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Estado de Minas

Brasil pode reaver destaque na polêmica oferta de artigos e sistemas para defesa

Exportações brasileiras de armas e munições cresceram 223,74% em uma década. País avança também no comércio de aviões para combate e sistemas de defesa


postado em 04/10/2015 06:00 / atualizado em 04/10/2015 08:05

(foto: Arte/EM/DA Press)
(foto: Arte/EM/DA Press)
Descolados da dura crise que abala a indústria brasileira, os fabricantes de armas e outros equipamentos ligados ao setor bélico e de segurança elevam suas receitas, apostando que o polêmico realinhamento de uma política nacional do setor de defesa levará o Brasil a reconquistar posição destacada no cenário internacional. Sob duros questionamentos, as exportações brasileiras de armas e munições  cresceram 223,74% em uma década, segundo estatísticas do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). A lista de destinos dos armamentos totaliza 62 países, quando considerados só os importadores de armas, liderada pelos Estados Unidos e países do Oriente Médio, como Arábia Saudita, Jordânia, Omã e Israel.

O Brasil avança também no comércio de aviões para combate e sistemas de defesa. Nos próximos anos, o país poderá retomar a exportação de veículos blindados sobre rodas. Estudo apresentado em junho pela entidade internacional Small Arms Survey coloca o Brasil no quarto lugar do ranking de maiores exportadores de armas leves do planeta. Em 2012, a base de dados usada pela organização indicou vendas externas do país de US$ 374 milhões, atrás apenas de Estados Unidos (US$ 935 milhões), Itália (US$ 544 milhões) e Alemanha (US$ 472 milhões). No período entre 2001 e 2012, a produção brasileira ocupou o mesmo lugar de destaque. Detalhe: o país tem, entre os maiores exportadores, a quinta mais alta taxa de aumento das exportações (295% no período).

Entre as principais empresas posicionadas no mercado internacional da indústria de segurança e defesa, destacam-se Embraer, CBC, Condor, Taurus e Avibras, de acordo com a Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (Abimde). A estimativa é que o setor fature US$ 2,5 bilhões por ano. “Nossos mercados-alvo são América Latina, África, Oriente Médio e Sudeste da Ásia. Porém, algumas empresas exportam significativamente para os Estados Unidos e Europa”, afirma o vice-presidente-executivo da Abimde, almirante Carlos Afonso Pierantoni Gâmboa. Estudo contratado pela associação junto à Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) mostra que as atividades de defesa e segurança tiveram receita de R$ 110 bilhões no ano passado.

As maiores cifras são movimentadas por produtos de alto desenvolvimento tecnológico, como aeronaves e tanques blindados. O presidente da Avibras, Sami Hassuani, atribui o avanço da indústria de armas brasileira à Política Nacional da Indústria de Defesa, formulada inicialmente em 2005, mas ganhando reforços nos anos seguintes. Ele diz que isso fortaleceu as diretrizes da União, no mesmo período em que é verificado o aumento das vendas para o exterior. “Isso dá um impulso à indústria, acelerando as exportações”, afirma Hassuani.

Neste ano, a Avibras deve ultrapassar, pela primeira vez, R$ 1 bilhão em receitas. Do total, 80% da produção são exportados. O produto da companhia, voltado especificamente para forças armadas, é o Astros 2020, um  sistema de radar e mísseis para defesa tática de fronteiras. Os importadores são mantidos em sigilo, mas o presidente da empresa afirma que, da carteira de oito clientes, cinco estão no exterior. “São países em desenvolvimento, como o Brasil, com reservas de água, minerais, algum tipo de riqueza que precisa ter defesa à altura da sua economia”, diz.

O aumento exponencial da fabricação de armas e outros equipamentos de defesa reacende a polêmica acerca da ética por trás da indústria, principalmente quando são discutidos os negócios firmados com países em guerra. A inserção de armas pode servir para inflamar confrontos civis. Lucas Rezende, coordenador do curso de relações internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina e autor do livro Sobe e desce: explicando a cooperação em defesa na América do Sul, observa que historicamente o país teve uma indústria “que não era desprezível”. Tal cenário sustentou-se até a década de 1980, período em que o Brasil vendeu armas e tanques para o Iraque de Saddam Hussein.


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