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Estado de Minas

Escolares invadem as ruas de BH

Serviço é opção para pais que não podem pegar filhos e número de alunos transportados aumenta 86% neste ano


postado em 13/05/2012 07:39 / atualizado em 13/05/2012 07:42

O casal Hilário e Antônia Chiarelli presta serviço de transporte escolar há 12 anos (foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press. Brasil)
O casal Hilário e Antônia Chiarelli presta serviço de transporte escolar há 12 anos (foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press. Brasil)

O cenário da Escola Estadual Doutor José do Patrocínio da Silva Pontes, no Bairro Milionários, no Barreiro, é bem diferente de uma década atrás. Se antes os pais se aglomeravam nos portões minutos antes de a campainha soar para encontrar os filhos e carregar merendeiras e mochilas, atualmente são os “tios” e “tias” dos escolares que fazem esse papel. De lá para cá, o número de transportadores se multiplicou na região. São mais de 20 vans e ônibus. “Hoje a mãe e o filho mais velho trabalham fora. Eles não têm tempo mais para buscar as crianças na escola”, afirma o transportador Hilário Chiarelli, que, acompanhado da esposa, Antônia, presta o serviço há 12 anos na região. No início, segundo ele, só um ou dois faziam concorrência.

O número de alunos transportados em escolares cadastrados na BHTrans aumentou mais de 86% neste ano, passando de 43 mil em 2010 para mais de 80 mil em 2012, segundo estimativa da Associação Nacional das Transportadoras de Escolares e Passageiros (Atep). O número ainda é preliminar e deve ser confirmado em julho, quando a empresa que gerencia o trânsito na capital fecha o mapa operacional de transporte escolar (Mote). A estimativa é que o mercado tenha crescido 15% nos últimos dois anos e uma parcela dos alunos que antes era transportada em vans e ônibus irregulares migrou para o modelo regular, o que também garante maior segurança e alívio para os pais.

Levantamento da BHTrans referente à demanda por transporte há dois anos mostrava que boa parte dos pais procuravam transportadores clandestinos e, por isso, a empresa decidiu dar autorização para que novos carros passassem a rodar na cidade. O estudo, segundo a Atep, mostrava que a demanda se concentrava em regiões com maior concentração de escolas públicas e, por consequência, mais distantes do perímetro da Avenida do Contorno, como Barreiro e Venda Nova. A frota trabalhava na sua capacidade máxima e era preciso abrir mais vagas. Ou seja, retratando o crescimento da classe C, que, de 2003 até 2011, passou de 65 milhões para 105 milhões de brasileiros. “O país cresceu e o mercado de escolar acompanhou. É perceptível que há mais vans na Vila Pinho do que há cinco anos”, afirma o presidente da Atep e da cooperativa de escolares Cooperminas, Renato Soares.

Aproveitando a brecha, a ex-estudante de pedagogia Caroline Emanuele Lima, de 24 anos, decidiu abandonar a faculdade e seguir o caminho do pai. Em setembro, deu entrada numa van e, de lá para cá, já conseguiu 70 alunos. Moradora da Região Nordeste, ela decidiu fazer sua rota por bairros próximos, como Cachoeirinha, Palmares e Renascença, onde a maior parte da procura é por estudantes de escolas públicas. Trabalhando em dois turnos, consegue pagar a prestação e ainda sobra valor superior ao que a maioria das suas colegas professoras recebe. “Tem gente que se formou e ganha no máximo R$ 900. Muitas são garçonetes e não conseguem vaga no mercado”, diz. Entre todos os meninos que ela busca e leva para o colégio, cerca de 10 até dois anos atrás não iam de escolar. Os adolescentes iam a pé ou de ônibus e as crianças eram levadas pelos pais de carro. “É uma comodidade. Às vezes, os pais estão no Centro e têm que voltar às pressas para buscar o filho”, diz ela.

Cada região, um preço


O preço do transporte escolar varia de acordo com a região da cidade e se a escola é particular ou pública. Um facilitador do acesso às vans e ônibus é que o custo pode ser até cinco vezes menor em bairros do Barreiro e de Venda Nova se comparado com o valor cobrado nas instituições privadas de ensino situadas na Região Centro-Sul. Os custos mensais variam de R$ 60 a até R$ 300, segundo consulta feita pelo Estado de Minas com transportadoras.

Por causa dos preços mais baixos, os transportadores que atendem escolas distantes dos bairros mais nobres da cidade são obrigados a disputar os alunos no laço. A briga é real por real para ver quem fica com o novo cliente. “É um querendo oferecer promoção melhor que o outro”, relata o transportador Gilberto Francisco, que atende no Barreiro há 10 anos. No início ele tinha uma Kombi, trocou por uma van e, por último, adquiriu um micro-ônibus para atender aos mais de 120 alunos cadastrados com maior qualidade. “Quase não vemos mães nas escolas e como o pessoal daqui ainda não tem empregada doméstica a solução é procurar um escolar”, diz ele.

A variação de preços também está ligada à oferta excessiva de transportes em alguns bairros em detrimento de outros. Para solucionar esse problema, o Sindicato dos Transportadores de Escolares da Região Metropolitana de Belo Horizonte (Sintesc) cobra da BHTrans a elaboração de um mapa de demanda e oferta de escolares. A proposta é que seja feito um estudo para dar direcionamento aos transportadores de qual região não é atendida corretamente. “Houve aumento na procura, mas o número de carros que teve autorização para rodar é maior que a demanda de algumas regiões. Tem transportador com o carro quase vazio”, afirma o presidente do sindicato, Luis Fernando Martins da Silva.


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