Comemore o aniversário de BH ao lado de Carlos Drummond de Andrade
Escultura do poeta, assinada por Leo Santana, faz a festa do público na exposição 'Drummond no Horizonte', na porta do Teatro Francisco Nunes
Por
Gustavo Werneck
12/12/2022 04:00 - Atualizado em 11/12/2022 23:15
Arte, palavras, diversão, abraços imaginários. E “todo o (bom) sentimento do mundo” devotado ao poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), que nasceu em Itabira, viveu em Belo Horizonte, mudou-se para o Rio de Janeiro, e, depois de eternizado nas letras impressas, retorna à capital mineira para atrair novos olhares, fortalecer o gosto pela literatura, valorizar a história da cidade.
O escritor pode ser visto “em escultura” até o próximo dia 22 de dezembro, na entrada do Teatro Francisco Nunes, no Parque Municipal Américo Renné Giannetti, no Centro.
Dedicada aos 125 anos de Belo Horizonte – comemorados hoje, 12 de dezembro –, a iniciativa conta com a réplica do famoso monumento dedicado a Drummond instalado na orla de Copacabana, no Rio de Janeiro.
O poeta morou em BH durante quase uma década e meia, a partir dos 18 anos. Se estivesse vivo, teria 120 anos – bem perto da idade da capital.
A exposição “Drummond no Horizonte” exibe também instalação com tecidos pintados a partir da caligrafia do autor de “A rosa do povo” e “Sentimento do mundo”.
Na abertura, ontem de manhã, visitantes receberam como lembrança óculos de papel semelhantes aos do poeta. De grande utilidade, pois são ótimos marcadores de livros.
Leitora declara seu amor pela poesia de Carlos Drummond de Andrade, que poderá ser 'visitado' até 22 de dezembro, no Parque Municipal (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Acompanhado da avó, Olímpia Clara Lage, de raízes itabiranas e “aparentada distante” com Drummond, Francisco Marcatti Lage, de 9 anos, tirou foto abraçado à escultura. Está no terceiro ano do ensino fundamental e pretende conhecer a vida e obra do escritor.
Em cada coração, um pensamento. “O mundo precisa de poesia, acredito na poesia”, garantiu a enfermeira Elisângela Janaína Silva Souza, sentada ao lado da escultura.
O filósofo Guilherme Gontijo e os venezuelanos Guillermo e Maria Gabriela Alvarez 'tietaram' o poeta (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Com amigos venezuelanos, o filósofo Guilherme Gontijo segurava o pequeno cartaz com o célebre “E agora, José?”. Revelou estar satisfeito com o presente de aniversário para BH: a valorização da cultura mineira.
Há um ano e meio na capital, a venezuelana Maria Gabriela Alvarez pedia mais detalhes sobre o escritor. De imediato, o filho, Guillermo Alvarez, que chegou a BH há três anos, fez pesquisa na internet e, com um sorriso, contou que já visitou Itabira.
“Também na escultura, ele ficou imortalizado”, disse o jovem.
Depois da exposição, a estátua voltará para o ateliê de seu autor, o escultor Leo Santana.
“Drummond no Horizonte” é ação associada ao Festival Literário Internacional de Belo Horizonte (FLI-BH), que chegará à quinta edição em 2023. O evento é promovido pela Prefeitura de Belo Horizonte.
A secretária municipal de Cultura, Eliane Parreiras, diz que a mostra simboliza a vivência do escritor na cidade, a partir de programação gratuita e democrática. É um presente para Belo Horizonte, afirma, “pois busca aproximar as pessoas e alargar a compreensão sobre a literatura de maneira interativa e, sobretudo, afetiva”.
Todo mundo queria selfie com o visitante ilustre (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Além da "presença" do poeta, a exposição terá show neste dia de aniversário de BH. O Coral dos Desafinados, com regência de Beatriz Myrrha, vai cantar no Teatro Francisco Nunes, às 20h.
O repertório terá músicas de Milton Nascimento, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gonzaguinha e Ivan Lins, com narração de poemas de Drummond. Bilhetes gratuitos devem ser retirados na plataforma DiskIngressos.
