Eleito em junho e com posse marcada para agosto, o novo presidente do Irã, Ebrahim Raisi, descartou um encontro com Joe Biden já em sua primeira entrevista pós-pleito. O juiz ultraconservador, grande crítico do Ocidente, acrescentou que, mesmo que as sanções americanas fossem suspensas, um diálogo direto com o presidente dos EUA não está em questão.
Assistir ao documentário “Israel/Irã/EUA – A longa guerra”, com estreia nesta sexta (9/07) no canal Curta!, explica muito do presente pelos olhos do passado. Dividida em duas partes, a produção do canal ARTE France dirigida por Vincent de Cointet coloca em perspectiva a relação dos três países ao longo das últimas quatro décadas.
Só os de larga memória vão se lembrar o que hoje parece improvável. Até meados dos anos 1970, os três países eram aliados. O documentário começa justamente com essa quebra, mostrando as mudanças que o poder do aiatolá Khomeini (1902-1989) provocaram não só na região, mas em toda a relação do Oriente Médio com o Ocidente.
O que fica claro é que, no primeiro momento, o comando de política externa dos EUA e de Israel errou feio. Os dois países não acreditaram na força da autoridade religiosa xiita, tampouco na insatisfação popular com a monarquia iraniana.
REVOLUÇÃO
Pois o 1º de fevereiro de 1979 é um dia histórico no Irã. Milhões de pessoas foram para as ruas de Teerã para saudar a chegada de Khomeini, havia 15 anos exilado na França. Era o fim da era do xá Reza Pahlavi (1919-1980) e o início da Revolução Iraniana, que levou o país de uma monarquia autocrática pró-Ocidente a uma república islâmica teocrática.Com farta exibição de imagens de época, o documentário perpassa a década comandada por Khomeini por meio de seus principais marcos. Buscando o tempo todo a impessoalidade, o documentário traz entrevistas com pessoas que atuaram nos diferentes campos. Há antigos estudantes que foram às ruas em apoio a Khomeini, ex-integrantes da CIA e do Mossad, especialistas no Oriente Médio, gente de todos os lados.
Sob a égide de Khomeini, que recebe um ainda jovem Yasser Arafat como o primeiro visitante estrangeiro, Israel e os Estados Unidos personificam o ódio ao domínio imperialista sobre o país. O aiatolá aproveita a oportunidade da causa palestina para dar outra dimensão ao Irã xiita – seu desejo maior era se estabelecer como líder e reunir o maior número possível de países a seu favor. Com a tomada da embaixada americana em novembro de 1979, em que funcionários foram mantidos reféns, a ruptura total com o Ocidente está consumada.
A narrativa avança até a década de 1980, quando os conflitos se intensificam na região, tendo o Líbano como principal alvo. Em 1982, a invasão israelense tinha como objetivo expulsar os palestinos e tornar o Líbano um aliado sob o domínio cristão. Mas a minoria xiita se opõe a isso e favorece o surgimento de uma nova organização: o Hezbollah.
Um marco do período, que apresentou ao Líbano seu primeiro mártir, foi na cidade de Tiro. Em novembro de 1982, o jovem Ahmad Qasir realizou um atentado suicida com um carro-bomba, explodindo um prédio de sete andares onde ficava o quartel-general israelense naquela cidade. Foram quase 100 mortos, a grande maioria soldados israelenses. Um irmão de Qasir relembra, nos dias atuais, o orgulho que sentiu quando soube que seu irmão havia sido o mártir. Impressionante é saber que, no momento do ocorrido, EUA e Israel não atribuíram a explosão a um atentado.
O episódio desta noite vai até a morte de Khomeini. O da próxima semana mostra como os EUA passaram a dar as cartas no Oriente Médio, após o fim do bloco soviético. Também acompanha o investimento nuclear do Irã.
“ISRAEL/IRÃ/EUA – A LONGA GUERRA”
• Documentário em duas partes. A primeira, “Nas origens do confronto”, será exibida nesta sexta (9/07), às 23h, no canal
Curta!. A segunda, “Diálogo ou guerra”, irá ao ar em 16/07, às 23h. Também disponível na plataforma Tamanduá (tamandua.tv.br) e no Curtaon, do Now.