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Estado de Minas

Idade que pesa no bolso

Quanto mais velho, maior o gasto do brasileiro com prestações de financiamentos da casa própria, planos de saúde e seguro de veículo. Menor expectativa de vida encarece taxas


postado em 25/02/2012 06:00 / atualizado em 25/02/2012 07:39

Você vai se surpreender se fizer cotações das taxas de crédito imobiliário, seguro de veículos e de saúde praticadas no mercado. Mas o susto será maior se você tiver idade mais avançada, em torno de 65 anos. Suponha que você está na flor da idade, tenha 35 anos, e vá buscar plano de saúde na Unimed, financiamento de R$ 90 mil na Caixa Econômica Federal para a compra de imóvel no período de 15 anos e ainda faça seguro à vista de um Palio Adventure Weekend de 2007. O custo total com as prestações sairia por R$ 3,67 mil. Mas, se você tiver 30 anos a mais, prepare o bolso: a aquisição dos mesmos produtos sai por R$ 4,99 mil por mês, ou 36% a mais. Quanto mais os anos passam, mais caro fica para o cidadão financiar bens e pagar seguro.

“As pessoas com idade mais avançada têm risco maior de morte. No caso dos jovens, o risco é maior nos acidentes com veículos”, observa Miguel José Ribeiro de Oliveira, vice-presidente da Asssociação Nacional dos Executivos de Finanças e Contabilidade (Anefac). O boom do crédito imobiliário nas instituições financeiras incentiva o mutuário a ir atrás da casa própria. O cálculo da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) é de que o financiamento no setor deve crescer entre 30% e 40% neste ano, sustentado pela expansão dos níveis de emprego e renda. O sonho de ter um imóvel, no entanto, é mais difícil para as pessoas com mais de 65 anos, que têm prazos mais curtos para quitar as dívidas.

As instituições financeiras não se negam a fazer o negócio, mas o seguro contratado eleva o custo do financiamento, que muitas vezes se torna inviável para o mutuário com mais de 65 anos. Além de o seguro ficar mais caro, o idoso tem prazo menor de pagamento. A idade mais o tempo do financiamento não podem ultrapassar os 80 anos e seis meses. Ou seja, o prazo máximo de financiamento do imóvel para os mais velhos não pode superar 20 anos, enquanto pessoas mais jovens podem pegar o crédito por período de até 30 anos.

Mariana Arozo Benício de Melo, da Coordenação de Seguros de Pessoas e Previdência Complementar Aberta da Superintendência de Seguros Privados, afirma que, em relação aos seguros de pessoas estruturados por faixa etária, a exigência que existe na regulamentação vigente é por informações claras. Isto é, o produto tem que ser oferecido aos assegurados com a apresentação das regras: o prêmio será alterado segundo a mudança de faixa etária e a tabela com as faixas e percentuais de alteração é estabelecida em contrato. “E esclarecemos que os preços são determinados pelas seguradoras, segundo critérios próprios de tarifação, em que se leva em conta a idade e outros fatores para determinar o preço”, diz.

O interessado em financiar R$ 100 mil em um imóvel de R$ 170 mil, por exemplo, vai pagar cerca de 14% a mais na prestação em função do custo do seguro. A pessoa com 65 anos que pegar o empréstimo no Bradesco vai desembolsar R$ 1.505,39 de prestação na Bradesco Seguros no prazo de 180 meses (15 anos). É 13,35% a mais do que o interessado mais jovem, com 35 anos. Este teria que desembolsar R$ 1.328,08 na prestação do mesmo imóvel.

BOA DICA O custo maior do financiamento para o idoso afeta principalmente os brasileiros de baixa renda. Uma das formas encontradas por essa parcela da população para fugir do alto custo do empréstimo e garantir prazo maior de pagamento é colocar a transação em nome de um filho ou parente mais jovem. “A taxa de juros do financiamento é igual para todas as faixas etárias. O que diferencia o valor final é a taxa do seguro”, afirma Marivaldo Araújo Ribeiro, gerente de Habitação da Caixa.

Em fevereiro de 2010, o governo determinou que os bancos que operam com crédito imobiliário são obrigados a oferecer pelo menos duas alternativas de seguradoras a quem quer contratar o financiamento imobiliário. A nova regra estabeleceu que só uma pode ser ligada à instituição financeira. Com isso, o consumidor pode avaliar melhor o custo-benefício. O seguro habitacional cobre risco de morte, invalidez e danos físicos ao imóvel. Se quiser, o mutuário pode apresentar também o orçamento de uma terceira empresa.

 

Programas de governo podem ser alternativa

 

No programa Minha casa, minha vida, o governo não cobra do mutuário o seguro por danos físicos ou invalidez. A cobertura é feita pelo Fundo Garantidor de Habitação (FGHAB), criado para reduzir os custos dos seguros para os mutuários.

As normas do Minha Casa, minha vida 2 estabelecem que é preciso destinar 3% das moradias do programa aos idosos. Apesar disso, a população mais velha ainda encontra dificuldades para conseguir acesso ao crédito da casa própria, como ocorre com Evanilda Maria das Graças Souza Fonseca, de 63 anos. Ela tem três filhos e mora em Esmeraldas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Seu sonho é morar na capital, perto dos filhos. “Eu não tenho condições de comprar casa aqui, pois é muito caro. Tenho que dar um valor alto de entrada, que não tenho”, diz. Ela fez inscrição no Minha casa, minha vida para tentar ganhar a moradia, mas ainda não teve nenhum retorno.

O aposentado Nelson Fernandes Ribeiro, de 69 anos, paga R$ 400 de aluguel, quase a metade do que ganha de aposentadoria. Ele fez inscrição no programa Minha casa, minha vida, mas ainda não foi chamado. “Na minha idade fica muito caro financiar imóvel, não dá para tentar outras formas”, diz.

Natalino Rochide, de 62 anos, já tentou financiar imóvel, mas não conseguiu. Ele mora com oito pessoas (a mulher, filha, genro e netos) na Tijuca, em Contagem. Sua renda é de cerca de R$ 2,28 mil. A solução que encontrou foi construir a casa em cima da moradia do cunhado.

O banco HSBC informa que também não cobra tarifa diferenciada por idade nos financiamentos habitacionais. Mas reconhece que o valor do seguro do imóvel varia em função da idade, assim como o de morte e invalidez. As seguradoras costumam cobrar seguro mais alto das pessoas idosas pelo fato de terem que arcar com o débito no caso de morte do contratante. (GC)

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