Pedro Nava em frente ao Rio Arrudas nas proximidades da Praça da Estação, dois 'personagens' de seus livros de memórias (foto: Jorge Gontijo/EMl/17/12/76)
BH: musa, cenário e abrigo de escritores
Belo Horizonte teve papel fundamental na formação de Carlos Drummond de Andrade, que morou na capital nos anos 1920 e 1930. Na cidade, ele se tornou amigo de Abgar Renault, Aníbal Machado, Emílio Moura, Milton Campos, Pedro Nava, frequentadores da Livraria Alves e do Café Estrela.
Em BH, o jovem poeta conheceu Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Com Emílio Moura, Gregoriano Canedo e Martins de Almeida, ele fundou “A Revista”. Lançou seu primeiro livro, “Alguma poesia”, na cidade. Em 1934, mudou-se para o Rio de Janeiro.
Celeiro de talentos, a capital abriga e inspira autores de várias gerações. O sexto número da revista cultural Marimbondo, publicado este ano, fez a seguinte pergunta a alguns deles: “O que é a literatura de Beagá?”.
Myriam Ávila, professora da Faculdade de Letras da UFMG, cita a cidade cenário dos romances “O encontro marcado” (1956), de Fernando Sabino, e “O amanuense Belmiro” (1937), de Cyro dos Anjos. Afirma que a importância do Centro ainda persiste.
“A imagem palpável da divisão de classes e de eras é o Viaduto de Santa Tereza, sobre cujos arcos Drummond se equilibrava. Agora, é debaixo do viaduto que se desenrola a cena da literatura de BH”, observa.
Pieta Poeta ressalta que a literatura de BH é multiforme. “Definitivamente, não cabe só na biblioteca”, avisa, citando murais, grafites, lambes, a “literatura de guardanapo” rabiscada entre goles de cerveja.
A artista plástica Marta Neves observa que tal literatura não se limita a autores consagrados. “É o sarau do bar ou do Centro de Referência da Juventude, na Praça da Estação, é o slam em todo canto, o coletivo de arte coroando Nossa Senhora dos Travestis (…) o sugestivo 'casamento de painéis' na beira do Anel Rodoviário.”
Para a escritora Bruna Kalil Othero, a literatura contemporânea de BH “acontece cada dia menos nas livrarias e mais nas ruas: debaixo do Viaduto de Santa Tereza, nas batalhas de MCs e performances de slam, poetas urbanos nascem todos os dias”.
Com seus arcos, que um dia foram escalados por Drummond, Viaduto de Santa Tereza é personagem onipresente na literatura de Beagá (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Rogério Coelho, integrante do Slam Clube da Luta, destaca a “escrevivência dos marginais”, ou seja, “aquelas e aqueles que descontornam a vida cotidiana, os versos que criam seus-nossos trajetos na cidade.”
Doutoranda em teoria da literatura pela UFMG, Júlia Arantes refaz caminhadas de Murilo Rubião pelo Centro de BH. “O asfalto e a calçada da Augusto de Lima já não são os mesmos. Como os argonautas que renovam seu navio durante a viagem, a avenida foi reconstruída.”
O “arqueólogo-leitor” de Júlia, “ao aguçar seu olhar para a superfície do concreto e do metal, escava o imaginário da cidade”.
E lá estão Drummond e Fernando Sabino escalando o Viaduto de Santa Tereza. Assim como, nestes dias, Ana Martins Marques, Pedro Kalil, Maria Esther Maciel, Ricardo Aleixo, Júlia Panadés – e tantos outros – passam apressados, “imersos em seu cotidiano, em direção ao supermercado, ao banco, à farmácia.”
"DRUMMOND NO HORIZONTE"
Exposição em cartaz no Teatro Francisco Nunes, Parque Municipal (Avenida Afonso Pena, 1.377, Centro). Até 22 de dezembro, das 10h às 17h. Entrada franca, com retirada de ingressos na plataforma Sympla.