Publicidade

Estado de Minas

BC mantém juro a 6,5% e surpreende mercado


postado em 17/05/2018 07:48

Brasília, 17 - Em meio à disparada do dólar ante o real nas últimas semanas, o Banco Central surpreendeu o mercado financeiro e interrompeu o ciclo de cortes de juros no Brasil, iniciado em outubro de 2016. O Comitê de Política Monetária (Copom) do BC anunciou no início da noite da última quarta-feira, 16, a manutenção da Selic (a taxa básica da economia) em 6,5% ao ano. Foi a primeira manutenção após 12 decisões consecutivas de corte. A instituição também deixou claro que, nos próximos meses, manterá a Selic no nível atual.

O anúncio de ontem contrariou a maior parte dos economistas do mercado, que esperavam por um último corte da Selic. De 55 instituições financeiras consultadas pelo

Projeções Broadcast

, 53 projetavam corte de 0,25 ponto porcentual, para 6,25% ao ano, enquanto apenas duas - o Bank of America Merrill Lynch e a Flag Asset - esperavam pela manutenção da taxa.

A decisão do Copom foi surpreendente até porque, nas últimas semanas, o presidente do BC, Ilan Goldfajn, manteve a ênfase na inflação e na atividade como os principais fatores de influência sobre a política monetária. Em 8 de maio, último dia antes de os dirigentes do BC entrarem no período de "silêncio do Copom", quando não são mais feitas declarações públicas sobre juros, Goldfajn havia reafirmado, em entrevista à

GloboNews

, que o Banco Central, "num regime de metas de inflação, olha para inflação, atividade; é isso o que importa na decisão".

Para a gestora de renda fixa da Mongeral Aegon Investimentos, Patricia Pereira, a decisão do BC até tem respaldo nos fundamentos econômicos, mas Goldfajn induziu o mercado a apostar que haveria mais um corte. "Não fosse a entrevista, a aposta majoritária seria para manutenção dos 6,5%", disse Patricia. "Isso afeta a credibilidade em relação às próximas comunicações."

Na última quarta-feira, ao justificar a decisão de manter a Selic, o Copom afirmou que "o cenário externo tornou-se mais desafiador e apresentou volatilidade". O BC pontuou que, com o processo de alta de juros em economias desenvolvidas, como os Estados Unidos, houve "ajustes nos mercados financeiros internacionais". "Como resultado, houve redução do apetite ao risco em relação a economias emergentes."

No Brasil, o fator mais visível desses ajustes foi a alta do dólar em relação ao real. Do fim de março até a sessão desta quarta-feira, a moeda americana disparou mais de 11%, para R$ 3,6755. Esse avanço do dólar, na visão dos economistas, vai, mais cedo ou mais tarde, ter impacto na inflação. Mas, como a atividade segue fraca, muitos profissionais avaliavam que a pressão da alta do dólar sobre os preços seria menor.

O BC, no entanto, deu peso ao movimento de alta do dólar em sua decisão. "Esses choques (externos) podem alterar o balanço de riscos ao reduzir as chances de a inflação ficar abaixo da meta no horizonte relevante", defendeu a instituição. O aumento do dólar pode encarecer produtos e serviços importados consumidos no Brasil e pressionar a inflação. O Banco Central eleva ou reduz a Selic justamente para controlar a alta dos preços.

Cautela

"A decisão do Copom de manter a taxa, em vez de reduzir como havia indicado, demonstra viés cauteloso frente à depreciação do câmbio e à volatilidade dos ativos internos", avaliou o economista-chefe do Santander, Maurício Molon.

"O BC foi extremamente prudente e responsável com o futuro. Se ele reduz a Selic nesta reunião, a possibilidade de saída de dólares do País ficaria maior e teríamos uma desvalorização ainda mais intensa do real", afirmou Paulo Dutra, coordenador do curso de economia da Faap. Isso ocorreria porque o investimento estrangeiro no Brasil ficaria menos atrativo, num momento em que os EUA estão elevando sua taxa de juros.

Neste cenário, conforme Dutra, a divisa americana poderia chegar à casa dos R$ 4,00, pressionando também os preços internos. "O custo de produtos e insumos importados ficaria muito alto. Dependendo do tamanho do impacto, a medida de aumento da taxa de juros lá na frente, para compensar a alta dos preços, poderia ser muito maior do que a manutenção agora", acrescentou. As informações são do jornal

O Estado de S. Paulo.

(Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues, Denise Abarca, Nicholas Shores, Eduardo Laguna e Caio Rinaldi)


Publicidade