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Estado de Minas

Argentina vira rota de "doutor"

Curso de doutorado e mestrado no país vizinho custa até 30% menos que no Brasil. Real forte frente ao peso eleva procura


postado em 24/02/2013 07:00 / atualizado em 24/02/2013 07:24

Marinella Castro


A enfermeira Carolyne Pessoa estuda na Argentina:
A enfermeira Carolyne Pessoa estuda na Argentina: "No Brasil, para fazer mestrado teria de parar de trabalhar, o que não está nos planos" (foto: Marcos Vieira/EM/ DA Press)
O real forte frente ao peso argentino e a oportunidade de aproveitar o período de férias para estudar no exterior estão abrindo para os brasileiros uma nova rota para programas de mestrado e doutorado: a Argentina. Depois da grande procura brasileira pelos cursos de graduação, candidatos a mestres e doutores descobriram as universidades portenhas. No país vizinho, uma pós-graduação, já incluindo as despesas com viagens e estadia, custa em média 30% menos que no Brasil. A oportunidade de ainda aperfeiçoar o espanhol e ter uma experiência internacional tem feito centenas de estudantes brasileiros a assinar contrato com instituições argentinas de ensino superior.

Escolas especializadas em intercâmbios na área esperam para 2013 crescimento de 25% na demanda frente ao ano passado. Esse é o caso da Escola Superior de Justiça (Ejus) e do Instituto Latino Americano (Iesla), que, anualmente, atendem cerca de 300 alunos. Na América do Sul, os estudantes buscam principalmente as universidades argentinas em 30 programas distintos, que vão desde áreas de saúde até ciências humanas. “Os cursos na Argentina chegam a custar 50% menos. Adicionando os custos de estadia e viagem a diferença ainda é grande, os custos são pelo menos 30% mais baratos que no Brasil”, diz Sara Bernardes, presidente do Iesla. Segundo ela, o que faz o preço cair no país vizinho é a desvalorização da moeda argentina frente ao dólar, e também a grande oferta de cursos nas universidades do país, que, ao contrário do Brasil, tem estoque de mestres e doutores ajustado à demanda.

Sara explica que, no Brasil, um programa de mestrado custa aproximadamente US$ 25 mil dólares, com duração de dois anos. “Na Argentina, o valor de um mestrado com a mesma duração varia entre US$ 11 mil e 14 mil”, compara. Na conta do país vizinho, estão incluídas taxas de tese, regularização de matrícula, faltando acrescentar as despesas de viagem, hospedagem, que somam cerca de US$ 5 mil, por todo o período do curso.

Uma combinação de fatores levou a enfermeira Carolyne Pessoa a trocar Belo Horizonte pela Argentina. Professora universitária, ela acredita que título de mestre vai enriquecer seu currículo e ampliar suas oportunidades na área acadêmica. A ampliação do conhecimento também tem peso positivo para seu plano de carreira como funcionária pública, no Hospital das Clínicas, em Belo Horizonte. Carolyne está cursando o mestrado na Argentina em gestão de serviços de saúde.

Além do custo mais baixo, o programa do país vizinho lhe deu a chance de estudar nas férias. “No Brasil, para fazer o mestrado, teria de parar de trabalhar, o que não está nos meus planos.” Com aulas presenciais em janeiro e julho, Carolyne pretende defender sua tese em dois anos. Ela conta que também está satisfeita com a oportunidade de aprimorar o espanhol. “Estou gostando da qualidade do curso e da experiência. Como vou defender minha tese em espanhol, estou aprendendo uma segunda língua.”

O advogado Gustavo Lemos faz doutorado em direito trabalhista:
O advogado Gustavo Lemos faz doutorado em direito trabalhista: "A qualidade da universidade argentina é excelente e o custo é menor" (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
Não há números fechados sobre a demanda reprimida do Brasil por profissionais com título de mestre e doutor, mas um termômetro é a importação dessa mão de obra. No ano passado, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) registrou crescimento de 9,5% no total de mestres e doutores autorizados a trabalhar temporariamente no país. Entre 2009 e 2012, o avanço foi de 560%. Segundo o MTE, entre a mão de obra que chega de outros países, o grupo está entre os que mais cresce em números relativos.

CUSTO-BENEFÍCIO Juliana Wisnievski, sócia-diretora do Educar Intercâmbios, especializada em levar estudantes para cursos na Argentina, diz que a demanda por mestrado, doutorado e MBAs vem ganhando ritmo nos últimos três anos. Segundo ela, por ano, a empresa faz o intercâmbio de 60 estudantes brasileiros em programas na Argentina, sendo que a Universidade de Buenos Aires (UBA) é a mais procurada. “As áreas com maior destaque são direito, arquitetura, comunicação, letras e filosofia.” Ela lembra que um real vale cerca de 2,55 pesos argentinos, o que deixa os valores bem atrativos, até mesmo nas faculdades privadas. “Na Universidade de Buenos Aires (UBA), que é federal, os preços são bem econômicos para os brasileiros, mas mesmo nas privadas é possível cursar um MBA por R$ 10 mil, valor para o curso completo, geralmente com duração de um ano e meio.”

A procura por curso de pós-graduação veio depois de um forte crescimento observado na graduação. Juliana aponta que na formação superior a demanda dobrou nos últimos cinco anos. “Antes levávamos 300 estudantes ao ano para cursos de graduação, agora são 700”, apontou.

O advogado Gustavo Lemos diz que decidiu viajar para Argentina, onde cursa doutorado na área do direito trabalhista, devido à qualidade do curso e ao custo-benefício. Segundo ele, no país vizinho foi possível ingressar no doutorado sem ter o título de mestre. “Somado a isso, a qualidade da universidade é excelente e o custo é menor que o brasileiro.”

Salário 40% maior
Levantamento da empresa de recrutamento Dasein Executive Search mostra que o título têm reflexo no salário. Em áreas como as engenharias, a remuneração de mestres e doutores chega a ser 40% maior que a remuneração de profissionais com apenas a graduação. Na medicina, a diferença é de 30% a mais para os pós-graduados. No ano passo, o Senado aprovou projeto de lei que aumenta a exigência nas universidades do percentual mínimo de mestres e doutores no corpo docente de um terço para 50%. O projeto tramita agora na Câmara Federal. Se aprovado, deve provocar uma corrida ainda maior pela titulação. Para cursos no exterior, vale ter cuidado na escolha de uma boa instituição, e também considerar o processo de validação do título.


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