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Estado de Minas

Corrida atrás dos carros importados

Interessados em comprar um carro importado da China ou da Coreia ontem correram até as concessionárias para garantir preço sem a alta do IPI. Importadores questionaram a medida


postado em 17/09/2011 06:00 / atualizado em 17/09/2011 07:07

Correria às concessionárias asiáticas, por um lado, e choro da parte dos importadores, por outro. Horas depois de confirmada a medida que aumenta o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de carros importados, com a publicação no Diário Oficial da União, o temor de que subam os preços dos carros chineses e coreanos provocou corrida às lojas. Enquanto isso, os executivos das montadoras se reuniam para, no fim do dia, classificarem a vigência imediata das determinações como inconstitucional. As novas regras feririam também, de acordo com a Associação Brasileira de Importadoras de Veículos Automotores (Abeiva), as determinações da Organização Mundial do Comércio (OMC). O teto para alíquotas de importação de automóveis é de 35% e as novas regras chegam a tributar determinados modelos em 55%.

Em carta aberta à Presidência da República, a associação destacou que as montadoras locais, beneficiadas pela mudança, são as maiores importadoras. O mais comum, contudo, é que esses veículos venham do México ou países do Mercosul – exceção à regra. Já os carros importados pelas 27 marcas que não têm fabrica no Brasil representam 5,8% do mercado brasileiro no acumulado de janeiro a agosto, segundo a Abeiva. “Argumentar que essas medidas restritivas a veículos importados proporcionam geração de empregos aos brasileiros é insustentável”, ataca a associação.

As medidas afetam imediatamente os veículos de fabricantes orientais, justamente aqueles que se vendem como “os mais baratos do Brasil” – o aumento nos preços desses carros, pode chegar a 28%, segundo o ministro da Fazenda Guido Mantega. De acordo com a Abeiva, todo o estoque de veículos importados nos portos brasileiros, em trânsito e outros encomendados nos países de origem, já serão penalizados. Somente o estoque da rede autorizada de concessionárias não terá repasse do aumento do IPI.

O aumento de 30 pontos percentuais do IPI significa, segundo a associação, alta de 230% no imposto. “As medidas restritivas aos carros importados vão propiciar à indústria local praticar os preços que quiserem, na medida em que deixará de ter competitividade, em tecnologia, motorização, atualização de design, e principalmente em relação aos preços sugeridos aos consumidores brasileiros”, disse José Luiz Gandini, presidente da associação. A Abeiva pediu que o decreto seja enquadrado dentro das leis internacionais do livre comércio e também dentro do previsto pela Constituição brasileira. A Jac Motors, em comunicado, informou que tem “boa quantidade de estoques” e que, por enquanto, não vai alterar os preços sugeridos de seus automóveis no Brasil. Também garantiu que mantém os planos para a construção da fábrica no Brasil, com investimentos de R$ 900 milhões.

Antecipação

O consultor ambiental Emílio Saiki preferiu antecipar a compra do carro. Ele esperava trocar o carro somente no mês que vem, no entanto, ao saber do reajuste do IPI, imediatamente decidiu antecipar a compra. Aproveitando o feriado municipal em Esmeraldas, na Grande BH, onde mora, ele foi à concessionária da JAC Motors, na Avenida Barão Homem de Melo, para fechar o negócio. “Liguei cedo para tirar dúvida sobre a partir de quando valeria o aumento e fui informado que, possivelmente quando o estoque esgotasse, os preço subiriam”, afirma Saiki, com as chaves do J3 nas mãos. O modelo custa hoje R$ 37,9 mil (mais o valor do frete) e a estimativa é que aumente R$ 10 mil.

O caso de Saiki é apenas um de uma série de corridas geradas depois de o governo federal anunciar o aumento do IPI para carros produzidos fora do país. Na mesma concessionária, ao abrir as portas, 9h, clientes aguardavam para saber os efeitos da alta. Mas naquela hora, nem mesmo os funcionários sabiam confirmar quando o aumento seria repassado. “Quem comprar antes vai rir de orelha a orelha. De uma só vez, os carros vão valorizar 30%”, afirma o gerente da concessionária, Arley Gomes, considerando que a competição com os carros nacionais ganhará novos atores. “Em vez de a briga ser nos preços, vamos nos apoiar na garantia [de seis anos] e no menor custo da manutenção”, afirma.

 

Pé no freio os negócios

 

A proposta do governo federal é exatamente frear a alta nas vendas dos carros chinos, equiparando os preços adotados por essas montadoras aos estipulados pelas nacionais. Nesta semana, a Associação Brasileira das Empresas Importadoras de Veículos Automotores (Abeiva), da qual só participam as marcas que não têm fábrica no Brasil (Chery, Kia e JAC), revelou alta de 11,3% em agosto nos emplacamentos de seus associados, em relação ao mês de julho, o que significou alta também na participação de mercado: de 6,37% para 6,64%. Mas, se os números forem comparados a agosto do ano passado, a expansão nas vendas chega a 104,1%. De janeiro a agosto, o aumento, frente 2010, foi de 112,4%.

A administradora Marcele Liboni colaborou para esse aumento. Há três meses, ela encomendou um Chery QQ – popular tido como mais barato do país – e nessa sexta-feira buscou-o na concessionária – que, em dúvida quanto aos efeitos da medida, não vendeu uma unidade sequer. “Vou ganhar quase R$ 7 mil, se houver aumento de 30% (em relação aos valores atuais)”, diz a jovem. Questionada se pagaria R$ 30 mil pelo modelo, é sucinta: “Não. Compraria um Novo Uno.”

E são respostas como a de Marcele que fizeram a Associação Nacional do Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) pressionar o governo e, por consequência, celebrar a nova medida. Para Ademar Cantero, diretor de Relações Institucionais da associação, “a política é boa para o país e não só para a indústria, porque o setor tem alta capilaridade, efeito multiplicador em vários segmentos da economia”. (FB, PRF e PC)


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