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Estado de Minas

Empresas treinam funcionários sem experiência e os perdem para organizações maiores

De olho grande no operário deles


postado em 27/03/2012 06:00 / atualizado em 27/03/2012 06:41

Na era do pleno emprego no Brasil, pequenas e médias empresas estão se transformando numa espécie de escola não oficial de qualificação profissional. Sem caixa suficiente para contratar mão de obra qualificada, elas apostam suas fichas em funcionários pouco experientes, que em seguida são devidamente treinados no chão de fábrica. O tempo de treinamento pode levar de dois meses a mais de um ano, conforme cada segmento de mercado, mas o resultado é quase sempre o mesmo. O esforço empenhado na formação do trabalhador acaba desperdiçado porque, uma vez formado, ele passa a ser cobiçado por organizações de maior porte, que podem pagar salários melhores e oferecer outras vantagens e convencê-los a trocar de emprego.


No ano passado, a Enalter, empresa de porte médio, fabricante de equipamentos de aquecimento solar em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), perdeu duas vezes uma equipe inteira do setor de montagem de coletores solares. “Trocamos a equipe, de cerca de sete pessoas, duas vezes em 2011. Em seis meses, os profissionais que substituíram os primeiros já não estavam mais lá e aí contratamos outras pessoas”, diz Carlos Artur Alves de Alencar, diretor da Enalter. De acordo com ele, empresas de porte médio não têm condições de oferecer para o profissional os benefícios de uma organização maior. “A gente pega um trabalhador com menos experiência e complementa sua formação. Isso pode levar um ano ou até mais. Mas chega um momento em que essa pessoa fica exposta ao mercado.”


Na guerra por profissionais qualificados vale tudo. Mais de uma vez, caminhões de som contratados pela Vale estacionaram em frente à Enalter chamando os funcionários para fazerem cursos técnicos gratuitos, com possibilidade de contratação. “Nessa situação, o que a gente faz é um esforço para manter os profissionais-chave na empresa”, observa Alencar. Segundo ele, com a rotatividade, o índice de rejeição de qualidade do produto fica mais elevado e o sistema de gestão de qualidade detecta rapidamente essa falha de treinamento. “A saída é investir em gestão e em tecnologia de processos.”

A Vale confirma a existência dos carros de som, usados como estratégia para divulgar cursos de formação de mão-de-obra. Essa não é a única ferramenta de que dispõe a empresa para formar profissionais. Conforme a região onde está instalada, a companhia também costuma, entre outras políticas de atração de pessoal, enviar cartinhas-convite chamando os trabalhadores para os cursos de capacitação que oferece.

Assédio O cerco aos funcionários treinados também acontece em pequenas e microempresas, como é o caso do restaurante montado pelo empresário Iago de Oliveira Siqueira, de 19 anos, no condomínio Nossa Fazenda, na região do município de Ribeirão das Neves. No ano passado, ele investiu R$ 120 mil no negócio e contratou 12 funcionários, todos com carteira assinada. O problema é que eles acabam pedindo demissão do estabelecimento, depois de passarem por treinamento, porque receberam ofertas melhores, que vêm de empresários que são moradores do próprio condomínio. “O pessoal daqui tem muita vontade de trabalhar, mas é preciso treinar a mão de obra. A média do salário no restaurante fica entre R$ 800 e R$ 900. A gente vai ensinando, isso leva uns dois meses. Mas desde que abri as portas, no meio do ano passado, já perdi cinco empregados.”

José Pastore, professor de relações do trabalho da Universidade de São Paulo (USP), chama o processo de assédio dos empregados de uma empresa por outra de “pirataria”. De acordo com ele, porém, isso sempre existiu. A diferença é que, no bom momento da economia brasileira, ele está mais agressivo. “Estamos vivendo uma fase de falta de mão de obra. Essa corrida pelos qualificados ocorre tanto no caso dos que foram treinados pela empresa quanto no dos que buscaram qualificação na escola. E isso vai continuar a ocorrer no Brasil, pelo menos nos próximos anos.”

À procura de técnicos


Não está sendo fácil para o Brasil formar o seu proletariado. Embora a formação técnica garanta aos profissionais mais mercado de trabalho e um salário inicial muitas vezes maior do que a universitária, a oferta de cursos técnicos no país é infinitamente menor do que as dos cursos de nível superior. Segundo Edmar Fernando de Alcântara, gerente de educação profissional do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), na construção de um prédio pequeno, enquanto é necessário contratar apenas um engenheiro, é preciso quatro técnicos para trabalhar com ele: um em segurança, um em edificações, outro em eletrotécnica e mais um em desenho de projeto. Isso sem contar os profissionais que vão construir o prédio.


De acordo com ele, no mercado de trabalho, a base da pirâmide é formada pelos trabalhadores menos especializados e depois pelos técnicos. Na ponta e no alto, estão os profissionais com formação superior. Mas esse desenho é invertido quando se olha para a o número de instituições profissionalizantes e as nível superior existentes no país.
“Há mais escolas de administração de empresas do que escolas com cursos técnicos. São centenas de faculdades de administração de empresa na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) e apenas uma de formação para técnicos em automobilística”, observa Alcântara.


O reflexo dessa situação pode ser medido pela valorização dos técnicos, que valem ouro pela sua escassez. Segundo o gerente do Senai, um profissional formado em administração tem salário inicial menor do que o de um técnico em eletrotécnica, que começa na profissão ganhando entre R$ 1.500 e R$ 2.000 ao mês, dependendo do local onde consegue emprego. Seguindo essa linha de raciocínio, de acordo com ele, um professor de matemática se inicia na profissão ganhando menos do que um técnico em edificações, que começa com um salário de cerca de R$ 2.000. (ZF)


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