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Estado de Minas

Peça discute os reflexos da ditadura militar no Brasil contemporâneo

Dirigida e escrita pelo mineiro Luiz Paixão, '68' aborda a importância de BH na resistência ao golpe de 1964. Dramaturgo mineiro quer contar essa história para os jovens do século 21


postado em 27/09/2019 04:00


Discutir questões presentes no imaginário de quem testemunhou a ditadura militar brasileira. Esse é o objetivo da peça 68, escrita e dirigida por Luiz Paixão, que estreia nesta sexta-feira (27), no Teatro Marília.

De acordo com Paixão, 68 dramatiza episódios que marcaram a resistência do povo brasileiro, com foco em experiências vividas em Belo Horizonte. Naquele momento histórico, diz ele, difundiu-se um certo nível de paranoia a partir da repetição do discurso oficial do governo. “Isso começou a mudar o comportamento das pessoas. Atualmente, é possível notar que ideais da ditadura militar estão completamente arraigados ideologicamente no discurso presidencial. Vemos parte da população não apenas assimilando, mas repetindo esse discurso, assim como ocorreu no passado. Ao ver em cena os temas tratados pelo espetáculo, o público perceberá que são as mesmas ideias”, afirma o diretor.

Paixão ressalta que passado e presente estão conectados. “O passado é parte do presente e o presente é produto desse passado. Só assim, criando essa consciência, teremos condições de seguir como força atuante dentro da sociedade”, acredita o diretor.

A opção de localizar a história em BH se deve ao papel político da capital na luta contra a ditadura. “A cidade foi palco de importantes manifestações, berço de movimentos que lutaram ativamente contra a repressão militar. Resgatar essas memórias é uma forma de contar parte da história de Belo Horizonte para as gerações mais novas”, diz o dramaturgo, que se inspirou nos métodos de Bertolt Brecht para criar o espetáculo.

PODER

“A gente procura resgatar aquela época da história para discutir alguns aspectos que julgo fundamentais. Entre eles, a formação de uma nova ideologia. Quando o golpe de 1964 foi dado, eles não estavam pensando simplesmente em derrubar o Jango. Procurava-se instituir novas relações de poder”, afirma Paixão.

A família – sobretudo de classe média – foi fundamental nesse processo, lembra. “O golpe militar se sustentou na defesa da família, na Marcha da Família com Deus pela Liberdade. E o que aconteceu é que a família foi extremamente atingida, desestruturada. Algumas sofreram terrivelmente.”

De acordo com Paixão, a ditadura não perseguiu apenas militantes esquerdistas, mas a organização familiar. “As pessoas perderam filhos, mães, pais, irmãos, parentes, amigos, todo o ciclo de convivência que estava estabelecido. De repente, a ditadura interferiu ali e modificou toda essa harmonia”.

O governo Bolsonaro, lembra o dramaturgo, também se sustenta na defesa da família. “Estamos vivendo um regime que, felizmente, ainda é democrático, mas traços fundamentais da ditadura vêm sendo acentuados. Nossa peça mostra isso.” 

O projeto 68 conta com dois curtas produzidos por cineastas belo-horizontinos e um debate. Nesta sexta-feira (27), às 20h, vai passar Pastores desavisados (1968), do diretor Ricardo Teixeira de Salles. No sábado (28), às 20h, será a vez de Interregno (1967), de Flávio Werneck. No domingo (29), depois da peça, roda de conversa terá como convidados a deputada federal Jô Moraes e o professor Juarez Guimarães.

68
Texto e direção: Luiz Paixão. Com Arthur Bello, Bruno Hilário, Isabella Saibert, Marco Túlio Zerlotini, Mariana Bizzotto e Na Rachid. Sexta (27) e sábado (28), às 20h; domingo (29), às 19h. Teatro Marília. Avenida Alfredo Balena, 586, Santa Efigênia, (31) 3277-4697. Ingressos: R$ 44 (inteira), R$ 22 (meia-entrada) e R$ 20 (postos do Sinparc).


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