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Estado de Minas TENDÊNCIA

Uma geração louca por crédito

Levantamento da Serasa Experian mostra a avidez dos jovens até 25 anos para o consumo, mas falta de educação financeira também os leva ao topo do ranking brasileiro de inadimplência


postado em 08/06/2012 07:10

A auxiliar de cabeleireiro Lilian Suelen Teixeira, de 19 anos, começou a trabalhar em agosto do ano passado. Apesar de recente no mercado de trabalho, ela já comprou, com o salário que recebe, dois celulares, um notebook e uma impressora. O notebook custou R$ 1,8 mil e está sendo pago em 10 parcelas. O último celular tira foto, tem MP3 e custou R$ 350. Lilian pagou em cinco prestações. Ela estuda engenharia ambiental e conta que precisa do notebook para fazer os trabalhos da faculdade. “Pagar parcelado ajuda muito. Caso contrário, teria que juntar todo o dinheiro e frequentar lan house enquanto não pudesse fazer a compra”, diz.

Lilian faz parte da chamada geração Y, formada por jovens com até 25 anos, novatos no mercado de trabalho e que começam a fazer suas primeiras compras financiadas. No ano passado, cerca de 9 milhões de pessoas tomaram empréstimos pela primeira vez, segundo a Serasa Experian. Uma parte delas carrega CPFs recentes e outros já estavam registrados como contribuintes, mas nunca tinham contratado financiamento. Cerca de 50% desses novos consumidores de crédito são jovens com menos de 25 anos, informa Ricardo Loureiro, presidente da Serasa. “São trabalhadores que estão ingressando no mercado de trabalho. Hoje, com 17 a 18 anos, o jovem já é consumidor”, afirma Loureiro.

O que esses jovens querem é conectividade e mobilidade. São consumidores que estão comprando o primeiro automóvel, a primeira motocicleta, o primeiro tablet ou estão migrando de um telefone celular para um smartphone. Loureiro ressalta que outro grupo de novatos importante no mercado de consumo de crédito é formado por pessoas um pouco mais velhas, de 25 a 35 anos, que estão aproveitando as boas condições da economia, o mercado de trabalho aquecido e a alta dos salários para consumir. “Novas classes começam a ter acesso ao consumo”, diz Loureiro.

A taxa de desemprego entre os jovens de 16 a 24 anos caiu de 14,5% em março para 12,6% em abril na Grande Belo Horizonte, segundo a Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócioeconômicos (Dieese). “A taxa de desemprego da população como um todo vem caindo e os jovens acompanham esse ritmo”, diz Gabrielle Selani, coordenadora da PED.

Ao mesmo tempo em que fazem crescer sua presença na lista de consumidores, no entanto, os mais novos também ganham espaço nas pesquisas de inadimplência. Jovens de 16 a 34 anos representam 65,2% dos consumidores endividados em Belo Horizonte entre abril e março de 2012, segundo levantamento da Federação do Comércio de Minas Gerais (Fecomércio Minas). “O jovem é mais suscetível ao consumo de novas tecnologias e está mais próximo das inovações de moda”, diz Silvânia de Araújo, gerente do departamento de economia da Fecomércio Minas. “O status do jovem está muito ligado ao ‘ter’ no meio em que está inserido. E essa formalização do mercado de trabalho e o tempo menor de procura por emprego dão mais segurança para consumir”, ressalta Araújo. Segundo ela, a satisfação pessoal imediata do jovem muitas vezes é colocada na frente da educação financeira.

CAUTELA

O economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas Gomes, avalia que a economia atual exige cuidados. “Toda compra financiada precisa ser feita com cautela, pois a economia cresce menos do que o esperado. E o jovem está entrando agora para o mercado de trabalho”, diz. “O grande perigo é a falta de educação financeira desses consumidores, pois grande parte da inadimplência está entre os jovens”, completa Miguel Ribeiro de Oliveira, vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac).

O Produto Interno Bruto (PIB) do país teve alta de 0,2% no primeiro trimestre deste ano, ante os três últimos meses de 2011, na comparação livre de influências sazonais, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado mostra que os temores do governo e dos analistas financeiros foram confirmados: o crescimento do país ficou aquém do desejado.

Dentro da classe de consumo e crédito no Brasil, há cerca de 40 milhões de jovens entre 16 e 34 anos, informa Aquiles Leonardo Diniz, vice-presidente da Associação Nacional das Empresas de Financiamento e Investimentos (Acrefi). “Essa classe tem renda, o que não existia antes. Mas temos que aprender a lidar com esse público. O consumo preferido deles é direcionado a roupas de marca e aos eletrônicos”, afirma Diniz.

A estagiária Renata Stuart, de 21 anos, acaba de adquirir um iPhone 3 GS. O produto custou R$ 1 mil e vai ser pago em 12 parcelas. O aparelho antigo, da Motorola, foi vendido por R$ 250. “Como sou estudante e ajudo a quitar a faculdade, não tenho condições de pagar à vista”, diz Renata. Na sua lista de desejos ainda falta um iPad, outro dispositivo da Apple que virou objeto de desejo entre os jovens.


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