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Estado de Minas CINEMA

'O filme do Galo' convoca torcedor para quebrar o recorde de público

Documentário sobre a história do clube até a conquista de 2014 estreia nesta quinta-feira (11/11) com ambição de conquistar a liderança de bilheteria no gênero


11/11/2021 04:00 - atualizado 11/11/2021 11:12

Torcida do Atlético na arquibancada
Narrado pela torcedora Carol Leandro, documentário destaca o comportamento e o papel da torcida atleticana nos momentos de glória e no rebaixamento do clube (foto: Embaúba Filmes/Divulgação)

"O atleticano é calejado, mas isso nos ensina a lidar com a vida. Enquanto a gente vê a torcida do Cruzeiro quebrando o estádio e vaiando o time na queda para a Série B, a torcida do Atlético cantou o hino do clube. Eu acho um dos momentos mais emocionantes do filme: a reação da torcida de abraçar o time no rebaixamento"

Sérgio Borges, codiretor de "Lutar, lutar, lutar - O filme do Galo"


Transformar a poltrona do cinema numa extensão da arquibancada para o torcedor atleticano é o objetivo dos diretores Helvécio Marins e Sérgio Borges, que lançam nesta quinta-feira (11/11) nos cinemas o documentário “Lutar, lutar, lutar – O filme do Galo”.

A história do clube é contada desde a sua fundação até a conquista da Copa do Brasil de 2014 em cima do Cruzeiro. Além de BH e cidades do interior de Minas, o longa chegará às salas de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Porto Alegre. 

Com carreiras voltadas ao cinema autoral de ficção, a dupla de diretores mineiros confessa ter assumido “o lugar de torcedor” e se afastado da ideia de fazer “um documentário distante e imparcial”. 

Com a ideia de que “o Atlético não é um time forjado na derrota, mas na injustiça”, conforme aponta o jornalista Fred Melo Paiva, colunista do Estado de Minas, o documentário revê as glórias e as derrotas marcantes do Atlético, além dos traumas dos atleticanos, como os erros de arbitragem que impediram os grandes esquadrões dos anos 1970 e 1980 de conquistar títulos relevantes contra equipes paulistas e cariocas.

A defesa do goleiro Victor no pênalti contra o Tijuana (aos 47min do segundo tempo), que abriu caminho para o Atlético conquistar a sua primeira Libertadores da América, por outro lado, é vista como a redenção de toda uma nação (atleticana, obviamente), que se uniu e se fortaleceu diante das injustiças. 

Após inúmeras decepções, São Victor do Horto e Ronaldinho Gaúcho libertaram o clube do jejum. Na tese do filme, todo sofrimento provocado ao longo das décadas corrobora a paixão incondicional da massa atleticana. 

Dadá Maravilha, Reinaldo, Toninho Cerezo, Victor, Eder, João Leite, Procópio, Juca Kfouri, Vavá, Alexandre Kalil, Luizinho, Paulo Isidoro e Djonga são alguns dos entrevistados. Além de Fred Melo Paiva, os jornalistas dos Diários Associados Eduardo de Ávila e Fael Lima também integram esse elenco. 



A meta dos diretores é ter o maior público do cinema nacional para um filme sobre um clube de futebol. O recorde atual é da torcida do Bahia, que prestigiou “Bahêa minha vida” (2011) com 75 mil ingressos vendidos. A vice-liderança é dos corintianos, que deram a “Fiel – O filme” (2009) um público de 54 mil pagantes. Resta saber se os 8 milhões de atleticanos vão levar esse título.

Em Belo Horizonte, o filme estreia no Cine UNA Belas Artes e em salas  dos shoppings BH, Diamond Mall, Pátio Savassi, Cidade, Barreiro e Estação. 

Sérgio Borges, de 46 anos, que tem no currículo o documentário “O céu sobre os ombros”' (2010), conversou com o Estado de Minas sobre esse filme, feito “por torcedores apaixonados e uma equipe completamente atleticana”. Leia a seguir os principais trechos da entrevista. 



