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Estado de Minas CAPÍTULO DIFÍCIL

Fechadas, livrarias de rua de BH notam queda na demanda por delivery 

Fenômeno estaria ligado à diminuição da adesão às medidas de isolamento social, que mantiveram as pessoas em casa e mais dispostas a ler na primeira quarentena


16/01/2021 04:00 - atualizado 16/01/2021 10:59

A Scriptum tem reforçado sua presença no ambiente digital para manter o relacionamento com os clientes(foto: Marcos Vieira/EM/D.A.Press)
A Scriptum tem reforçado sua presença no ambiente digital para manter o relacionamento com os clientes (foto: Marcos Vieira/EM/D.A.Press)

Tradicional reduto livreiro da Savassi, em Belo Horizonte, a Rua Fernandes Tourinho concentra três livrarias que, desde a última segunda-feira (11/1), obedecem ao decreto publicado pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) que determinou o fechamento do comércio não essencial na capital mineira, para deter a disseminação do novo coronavírus. 

De portas fechadas, a Quixote, a Ouvidor e a Scriptum revivem um cenário que experimentaram pela primeira vez no primeiro semestre de 2020, quando foi declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) a pandemia da COVID-19 (em março), e Belo Horizonte entrou numa quarentena que se prolongou por meses.

A diferença, segundo Alencar Perdigão, sócio da Quixote, é a falta de amparo do poder público. ''Sem auxílio ou ajuda estadual e federal, estamos passando por uma fase mais difícil do que no ano passado. A partir do segundo semestre de 2020, retomamos o ritmo e começamos a criar algum tipo de esperança para o futuro. Este novo fechamento atrapalha essa retomada'', comenta ele, que não discorda do endurecimento das medidas de isolamento social, mas considera a decisão precipitada.

''Acredito que (o assunto) deveria ter sido mais bem avaliado, antes de simplesmente mandar fechar. Um decreto como esse precisa levar em conta as particularidades do comércio de rua, ainda mais no início de ano, quando as principais contas chegam. É muito fácil mandar fechar sem saber qual vai ser a real consequência disso. Essa é uma decisão que vai afetar muito a economia da cidade e a sobrevivência de muitas lojas'', afirma.

''As pessoas estão vivendo a vida normalmente. Não há aquela apreensão que tínhamos no início da pandemia. Mesmo com as aulas remotas e o aumento do número de casos e mortes, muita gente já se acostumou com a barbaridade que está acontecendo no país e no mundo''

Welbert Belfort, proprietário da Scriptum



A Livraria Ouvidor mantém pessoal administrativo trabalhando em casa e os demais funcionários se deslocam até a loja para organizar o delivery(foto: Marcos Vieira/EM/D.A.Press)
A Livraria Ouvidor mantém pessoal administrativo trabalhando em casa e os demais funcionários se deslocam até a loja para organizar o delivery (foto: Marcos Vieira/EM/D.A.Press)

SOLIDARIEDADE

O que também deu o gás necessário para a loja não fechar as portas em 2020 foi a solidariedade dos clientes, que, segundo Alencar, promoveram campanhas para aumentar as vendas remotas. Atualmente, a livraria retomou o delivery e recebe pedidos via WhatsApp, mas o entusiasmo de antes já não é o mesmo.

''A procura tem sido muito inferior. Não há mais aquela ansiedade de ficar em casa. No ano passado, todas as lojas estavam fechadas. A demanda de agora não é tão intensa'', diz.

Alencar Perdigão avalia que as vendas da Quixote em 2020 foram de 35% a 45% inferiores às de 2019. A livraria também se viu obrigada a demitir dois funcionários: um que trabalhava na sede localizada na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich), da UFMG, e outro que auxiliava no balcão do conhecido café. Com a queda na demanda, o espaço também foi reduzido e usado para uma mesa de livros adicional.

''A verdade é que nunca conseguiremos recuperar as vendas perdidas. No ano passado, conseguimos ajustar, o delivery funcionou bem. Essa é a nossa esperança. Mas nada se compara com nossa receita de quando a livraria ficava o ano inteiro aberta'', ele diz.  

''(O serviço de delivery) É só para não ficar parado. Para a máquina não parar. A gente trabalha com a esperança de reabrir, porque essas vendas não cobrem nem a [conta de] luz da loja''

Bernardo Ferreira, proprietário da Ouvidor

 

A Quixote aposta na promoção das obras publicadas por seu selo editorial para manter o volume de vendas (foto: Marcos Vieira/EM/D.A.Press)
A Quixote aposta na promoção das obras publicadas por seu selo editorial para manter o volume de vendas (foto: Marcos Vieira/EM/D.A.Press)

VENDA REMOTA

O mesmo vale para a quinquagenária Ouvidor, hoje gerenciada por Bernardo Ferreira. A queda nas vendas foi de 30% no ano passado. ''Considerando tudo o que passamos em 2020, é um resultado até positivo. Dá para levar'', ele comenta.

