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Estado de Minas SAMBA DIGITAL

Sem poder fazer folia nas ruas, blocos de BH miram na internet

Baianas Ozadas e Chama o Síndico fazem planos de ações on-line para deixar a data do carnaval passar sem nenhum evento na cidade


10/01/2021 04:00 - atualizado 10/01/2021 09:52

Ao longo da história, a população brasileira já anteviu as mais inusitadas situações no país, menos um ano sem carnaval. Em razão da ainda fora de controle pandemia do novo coronavírus, essa hipótese improvável vai se concretizar neste 2021. 

Na data oficial do carnaval, que seria entre os dias 13 e 16 de fevereiro, é certo que as festividades não ocorrerão em Belo Horizonte, onde a folia se tornou uma das maiores do Brasil na última década. Ainda com muitas incertezas a respeito do futuro, blocos e escolas de samba aguardam um momento seguro para retomar atividades, falam em “preservar vidas” e preparam alternativas virtuais para não passar em branco.

Por enquanto, toda possibilidade de desfile que implique aglomeração está descartada pelos principais blocos da cidade. É o caso do Baianas Ozadas, um dos maiores da capital mineira, que chegou a mobilizar mais de 500 mil pessoas em seu cortejo do ano passado, realizado no Centro de BH. 

“Até por ser um bloco grande, de referência na cidade, temos de compreender que não dá para colocar ninguém em risco. Em um carnaval popular, dependemos de aglomeração. Então não tem como pensar em desfile. O primeiro ponto é esse”, afirma Geo Cardoso, um dos fundadores e responsáveis pelo bloco.

Ele acrescenta: “Não vamos convidar ninguém para correr riscos de morte. Principalmente porque é um bloco aberto, com idosos, gente de todas as idades. É uma questão que colocamos ainda em junho de 2020, quando surgiram os primeiros rumores sobre a pandemia se estender até o carnaval. Nos posicionamos que ‘carnaval carnaval’, com aglomeração, não vai ter, enquanto não tiver vacina e imunidade”. 

Destacando a magnitude do grupo, que só na bateria conta com 100 integrantes, além de ala de dança, produção e equipe técnica, Geo Cardoso afirma que todas as atividades estão paradas. Não há ensaios ou nada que resulte em aglomeração. “Quando Deus quiser e permitir, o carnaval volta com toda força, como foi no fim da Gripe Espanhola (1919), foi uma redenção”, compara.

Contudo, pensando em honrar a história do Baianas Ozadas, que fez seu primeiro desfile em 2012, Geo revela que uma forma de “não deixar passar em branco” tem sido pensada pela produção do bloco. “Carnaval é um calendário, um rito até religioso, que marca o início da quaresma. Temos pensado em como não passar em branco a segunda do Baianas (dia do carnaval em que o bloco tradicionalmente desfila). Talvez uma apresentação só da banda, com possíveis convidados, com transmissão on-line, não sei. Estamos pensando. Certo é que não vai ter aglomeração. Nossa política é consciente e o momento é de preservar vidas e cuidar da saúde de todo mundo.”
 

ENGRENAGEM

O folião lamenta a inviabilidade do carnaval não somente por seu aspecto festivo. “O carnaval é um forte motor da economia de BH. Isso vai se perder. Além dele como festividade, somos uma engrenagem que gera muito emprego indireto. Muita gente precisava disso na pandemia, e não vai ter. Hotelaria, comércio, restaurantes, tudo isso se perde. Talvez seja o fator mais triste, mais que a festa, pensando na nossa responsabilidade“, analisa. 

Sobre a possibilidade de transferir o evento para o meio do ano, levantada em outras capitais do país, o representante do Baianas diz: "Carnaval é fevereiro. Meio do ano é micareta. Para não se perder o fator econômico de um evento que já atingiu R$ 1 bilhão em retorno bruto, para isso pode-se fazer fora de época e dependerá do consenso de vários atores, não só de blocos e escolas, mas do poder público, das autoridades. Mas somos parceiros do carnaval de BH e participaríamos de qualquer construção”.

De acordo com Renata Chamilet, produtora do Chama o Síndico, outro grupo protagonista do carnaval de rua de BH, há um consenso entre os blocos da cidade de que não há nenhuma possibilidade de desfiles por enquanto. 

“Estamos todos sofridos, mas todo mundo pensando em algo para ajudar, fortalecer, dar um alento, uma força e, principalmente, para manter as pessoas em casa. É um consenso entre blocos. Não queremos tirar ninguém de casa para ter uma experiência que não seja boa. Por isso nosso desfile, que era à noite, passou para o dia nos últimos anos, por ser mais seguro para todo mundo. Então partimos do mesmo princípio: ninguém vai tirar alguém de casa para se encontrar e causar um boom de COVID”, afirma.

A pandemia paralisou por completo a agenda do Chama o Síndico, que costumava ser movimentada nos 12 meses do ano. Além do carnaval, o bloco se dedica a shows, participação em eventos e desenvolvimento do projeto sócio-cultural Sindicato Inclusivo, que oferece oficinas musicais para portadores de necessidades especiais. Com a impossibilidade de aglomerações, tudo ficou suspenso. “Estamos todos nesse entendimento de que é uma responsabilidade e um pacto social coletivo”, diz Chamilet, que se mostra ainda mais preocupada com a gravidade da situação sanitária no Brasil. “Estou entendendo que o carnaval, do jeito que a gente conhece, talvez não aconteça mais. Realmente acho que as coisas vão mudar.”

