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Estado de Minas

As lições e estratégias de gestão do executivo que salvou a Fiat

Sergio Marchionne, o "mito" corporativo, executivo que evitou falência da montadora e se tornou um dos símbolos da era de ouro da indústria automobilística


postado em 26/07/2018 06:00 / atualizado em 26/07/2018 15:03

(foto: Marchionne impôs uma política severa de controle de custos na Fiat )
(foto: Marchionne impôs uma política severa de controle de custos na Fiat )

Na primeira vez em que o chefão Sergio Marchionne visitou a Iveco, em Sete Lagoas (MG), em 2008, vivemos dias de intensa excitação. A pressão era tamanha que chegamos a “maquiar” um auditório inteiro, com panos pretos e tudo, só para esconder paredes que precisavam de uma pintura.

Não precisávamos de tanta aflição antecipada: havíamos colocado em movimento, de forma muito consistente, um relançamento de marca, uma arrancada de vendas e uma ampliação acelerada da rede. Com resultados: aquele era o primeiro de cinco anos em que multiplicamos as vendas por 7 e o market share por quase 3,5, uma arrancada realmente espetacular.

Na hora da minha apresentação, mostrei a ele que havíamos trazido para o mundo dos caminhões técnicas de apresentação e exposição que eram novidade para a marca e, de alguma forma, também para o setor.

O PPT (Power Point) tinha fotos espetaculares do que havíamos feito em eventos na Bahia e outros lugares (num deles, os caminhões chegaram a uma praia envoltos em um casulo colorido gigante).

Achei que estava arrasando. Marchionne acendeu um cigarro, olhou para o lado com enfado e falou de forma irônica: “I’m impressed” (“estou impressionado”). Depois falamos das campanhas publicitárias.

Uma delas tinha filme, música do Tim Maia e uma frase muito boa, criada pelo pessoal da Domínio Público: “A força da beleza, a beleza da força”. Marchionne acendeu mais um cigarro, se virou para o Luca De Meo, outro executivo de destaque na época, deu uma piscada e falou: “That’s good” (“Isso é bom”). Ganhei meu dia.


Para quem trabalhava na Fiat, Marchionne representava segurança e liderança. Quando assumiu, em meio à crise que a Fiat vivia na época, sua primeira decisão foi demitir o diretor mundial de RH.

“Se a empresa está ruim é por causa das pessoas”, justificou. Em seguida, fez uma limpa: mandou centenas de diretores e gerentes embora. A mensagem foi muito clara para todos.

Um ano depois, ao conseguir fazer a GM pagar US$ 2 bilhões para a Fiat sair de uma parceria que paralisava a empresa, conquistou a admiração de todos. Ele sempre parecia ter uma estratégia infalível. Prometia resultados financeiros e os entregava, um a um, a cada trimestre.

Dessa forma, tirou de cima do Grupo Fiat um véu de desconfiança que prejudicava todos os esforços da empresa em subir degraus na escada da credibilidade.


Essa foi, para mim, a maior lição deixada por ele. Sua força era a gestão financeira. Ele entendia mesmo do riscado. Com ele compreendi a expressão “engenharia financeira” e percebi que, quando se fala de dinheiro pesado, a gente aqui em baixo não sabe de nada mesmo.

Esse entendimento do mundo das finanças fez dele ainda o grande “arquiteto” da compra da Chrysler, uma tacada de mestre, talvez a sua maior realização. Dobrou o tamanho do grupo, investindo relativamente muito pouco (certamente, todos nós que trabalhamos na Fiat acabamos pagando pela Chrysler, porque nossos bônus foram para o espaço naquele período). Mas deu certo.

Depois vieram todas aquelas fusões e desdobramentos de marcas que, para os leigos, são incompreensíveis, mas para quem mexe com o dinheiro faz todo o sentido. No período Marchionne, o Grupo Fiat aumentou seu valor de mercado 11 vezes.
Meu último contato direto com ele foi em um Grande Prêmio de Fórmula 1, em São Paulo.

O grupo montou um daqueles estandes para clientes e convidados (com banheiros espetaculares, diga-se) e ele estava lá, com o seu filho adolescente. Na Iveco, tínhamos o acordo de cobranding com a Ferrari (que costurei na Itália, uma das tacadas mais legais que fiz), e nosso brinde era uma miniatura do capacete do Felipe Massa, entregue em bolsas de lona. Um presente muito joia mesmo. Dei um ao garoto.

“Molto gentile” (“muito gentil”), agradeceu Marchionne. Quando Sergio Marchionne substituiu Lucca di Montezemolo como CEO do Grupo Fiat, em 2004, a piada interna na empresa foi “Sergio quem?”. Ninguém sabia quem ele era e, à época, ninguém podia imaginar que o Grupo Fiat chegaria onde chegou.

Agora, experimentamos a frieza das corporações, que, em certo sentido, copiam o ritual conhecido pela realeza há milênios: “Rei morto, rei posto”. Seus substitutos (sim, foi preciso mais do que um para substituí-lo), foram anunciados antes que sua morte fosse confirmada. Ruim? Sim e não – simplesmente a regra.

As corporações são maiores que os homens que nelas atuam. Alguns poucos se destacam. Marchionne certamente era um deles.

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