Quando e por que vocês decidiram fazer um filme sobre o Galo? 
Em 2010, aprovei um projeto (de filme) sobre os bastidores do futebol pensando no Atlético, meu time do coração. Mas não houve muito interesse do clube em fazer. Com a conquista da Libertadores, em 2013, fiquei com o desejo de produzir algo sobre o assunto. Conversando com Helvécio (Marins), ele teve a ideia de fazer um filme sobre a história do Atlético para a torcida. O projeto como é hoje nasce do nosso desejo de fazer um filme que pudesse homenagear a torcida do Atlético e contar a história do nosso time do coração.

Como foi o trabalho de pesquisa? Vocês descobriram algo surpreendente?  
Gravamos entrevistas com aproximadamente 80 pessoas, mas só 30 entram no filme. Pesquisamos cerca de 500 horas de material de arquivo e tivemos uma ajuda muito legal do Centro de Memória do Galo. Muito da história a gente já sabia. Mas quando fomos rever jogos como Atlético x Flamengo, em 1980 (final do Brasileirão) e 1981 (na Libertadores da América), foi como reviver as emoções e os traumas da nossa infância.

Fora as pérolas que fomos achando, como o material dos Campeões do Gelo num museu em Hamburgo (Alemanha), imagens de um Atlético x Vila Nova, em 1942, imagens do Canal 100 do Atlético ganhando da Seleção Brasileira. Fizemos uma pesquisa bem grande do acervo do Estado de Minas de fotos e reportagens. Era emocionante descobrir esse material, porque eram imagens que não conhecíamos e vamos ter a oportunidade de mostrar para a torcida.



Em termos de linguagem cinematográfica, que caminho vocês decidiram seguir?
O filme tem materiais muito diversos, que incluem fotos, textos de jornal e revista, vídeos de 1940 em diante. Tínhamos uma estrutura de imagens muito heterogêneas e sabíamos que, em termos estéticos, o filme trabalharia com um mosaico de diferentes formatos e texturas. Em termos dramatúrgicos, desde o começo não queríamos contar uma história cronológica. Apesar de contar a história de forma documental, queríamos aproveitar a dramaturgia própria do cinema, de altos e baixos, de emoções e frustrações, para ter uma história emocionante também. Então, trabalhamos muito nesse lugar entre os altos e baixos. 

A massa atleticana é um dos protagonistas do filme?
Acho que sim. Contar a história do Atlético e não falar da torcida não seria contar a história do Atlético. Nasci em 1975, e peguei o Mineirão ali nos anos 1990/2000, quando mais legal do que ser campeão era ir lá no campo com a torcida do Galo. Esse é um filme para a torcida, então para a gente era fundamental que tivesse torcedores dos mais variados tipos. 

Como se deu a decisão de destacar o papel das mulheres e dos negros na história do Galo? 
A história do Atlético envolve isso, foi o primeiro clube do estado que aceitou um jogador negro. Se o Cruzeiro era o time da colônia italiana; o América se dizia um clube da elite; o Atlético era o time da cidade, do povo. Não é à toa que ele é alvinegro, que tem o preto e o branco na camisa. Tem a ver com esse lugar da diversidade e da igualdade. Para a gente, o Atlético ser o time do povo, do preto e do branco, é, de certa forma, aquilo que faz também a gente ser apaixonado pelo time.

A gente também destaca o papel das mulheres na formação do time, como dona Alice Neves, considerada a primeira presidente da história do Atlético. Sempre teve torcedora atleticana no estádio, tão fiel quanto os homens. Por mais que pareça que o futebol é um esporte de homens, estamos provando cada vez mais que não é. E a própria escolha de Carol Leandro (torcedora do Atlético) como narradora do filme também era no sentido de valorizar o papel delas.

O futebol capitaliza muito dinheiro, são direitos de transmissão e negócios milionários, mas ele ainda é um lugar de encontro e pertencimento. É o que faz o futebol ser essa paixão. Então, falar da diversidade da torcida atleticana, seja de gênero ou raça, nos parecia fundamental.       