Assim como a Quixote, a livraria retomou as vendas remotas, via WhatsApp e telefone, que alcançam um resultado de aproximadamente 10% das vendas em condições normais. ''É só para não ficar parado. Para a máquina não parar. A gente trabalha com a esperança de reabrir, porque essas vendas não cobrem nem a [conta de] luz da loja'', revela Ferreira.

Apesar disso, a Ouvidor não foi obrigada a dispensar membros de seu já enxuto quadro de funcionários, hoje composto por cinco profissionais. Segundo o empresário, aqueles cujas atividades podem ser feitas em casa, como os da administração, estão trabalhando remotamente. Os demais vão até a loja para organizar o delivery.

''Sem auxílio ou ajuda estadual e federal, estamos passando por uma fase mais difícil do que no ano passado. A partir do segundo semestre de 2020, retomamos o ritmo e começamos a criar algum tipo de esperança para o futuro. Este novo fechamento atrapalha essa retomada''

Alencar Perdigão, proprietário da Quixote

 

DICA

''Como a livraria é muito antiga, sempre manteve a entrega de livros. Então, não é um recurso exatamente novo para nós. Estamos acostumados. O que diferencia agora é que algumas pessoas entram em contato com o objetivo de pedir dicas, informações, opções de presente. Esse tem sido o nosso diferencial. O que a gente aprendeu nesse período é que ter um serviço personalizado pode fidelizar o cliente'', conta.

Para ele, esse novo fechamento enfraquece ainda mais o comércio de rua. ''O Natal não foi dos melhores. Tivemos um pequeno crescimento no fim do ano, mas nada muito significativo. Vamos ter que pagar o preço por essas medidas, não tem jeito.''

A Scriptum recorre às promoções. Como tem uma editora, dá descontos de 20% para títulos que ela própria lançou, o que também vale para os livros editados pela editora Grama. Oferece também 10% de desconto para exemplares do Grupo Autêntica. A promoção, que vai até o próximo dia 26, é a grande aposta de Welbert Belfort, proprietário da livraria.

''Janeiro e fevereiro já são, normalmente, meses atípicos porque nossa principal demanda são universitários e grupos de estudos, que estão de férias durante essa época. Com o fechamento, a expectativa de venda diminui drasticamente. Por isso a gente tem investido mais nas redes sociais, impulsionando posts sobre livros e lançamentos'', conta.

Welbert avalia que o novo fechamento do comércio de rua é mais perigoso do que os outros, porque foi decretado repentinamente e, segundo ele, ''as pessoas estão vivendo a vida normalmente''.

''Não há aquela apreensão que tínhamos no início da pandemia'', avalia. ''Mesmo com as aulas remotas e o aumento do número de casos e mortes, muita gente já se acostumou com a barbaridade que está acontecendo no país e no mundo. Não é mais novidade.''
 

IMPULSO

Outra grande fonte de renda da Scriptum são os eventos presenciais, que não ocorreram ao longo de todo 2020. ''Sempre somos convidados para feiras e congressos, que inevitavelmente foram cancelados no ano passado. Para 2021, tínhamos uma participação confirmada em um evento que aconteceria em abril, também cancelado. Apesar de termos participado de alguns eventos virtuais, o retorno não é o mesmo. Quando as pessoas estão em casa, elas pensam mais sobre a compra, não compram por impulso'', afirma.

As vendas da livraria tiveram uma queda de 30% no ano que acabou. O novo fechamento também atrapalha os planos de contratar novos funcionários, processo que já estava na fase final quando o decreto da PBH foi publicado.

Por ora, Welbert Belfort diz que a sobrevivência da Scriptum não está ameaçada, mas faz um alerta: ''A partir de agora, a gente passa a depender do senso de cidadania das pessoas que continuam frequentando bares, festas e promovem aglomerações. O combate ao coronavírus é simples, mas as pessoas parecem não querer assimilar isso. Não sei se sobreviveremos a outros fechamentos. Outro fator decisivo são as políticas públicas que não colaboram. O que estamos vivendo agora é um retrato do quão caótico este país está.''
  
> LIVRARIA QUIXOTE
 Vendas pelo WhatsApp (31) 98676-1007
  
> LIVRARIA OUVIDOR
 Vendas pelo WhatsApp (31) 98316-5228 e
 telefone (31) 3221-7473
  
> LIVRARIA SCRIPTUM
 Vendas pelo WhatsApp (31) 99951-1789, 
telefone (31) 3223-1789, 
Instagram @scriptumsavassi e 
site livrariascriptum.com.br.


CÂMARA INSTITUI A RUA DA LITERATURA

Em 22 de dezembro passado, a Câmara Municipal de Belo Horizonte aprovou por 31 votos a um a instituição da Rua da Literatura. A proposta é de autoria do vereador Arnaldo Godoy (PT) e trata de uma atividade cultural que visa promover as livrarias de rua, editoras e os escritores independentes, assim como espaços de convivência entre leitores e livros. A ação deve ocorrer no primeiro sábado de cada mês, na Rua Fernandes Tourinho, na Savassi, Região Centro-Sul de BH, quando as condições sanitárias permitirem.


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