A crescente desaceleração do Produto Interno Bruto (PIB), com alta de 0,2% no primeiro trimestre do ano, pode desencadear um processo mais grave de perda de força da economia, caracterizado pelo que especialistas chamam de recessão técnica. Dados divulgados ontem pelo Banco Central (BC) sinalizam um quadro de estagnação do país. Em abril, o Índice de Atividade Econômica do BC (IBC-BR) avançou apenas 0,12%.
Seria ruim não fosse o fato de que, comparativamente ao mesmo mês de 2013, o resultado foi ainda pior: retração de 2,29%. Para o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco Gonçalves, não há dúvidas de que o atual momento da economia exige preocupação. “Discutir sobre uma eventual recessão técnica (no país) começa a fazer sentido”, cravou.
A possibilidade de esse quadro se concretizar depende de uma contração por dois trimestres consecutivos do PIB, algo que o mercado parece não duvidar. Nos últimos três meses, até abril, o IBC-BR acumulou alta de apenas 0,1%. “Levando em conta outros indicadores coincidentes referentes a abril e maio, continuamos acreditando que o PIB do segundo trimestre apresentará desaceleração ante o período anterior”, escreveu, em análise a clientes, o diretor de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco, Octavio de Barros.
Para o estrategista-chefe para o Brasil do banco japonês Mizuho, Luciano Rostagno, diversos fatores contribuem para esse cenário mais difícil. Entre eles, uma retração ainda mais forte da indústria e do varejo, que têm apresentado resultados frustrantes desde o início do ano. “A gente vê a produção industrial muito ruim e as vendas do varejo recuando pelo segundo mês consecutivo”, disse.
Culpa da Copa
Em um ano, a produção das fábricas encolheu durante seis meses. No acumulado, ainda estão positivas em 0,8%. Mas já há quem projete que seguirão ladeira abaixo nos próximos meses em função da interrupção da produção nas fábricas nos dias de jogo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo.
Mesmo o varejo tem apresentado resultado frustrante. A última vez em que as vendas do comércio entraram em campo positivo foi em janeiro, quando cravaram alta de 0,35%. Depois disso ficaram estagnadas em fevereiro e recuaram em março e abril. “Todos os dados estão apontando para um quadro de estagnação da economia. Enquanto isso, a inflação está ainda bastante elevada, o que pressiona a renda das famílias e desestimula empresários a investirem. É quase um cenário de estagflação”, refletiu Rostagno. O termo é usado para descrever longos períodos de baixo crescimento econômico combinados com preços excessivamente elevados, como o que o Brasil viveu até a implementação do Plano Real, em 1994. O temor dos economistas é que o quadro atual, que ainda não é de estagflação, perdure por um longo tempo em função justamente do custo de vida persistentemente elevado.
Os bancos também reduziram as projeções para o crescimento da economia brasileira neste e no próximo ano, segundo apontou a Pesquisa Febraban de Projeções Macroeconômicas e Expectativas de Mercado. O levantamento mostra que, na média, a projeção para o PIB brasileiro no fim deste ano recuou de 1,8% na leitura de abril para 1,4% no levantamento de junho. Já para 2015, a expectativa recuou de 2,2% na pesquisa anterior para 1,7%.
Indústria desanima
A descrença na indústria é cada vez mais evidente. A percepção das empresas em relação à aplicação de recursos em capital fixo piorou em relação ao ano passado. Segundo a pesquisa Sondagem de Investimentos, realizada trimestralmente pela Fundação Getulio Vargas (FGV), o percentual de companhias que apontaram algum tipo de dificuldade cresceu de 46% para 49% entre 2013 e 2014, o pior nível desde 2009, quando atingiu 87%.
A limitação de recursos foi apontada por 45% das indústrias que percebem entraves à realização de investimentos. No ano passado, 39% citaram esse obstáculo. O segundo principal fator inibidor, de acordo com as empresas, foram as incertezas sobre o nível de demanda, apontadas por 37% delas. A proporção é superior aos 31% de 2013 e também a maior desde 2009, de 50%.
A carga tributária elevada vem na sequência, citada por 36% das empresas, de 37% no ano passado. Já o custo de financiamento tornou-se mais problemático para os investimentos em relação a 2013. A fatia das empresas que listaram essa questão passou de 22% para 28% em 2014.
Por três anos consecutivos, a taxa de retorno inadequada é apontada por 22% das empresas, mantendo-se no maior patamar da série histórica, iniciada em 2004. Segundo a FGV, os empresários poderiam responder à pergunta listando quantos fatores julgassem coerentes com a situação da indústria. Foram ouvidas na sondagem desse trimestre 630 empresas, cujo faturamento anual, somado, é de R$ 555 bilhões.
O número de empresas dispostas a investir menos do que nos 12 meses anteriores cresceu de 16% para 21%, da pesquisa do primeiro trimestre para a de agora. Já o das que pretendem aplicar mais recursos caiu de 34% para 30% no mesmo período. A expectativa para o futuro, acompanha o movimento de queda ocorrido neste ano, quando 31% das indústrias afirmaram ter investido mais, e 24%, menos nos últimos 12 meses.
