mercado poderá ser traumática.

Então, o risco de uma nova crise é real? Ela pode ser pior do que aquela enfrentada pelo país entre 2014 e 2016?

Se, de fato, elegermos um presidente que não esteja comprometido com o ajuste fiscal, imediatamente o mercado vai fazer o ajuste pela via dolorosa. Colocando o dólar em outro patamar, colocando a inflação em outro patamar. Quando isso ocorre, a história já mostrou que joga as economias em profunda recessão. Teremos o chamado duplo mergulho. Saímos de uma recessão longa, colocamos um pouco a cabeça para fora da água, mas, por falta de uma agenda fiscal, mergulharíamos em uma nova recessão sem saber quando poderemos sair de novo da situação.

A reforma trabalhista provocou algum impacto no ambiente de negócios?
O Brasil tinha uma legislação arcaica e muito rígida, então a reforma trabalhista foi aprovada para tornar a contratação mais aderente com o ciclo da economia. No entanto, no país você precisa acumular vários trimestres de crescimento para encorajar o empresário a voltar a contratar ou aumentar a contratação. A reforma tornou essa situação mais flexível.

 

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