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Estado de Minas

Bilionários querem mudar mercado de capitais

Warren Buffett, CEO da Berkshire Hathaway, e Jamie Dimon, do JP Morgan Chase, defendem que as empresas parem de oferecer projeções de curto prazo de seus resultados aos investidores


postado em 08/06/2018 06:00 / atualizado em 08/06/2018 10:07

Buffett e Dimon publicaram há dois anos um conjunto de regras de governança que foi endossado por mais de 12 CEOs(foto: Bill Pugliano/Getty Images/AFP 10/6/14 Molly Riley/AFP 12/10/16)
Buffett e Dimon publicaram há dois anos um conjunto de regras de governança que foi endossado por mais de 12 CEOs (foto: Bill Pugliano/Getty Images/AFP 10/6/14 Molly Riley/AFP 12/10/16)

Rio de Janeiro – Warren Buffett, CEO da Berkshire Hathaway e maior investidor do mundo, e Jamie Dimon, chairman e CEO do JP Morgan Chase, estão exortando os líderes de grandes empresas americanas a parar de oferecer um “guidance” trimestral aos investidores, numa tentativa de reformar um mercado de capitais visto cada vez mais como refém de metas de curto prazo. O guidance consiste nas empresas estimarem o faturamento e o lucro para os analistas de mercado, que inserem a informação em seus modelos para chegar a recomendações de compra ou venda para os investidores.

Numa entrevista à CNBC e num artigo no jornal americano The Wall Street Journal, os dois anunciaram que o Business Roundtable – uma associação de quase 200 empresários da qual Dimon é chairman – concordou em apoiar as empresas que deixarem de oferecer projeções de curto prazo para seus resultados.

“Toda geração de americanos tem a responsabilidade de deixar uma sociedade mais forte e mais próspera do que aquela que encontrou”, escreveram os dois no jornal. “As maiores realizações dos Estados Unidos sempre derivaram de investimentos de longo prazo. Tanto na política nacional quanto nos negócios, uma estratégia eficaz de longo prazo impulsiona o crescimento econômico e a criação de empregos. Para as empresas de capital aberto, esses mesmos princípios são verdadeiros.”

Segundo os dois bilionários, o guidance de resultados trimestral leva a um enfoque não saudável nos lucros rápidos, em detrimento da estratégia, do crescimento e da sustentabilidade de longo prazo. “Quando as empresas passam a viver para atingir o guidance, elas fazem muitas coisas que vão contra os interesses de longo prazo dos acionistas”, destacaram os executivos.

A distinção feita por eles não é banal, pois explicita uma tensão presente no dia a dia do mundo corporativo: as companhias são geridas para o investidor que entra e sai da ação, ou para o poupador de longo prazo, o fundo de pensão ou de previdência que carrega posições durante anos? “As empresas frequentemente seguram os gastos com tecnologia, contratação, pesquisa e desenvolvimento para atingir as estimativas trimestrais que podem ser afetadas por fatores fora do controle da companhia, como flutuações nos preços das commodities, volatilidade no mercado de ações e até o clima”, escreveram no artigo.

Buffett e Dimon trabalham no assunto há pelo menos dois anos, quando publicaram um conjunto de regras de governança que foi endossado por mais de 12 CEOs. Um dos princípios era de que as empresas não deveriam se sentir obrigadas a dar o guidance trimestral.

Historicamente, o guidance é visto como uma forma de as empresas gerenciarem as expectativas do mercado, prover mais transparência e reduzir a volatilidade de sua ação. Num estudo famoso, porém, a McKinsey descobriu que o guidance trimestral não afeta os múltiplos de uma companhia nem reduz a volatilidade de sua ação. “O único benefício significativo observado foi um aumento nos volumes de negociação, o que é bom para day traders, mas não é útil para a maioria dos outros investidores”, disse Buffett.

Pior: o estudo mostrou que o guidance toma um tempo precioso da administração e faz com que ela se concentre demais no curto prazo. Naquela época, empresas como Coca-Cola, UPS e AT&T disseram que não dariam mais guidance trimestral.

Buffett e Dimon também firmam que a pressão imediatista do mercado contribuiu para o declínio no número de empresas listadas nos últimos 20 anos, ao alienar aquelas que têm uma visão de longo prazo.

Apesar da defesa incisiva de suas ideias, os dois deixaram claro que cada empresa sabe o que funciona melhor para si. “Nossa visão sobre as previsões trimestrais não deve ser interpretada como uma oposição aos relatórios trimestrais e anuais.”, disseram. “A transparência sobre os resultados financeiros e operacionais é um aspecto essencial do mercado de capitais dos Estados Unidos e as informações aos acionistas devem ser fornecidas em um cronograma considerado apropriado às necessidades de cada empresa específica e de seus investidores.”

“Não” ao mito



Até o maior investidor do planeta e mito do mundo empresarial tem que enfrentar alguns “nãos” na vida. Há alguns dias, a Uber recusou um aporte de US$ 3 bilhões que Warren Buffett queria fazer no aplicativo de transporte. Segundo a imprensa americana, o CEO da Uber, Dara Khosrowshabi, não aceitou a proposta por temer a ingerência de Buffett no negócio.

 

 

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