Jornal Estado de Minas

O MARECHAL E O PRESIDENTE

'O hóspede americano' é superprodução sobre dois gigantes da história


Na selva, o homem e seu filho saem para caçar. Quando retornam para o acampamento, se surpreendem ao ver o chefe da expedição chicoteando um menino que havia roubado comida. Mais tarde, o algoz vai até a tenda do homem e desabafa: havia cometido o ato extremo para impor respeito. Seu interlocutor compreende o ocorrido, ele mesmo já havia feito coisas das quais não se orgulhava. 





Apenas sete anos separavam o ex-presidente norte-americano Theodore Roosevelt (1858-1919) e o coronel (futuro marechal) brasileiro Cândido Rondon (1865-1958). Mas havia um mundo de diferenças entre o político, historiador e naturalista e o engenheiro militar e sertanista. 

No entanto, naquele início de 1914, quando os dois capitaneavam a difícil Expedição Científica Rondon-Roosevelt para explorar o último rio não cartografado do Brasil (o Rio da Dúvida, em Rondônia, hoje chamado Rio Roosevelt), as divergências tiveram que ser colocadas de lado.

É sobre este período que trata a minissérie brasileira “O hóspede americano”, com estreia neste domingo (26/9), na HBO e HBO Max. Produção dirigida por Bruno Barreto, protagonizada por Aidan Quinn (Roosevelt) e Chico Diaz (Rondon), com elenco e equipe mistos (brasileira e norte-americana), rodada no Brasil – Chapada dos Guimarães e Alta Floresta, no Mato Grosso, e São Paulo – é, na opinião do cineasta, uma história sobre complexidade.





“Hoje, mais do que nunca, em que você é (tachado) de esquerda ou de direita, a complexidade é fundamental. A polarização, a militância para um lado ou para o outro, acabaram simplificando tudo. E quando você não pode ser complexo, tem que ser A ou B, perde a liberdade”, diz Barreto. 


O ator norte-americano Aidan Quinn diz que não sabia o quanto Theodore Roosevelt, seu personagem na série, ''tinha sido importante para a natureza e os trabalhadores'' (foto: HBO/DIVULGAÇÃO)

MATAR NUNCA

Foi Rondon, ele próprio descendente de indígenas, autor da frase “morrer se preciso for, matar nunca”, em relação aos povos que encontrou enquanto desbravou os rincões do país para construir linhas telegráficas, quem chicoteou o garoto.

Roosevelt, com uma canetada, transformou o Grand Canyon (e outras tantas áreas naturais dos EUA) em parque nacional, fazendo com que J.P. Morgan, o homem mais poderoso de sua época em seu país, perdesse o equivalente a US$ 600 milhões em mineração. 





Este mesmo homem dançou em cima dos cadáveres de espanhóis em Cuba no final da guerra Hispano-Americana (1898). “São fatos terríveis, quase macabros, mas não os fazem menos grandiosos do que foram”, afirma Barreto.

A série foi rodada em 2018 e está pronta desde o final de 2019. Segundo Barreto, a demora na estreia se deu porque a HBO quis esperar o lançamento da plataforma HBO Max no país – a minissérie tem quatro episódios. Com longos planos e explorando a diversidade brasileira, pode ser vista, na opinião do cineasta, como um filme de 3h45. 

“O hóspede americano” trata do período em que Roosevelt (presidente entre 1901 e 1909), após perder a eleição para o democrata Woodrow Wilson em 1912, abandona a política. Vem ao Brasil com a mulher Edith (Dana Delany) se encontrar com o filho Kermit (Chris Mason). Com Rondon, embarca na expedição – é dos que mais sofrem com as agruras da viagem, que debilitou sua saúde definitivamente. Ele morreu cinco anos mais tarde. 





A produção entremeia tais acontecimentos com passagens da vida pública de Roosevelt – como chefe do Departamento de Polícia de Nova York, implementou reformas para acabar com a corrupção na corporação; como presidente, criou a lei anti-monopólio; recebeu o Nobel da Paz, entre outros feitos. “Era um cara muito progressista, republicano, mas da ala boa, o lado Lincoln. Fiquei apaixonado pelo personagem”, comenta Barreto.   

