Jornal Estado de Minas

ARTE SEM FRONTEIRAS

Quartas de Improviso retoma agenda presencial e aposta na experimentação


Depois de um período de suspensão por causa da pandemia, o projeto Quartas de Improviso está de volta, com apresentações que seguem até novembro no Teatro Espanca. Quem abre a programação, nesta quarta-feira (14/9), são os músicos Henrique Iwao e Marco Scarassatti, que recebem o convidado Aquiles Guimarães – artista dedicado a performances de síntese sonora por meio de instrumentos autorais programados.





A retomada do Quartas de Improviso, que chega à 15ª temporada, traz como novidade a participação de dois músicos residentes: Scarassatti e Patrícia Bizzotto. A dupla cobre a lacuna deixada por Matthias Koole, criador do projeto ao lado de Iwao, que está em Berlim. Os residentes se alternarão em duos entre si e com Iwao, atuando como anfitriões de convidados que não necessariamente pertencem à esfera da música.

Confluência de saberes

Quartas de Improviso surgiu em 2013 por meio da confluência estética entre Iwao e Koole, que trabalhavam com experimentação e improvisação musical. Os idealizadores convidam artistas e nomes de diferentes áreas – como matemática, geologia e biologia, por exemplo – para produzir experimentos a partir do improviso sonoro. Os convidados têm total liberdade. Podem escolher se improvisarão com os músicos ou se participarão de outra forma.

A curadora Patrícia Bizzotto, que foi convidada de outras edições e agora estreia como residente, diz que a participação de pessoas de outras áreas é uma forma de deslocar a escuta. “Nesta temporada, por exemplo, teremos uma costureira. Ela vai ficar costurando roupas enquanto a gente toca”, afirma.





“A gente não precisa dizer as mesmas coisas”, explica, referindo-se aos convidados. “O espaço pode ser dividido respeitando-se singularidades do que se diz ou se faz, sem que um precise corroborar o outro; é uma concomitância.”

A curadora Patrícia Bizzotto afirma que projeto pretende romper preconceitos em relação a experimentações estéticas (foto: Preto Matheus/Divulgação)


Além de Patrícia, Scarassatti e Iwao, a temporada vai reunir 12 nomes de diversas áreas: Aquiles Guimarães, Bella, Régelles Queiroz, Lourenço Martins Marques, Alcione Oliveira, Juliana Porfírio, Camila Morena da Luz, Wallace Kalllaw, Ricardo Aleixo, Vanessa Aiseó, Matthias Koole e Sylvia Amélia.

Um dos critérios de escolha dos convidados é a diversidade de atuação. “Trazemos músicos, mas também gente da dança, do teatro ou, por exemplo, alguém da iluminação, como será o caso da apresentação do próximo dia 21. É para experimentar a criação em diversas instâncias, diversos formatos”, ressalta Patrícia.





O propósito, destaca a curadora, é tentar “furar a bolha” do que se entende por música experimental e de improviso, buscando quebrar resistências ao segmento. “Muita gente ainda acha que é só ruído, que não vai conseguir interagir, ter uma relação de reconhecimento. Mas esse som, muitas vezes, está mais próximo do nosso dia a dia do que a gente imagina. A resistência é mais conceitual do que propriamente de escuta”, considera.

Ela entende, contudo, que o Quartas de Improviso é um lugar de risco. “Você não tem garantia do produto, porque não tem nada combinado, queremos é peitar mesmo esse lugar. Existe uma instância política, porque o resultado é o que vamos construir juntos ali na hora”, ressalta.


"Situações-acontecimento" sem ensaio

Henrique Iwao concorda. “Estamos com a vontade renovada de instaurar situações-acontecimento, em que a música experimental, a improvisação livre, entra em diálogo com diferentes iniciativas – iluminação, dança, poesia, costura, performance, entre outras. Continuamos trabalhando a ideia de encontro sem ensaio prévio, onde participantes se abrem para a interação e o imprevisto”.





A 15ª temporada do Quartas de Improviso é realizada com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte. Patrícia chama a atenção para o fato de esse apoio ser a forma de viabilizar o projeto, dando à população a possibilidade de conhecer o universo da experimentação.

“Existe a ideia de que o que a gente faz é algo inacessível, até do ponto de vista epistemológico, mas a prática da improvisação está em todos nós. É uma coisa muito saudável, essencial, independentemente do contexto cultural ou do país em que você vive. Os indígenas improvisam o tempo inteiro. É mais comum do que se imagina, mas a gente vai sendo criada para perder isso, (é criada) para ter de acertar, de fazer bonito. São amarras às vezes muito violentas, que tiram o lugar do espontâneo, da brincadeira, da aceitação”, comenta.

O projeto oferece também a oficina Deriva e Improvisação, ministrada por Marco Scarassatti. Com sete vagas, a atividade estimula experiências de escuta e deriva sonoras como base para improvisações individuais e coletivas.





Interessados devem possuir gravador (smartphone ou qualquer outro) e instrumento musical ou objeto sonoro. As inscrições podem ser realizadas por meio do e-mail qi@seminalrecords.org. As aulas ocorrerão em 29 e 30 de outubro e de 5 a 7 de novembro.

QUARTAS DE IMPROVISO

. Hoje (14/9): Iwao-Scarassatti e Aquiles Guimarães
. 21/9: Bizzotto-Scarassatti, Bella e Régelles Queiroz
. 28/9: Bizzotto-Iwao, Lourenço Martins Marques e Alcione Oliveira
. 5/10: Bizzotto-Iwao-Scarassatti e Juliana Porfírio
. 12/10: Bizzotto-Iwao, Camila Morena da Luz e Wallace Kalllaw
. 19/10: Iwao-Scarassatti, Ricardo Aleixo e Vanessa Aiseó
. 26/10: Bizzotto-Scarassatti, Matthias Koole e Sylvia Amélia
. 9/11: Bizzotto-Iwao-Scarassatti e participantes da oficina Deriva e Improvisação

. Onde: Teatro Espanca (Rua Aarão Reis, 542, Centro), às 19h. Em 9 de novembro, apresentação no Centro de Referência das Juventudes(Rua Guaicurus, 50, Centro), às 19h. Entrada franca