Era uma obrigação retratar o momento mais difícil da história do clube, a queda para a série B?
A gente não quer fazer a imagem fake de um time glorioso só com suas conquistas, sendo que a história de perder e ganhar não só faz parte do futebol, como da vida de qualquer pessoa. O atleticano é calejado, mas isso nos ensina a lidar com a vida. Enquanto a gente vê a torcida do Cruzeiro quebrando o estádio e vaiando o time na queda para a Série B, a torcida do Atlético cantou o hino do clube.

Eu acho um dos momentos mais emocionantes do filme: a reação da torcida de abraçar o time no rebaixamento. A massa esteve com o Atlético nos piores momentos, então era imprescindível falar da história como um todo, sem esconder as nossas maiores decepções. A torcida mostrou que o Atlético é muito maior do que Série A ou Série B. Nós quebramos recordes de público em todas as séries naquele ano (2006) e foi bonito demais. O (Alexandre) Kalil fala que aquele cara que só ganha e não tem o peso da vida real acaba se tornando um bobo. A queda do Cruzeiro para a série B é pedagógica nesse sentido. 

O título campeão do gelo, presente no hino do clube, já virou piada entre os rivais do Atlético, devido ao desconhecimento dessa história. Por que decidiram destacar essa conquista no filme?
É sempre mais do que futebol. O Atlético foi para a excursão dos Campeões do Gelo em um processo de reconstrução da Europa pós-guerra. Existe um papel social e político importante nessa excursão. Se o Atlético não foi o primeiro time a excursionar fora do Brasil, ele foi o primeiro que teve um tour mais longo, passou por vários países e que fez 10 jogos.

Realmente, naquela época era uma coisa digna, que os jornais de São Paulo e Rio também tratavam como uma grande glória. Encontramos imagens maravilhosas desse momento, como a torcida do Atlético ocupando o Centro de BH naquela conquista, assim como na Libertadores de 2013. Todo mundo de chapeuzinho e terno comemorando. É um material histórico muito rico. Quem viveu aquilo, imagino que vai ser uma delícia poder reviver essa história.

Como é a estratégia de lançamento, neste momento em que o clube está próximo de vencer o Campeonato Brasileiro depois de 49 anos? 
Obviamente que em termos comerciais é uma situação muito favorável. Começamos este filme em 2014 e gravamos o último grande título do Atlético (Copa do Brasil). E temos a sorte de lançá-lo num momento em que o Atlético pode ganhar o bicampeonato brasileiro e da Copa do Brasil. Quando esse filme começou a demorar (a ser lançado) e o Galo parou de ganhar (títulos importantes), fiquei numa paranoia e na superstição de lançar o filme, porque achava que o time não seria campeão de novo antes disso.

A minha parte eu estou fazendo. O time está num momento fantástico e a torcida está vivendo isso. Acho que fazer esse recuo histórico para entender toda a trajetória do Atlético enriquece esse momento que a gente está vivendo hoje. Agora estou sofrendo duplamente, como torcedor fanático e diretor. Não quero ser o pé-frio do filme do Galo se o time perder o campeonato. 

A meta é ter o maior público da história do cinema nacional para um filme sobre um time de futebol. Qual é sua expectativa para bater esse recorde?
É difícil mensurar isso porque faz dois anos que as pessoas não vão ao cinema, mas, ao mesmo tempo, é a torcida do Galo. Sabemos que os atleticanos são apaixonados e temos muitos títulos de maior torcida em alguns aspectos, então resolvemos humildemente chamar o torcedor para bater esse recorde. É um momento muito especial, em que o torcedor irá com um pouco mais de segurança ao cinema. A gente está com a expectativa de que no boca a boca, na empolgação da torcida e acreditando no potencial do filme, de repente a gente vai ter uma surpresa e até essa história de recorde pode acontecer. 

*Estagiário sob a supervisão da editora Silvana Arantes


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