“O HÓSPEDE AMERICANO”
• Minissérie em quatro episódios. Estreia neste domingo (26/9), às 23h, na HBO e na HBO Max. Um novo episódio por domingo



TRÊS PERGUNTAS PARA...
Chico Diaz 
Ator

Qual a importância de interpretar Cândido Rondon?
Curiosamente, em vários festivais de cinema antigos, quando me perguntavam qual personagem eu pretendia fazer, sempre respondia: “Rondon”. Vejo nele uma representação brasileira fundamental. Foi um militar nobilíssimo, tudo o que fez foi exemplar. (Para interpretá-lo) Consegui, via Bruno (Barreto) muito material fílmico dele, uns cinco CDs que acredito que, infelizmente, tenham se perdido (com o incêndio, em julho passado) na Cinemateca Brasileira. Mas ali dava para entender a trajetória dele, além dos livros, como a própria autobiografia (“História da minha vida”). Agora, acho que Rondon merece um filme só para ele. Só não vai mais caber a mim, por causa da idade.

O que você mais admira nele?
A fibra do homem brasileiro e a visão integradora entre a natureza e o homem, que os originários da Amazônia sabem proporcionar. Isto juntamente com a visão positivista que adquiriu. Disciplina e questões técnicas fizeram dele um homem ímpar para aquela época. Em relação à defesa dos índios, há discursos dele em 1930 que são fundamentais e atualíssimos. Ainda é chamado de patrono das comunicações por causa da visão da integração do território nacional. Ele percorreu toda a fronteira Oeste brasileira de mula, a pé ou de canoa, plantando postes telegráficos. Vindo de onde veio, de uma pequena cidade do interior do Mato Grosso (Santo Antônio de Leverger), e chegar onde chegou, mostra a capacidade e a fibra do povo brasileiro, algo que tem que ser resgatado.





A maior parte da série foi filmada no Mato Grosso, em locais de difícil acesso. Como foi?
Adoro cinema de locação, de imersão, pois é uma oportunidade de mergulhar não só na história como no lugar. Havia uma operação de guerra diária para locomover equipamentos, 20 lanchas simultâneas. Ir e voltar para o trabalho era ótimo, mas a operacionalidade na selva não é fácil, tem escorpião, cobras, calor, mosquitos, espinhos e longas esperas. Eu, que sou bicho de cinema, sou fissurado por este tipo de vida e o desafio enorme (de filmar) acaba fazendo com que você as associe com as dificuldades dos que viveram a história que está sendo contada. Era muita gente, uma grande produção, impensável para os dias de hoje, em que as coisas mais ousadas foram 



TRÊS PERGUNTAS PARA...
Aidan Quinn, 
Ator

O que descobriu sobre Theodore Roosevelt ao fazer a minissérie?
De uma maneira geral, sabia sobre as histórias dele em safáris na África. Mas não sabia o quanto ele tinha sido importante para a natureza e os trabalhadores. Não teríamos parques nacionais nos EUA se não fosse por Teddy Roosevelt. Seu legado é mais relevante do que nunca. Estou no Norte do Estado de Nova York, respirando a fumaça de incêndios a 3 mil milhas (4,8 mil km), por causa das mudanças climáticas. Há uma fotografia famosa do funeral de (Abraham) Lincoln na Union Square (em Nova York) e saber, agora, que as crianças que assistiam de uma janela eram Teddy Roosevelt, a menina que se tornou sua mulher e seu irmão mais velho é incrível. Ele lia um livro por dia quando estava ocupado; doente, lia três. Era extraordinário. 

Como se preparou para o papel?
Eu tinha terminado uma série que fiz durante sete anos em uma grande rede de TV (“Elementary”, na CBS). Foi bom ter um trabalho perto de casa, mas estava morrendo de vontade de fazer um papel que exigisse muito de mim. Pedi a Deus que me mandasse um personagem em que eu pudesse usar muito do que sei e Ele me levou muito a sério, pois o personagem literalmente levou tudo de mim. Ganhei 11 quilos, o que foi fácil, mas não perdê-los. Ainda tenho alguns aqui (diz, apontando para a barriga). Li seis livros sobre ele, não deu para ler todos. E, principalmente, ouvi sua voz nas poucas gravações que existem. Eu as ouvia constantemente para entender o ritmo.





Filmar em rincões do Brasil foi uma aventura?
Não foi sério, ninguém morreu, mas aconteceram coisas. Lembro da imagem de duas botas na água e era um camarada que estava sendo levado pela correnteza. Houve ainda um ator que, ao sair de um barco e ir para o outro, ficou preso entre os dois. Cobras, panteras, 30 espécies de mosquitos que podem te provocar uma doença, tudo foram coisas que deram medo. Mas a probabilidade de você ser atropelado por um carro numa grande cidade é muito maior. Por outro lado, quando eu ia filmar pela manhã e ficava 30 minutos no trajeto em um barco pelo Rio Amazonas, era acompanhado por aquele cenário lindíssimo e tranquilo. Foi difícil filmar, mas você aprende a respeitar a natureza. Se não, ela te derruba. 

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