Jornal Estado de Minas

MÚSICA

Maria Rita lança o álbum "Desse jeito", com fortes raízes no samba



Quando Maria Rita assinou contrato com a Som Livre, a ideia era lançar uma série de singles, uma forma de se adaptar aos modos de produção da indústria fonográfica atual. No entanto, a cantora entregou logo um EP com seis faixas. Desse jeito saiu assim, de uma vez, e é uma espécie de confirmação do compromisso da cantora com o samba.





O álbum começou a ser pensado antes de o coronavírus frear o mundo e manter bilhões de pessoas isoladas em casa. “O disco surgiu por uma necessidade de, naquele momento, me aproximar mais dos moldes e métodos de trabalho da indústria fonográfica com a questão dos singles, do EP, do audiovisual”, conta Maria Rita.

“Era uma vontade grande ter a liberdade de amanhã ou depois, por exemplo, gravar um single com outro artista e não esperar um disco, porque esse encontro é momentâneo, para ser eternizado, mas não necessariamente para esperar dois anos”, explica.

A cantora e compositora não estava preparada para lançar um disco quando mandou para a gravadora as cópias das canções sem masterização e sem mixagem. Dois dias depois, veio a proposta de produzir logo de cara um álbum inteiro, de uma vez.





Maria Rita ficou apreensiva, porque nunca lançou disco tão curto. Porém, ao começar o trabalho em estúdio, se deu conta da unidade do conjunto.

“Achei isso curioso. Vi que, embora não tenha planejado um EP, mais uma vez tinha feito uma fotografia da minha vida de forma absolutamente inconsciente no sentido de ordem, da história a ser contada num disco. As músicas são verdadeiras, mas tinha uma história com princípio meio e fim que fui perceber depois”, conta.
 
(foto: Renato Nascimento/Divulgação)

Parceiros e amigos de fé

Desse jeito celebra os 20 anos de carreira da cantora com alguns convidados que são amigos próximos dela.
Parceria com Magnu Sousá e Maurílio Oliveira, Por vezes contou com participação de Thiaguinho. Na letra, a cantora evoca um corpo intocado e uma força vital que ela também encontra no candomblé.





“A letra veio de sopetão, mostrei para o Magnu e ele escreveu a melodia. E Thiaguinho é um amigo muito querido, uma pessoa muito importante, presente no meu dia a dia”, conta.

O candomblé e os santos também aparecem na faixa-título Desse jeito, em versos como Quem cuspiu a cangibrina do santo/ Veste branco em dia de Oxalá/ Tem a ginga do andar do malandro/ Não é qualquer um que vibra na força de Ogum.
 

 
 
Em Correria, Maria Rita fala sobre o racismo e o lugar do samba na sociedade brasileira. “É uma crítica a esta sociedade racista, que assinou a alforria que o patrão teve que dar”, lamenta.

Teresa Cristina é a convidada de Canção da erê dela, música que surgiu de modo inusitado. Maria Rita acordou, certo dia, com a letra na cabeça e estranhou. “Não sou uma compositora que acorda de manhã e senta para compor, para fazer esse exercício que os compositores fazem. Fundamentalmente, sou uma intérprete, cantora, empresária e mãe. Para esse rolê de compositor, conto com meus parceiros mais próximos. Dito isso, essa melodia, ou parte dela... abri o olho e a música estava tocando na minha cabeça”, diz.





Depois de mandar um áudio para o Pretinho da Serrinha e Fred Camacho, para se assegurar de que não estava com a melodia de outra pessoa na cabeça, a cantora convidou os dois compositores para fazerem a letra.

O convite para Teresa Cristina gravar Canção da erê dela foi quase natural.

“Teresa e eu, a gente já vem de muitos encontros, desfiles da Portela, amigos em comum, troca de mensagens, muita comunhão de ideias e pensamento de valores”, conta. “Ela é da religião e eu queria uma mulher que fosse cantar comigo, porque a erê é menina. Teresa traz todo o entendimento. E é uma mulher preta, do samba, que respeito, admiro e pela qual tenho um carinho enorme.”


DUAS PERGUNTAS PARA...

Maria Rita - cantora e compositora


“Desse jeito” é seu nono álbum e vem depois de “Amor e música”. O que ele representa, depois da pandemia da COVID-19 e do caos decorrente dela?

O formato que estava sendo vendido minha carreira era esse, isso estava me sufocando porque só tenho 45 anos e 20 de carreira. Estava me sentindo ficando pra trás, com muita coisa ainda pra oferecer. E aí veio a pandemia, que pra mim virou mais uma questão de sobrevivência do que ‘vou pensar meu futuro, projetar’. Não, eu só precisava sobreviver naquele momento. A reabertura possibilitou reabraçar isso aí e reafirmar para o mundo inteiro meu compromisso, acolhimento, aconchego no samba.





Algumas faixas são a celebração da ligação entre o samba e a religião. Por que isso é importante no momento em que o candomblé está sendo oficialmente demonizado pela Presidência da República?

Isso é apavorante, mortal, um perigo, um risco de vida que as pessoas correm. Somos um país cego, em negação com sua história, em negação com seu passado, seja o passado de torturador, seja de quem escraviza um povo, e fingimos que não existe. Isso gera essa situação de falta de entendimento e conhecimento formal do que aconteceu. Não consigo entender como uma religião que só celebra as qualidades dos seres humanos, que só celebra a união e comunhão com a natureza, os seus mais velhos e mais novos, pode ser demonizada. Uma religião que nem sequer tem o entendimento do ruim, do mal, das trevas. É pequeno. Nunca li a “Bíblia”, não fui criada no cristianismo, fui encontrar minha fé agora, com 40 anos de idade, mas o fato de não ter lido a “Bíblia” não me dá o direito de sair criticando quem acredita naquilo. Nossa religião é uma religião horizontal, os orixás têm as qualidades e não qualidades dos seres humanos.
 
(foto: Som Livre/Reprodução)

“DESSE JEITO”

>> EP de Maria Rita
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