''Não vamos convidar ninguém para correr riscos de morte. Principalmente porque é um bloco aberto, com idosos, gente de todas as idades. %u2018Carnaval carnaval%u2019, com aglomeração, não vai ter, enquanto não tiver vacina e imunidade''

Geo Cardoso,  cofundador do Baianas Ozadas

 

FESTIVAL

A produtora afirma que o grupo está trabalhando na produção de um festival on-line, viabilizado com verbas já captadas via Lei Aldir Blanc, com presença de convidados de outros blocos e de escolas de samba locais, a ser realizado durante as datas oficiais do carnaval.

“Vamos esperar mais uns 15 dias para entender melhor a situação, já que entramos em uma nova onda forte de contaminação. Mas é certo que teremos uma programação com transmissão virtual. Não sabemos se a live será possível, já que ela exige participação de mais pessoas, mas temos muitos materiais pré-gravados e poderíamos fazer de outras formas.”

Segundo Chamilet, “a ideia é entender o carnaval para além do entretenimento. É um movimento para a economia criativa da cidade e precisamos também de movimentar fornecedores e outros envolvidos. São 10 anos dessa retomada do carnaval de BH, então tem história, tem material audiovisual. E o que resta hoje é contar do passado e esperar pelos próximos”.

Ela diz ainda que, “não é hora de flexibilizar. Somos o país do carnaval. Talvez com um ano sem carnaval as pessoas entendam o tamanho do problema que estamos enfrentando”. 

''Estamos todos sofridos, mas todo mundo pensando em algo para ajudar, fortalecer, dar um alento, uma força e, principalmente, para manter as pessoas em casa. É um consenso entre blocos. Não queremos tirar ninguém de casa para ter uma experiência que não seja boa''

Renata Chamilet, produtora do Chama o Síndico


ESCOLAS

No caso das escolas de samba de Belo Horizonte, o carnaval de 2021 seria de grandes expectativas. Com a criação, no ano passado, da Liga das Escolas de Samba de Minas Gerais, o desfile teria a participação de mais quatro agremiações, saltando de oito para 12 neste ano. 

Com uma logística mais complicada, relacionada ao desenvolvimento do enredo e das alegorias, o carnaval de passarela cobra hoje do poder público alguma definição para viabilizar alguma atividade neste ano, mesmo ciente da impossibilidade de qualquer desfile em fevereiro. 

“Estamos fechados no seguinte sentido: a gente tem uma data, que é julho,  de acordo com a TV e com o que foi definido no Rio e em São Paulo. O carnaval de passarela precisa ser mais pragmático e mais planejado, porque tem um edital de patrocínio e um de subsídio, que a prefeitura garante para as escolas. Por isso, é  importante que uma data seja marcada”, diz Márcio Eustáquio, presidente da Liga, que passou a ocupar também a vice-presidência do Sudeste na Fenasamba (Federação Nacional das Escolas de Samba).

“Claro que teremos (o desfile) em julho só com as condições sanitárias ideais, mas é que necessitamos de pelo menos seis meses para desenvolver os desfiles. Os enredos já estão sendo preparados e queremos lançá-los em fevereiro. Por isso planejamos conversar com o prefeito Alexandre Kalil neste mês, para entender como BH pretende definir isso”, afirma Márcio Eustáquio. 

Ele observa que nenhum edital foi lançado pela Belotur destinando recursos às escolas para o carnaval de 2021, o que a Liga julga compreensível. “Entendemos, porque ainda não existe uma data para os desfiles, por causa da pandemia. Por isso sinalizamos essa vontade, para ver se copiamos editais de outras capitais que preveem a execução do carnaval em julho, ou em data com situação sanitária possível. Porque assim poderíamos ter acesso aos recursos e planejar nosso carnaval de passarela, seja lá quando for possível”, argumenta. 

O presidente ainda destaca que o carnaval das escolas de samba ocorre em um único espaço, onde é montado o sambódromo, e não descarta a hipótese de um desfile sem público, apenas com transmissão pela TV ou internet. “Há essa possibilidade. Assim como tem sido feito com o futebol. Também é possível pensar em um modelo de desfile com maior espaçamento entre os integrantes e uso de máscaras”, diz Eustáquio, que manifesta uma preocupação com as comunidades às quais as escolas pertencem. 

“É preciso garantir a sobrevivência das comunidades. Essa grana já tinha que estar na mão. Sabemos que não é má vontade da prefeitura, isso está claro. Mas precisamos de sinalização, todo produtor bem organizado precisa de planejamento. Sabemos da pandemia, da dificuldade, estamos vendo o número de leitos subindo. Sabemos disso, somos da periferia e ninguém na periferia está passando imune, mas precisamos mostrar a luz no fim do túnel, já sinalizada com a chegada da vacina, como foi feito em São Paulo e Rio.”

O poder público municipal, no entanto, não pensa em definições sobre carnaval neste momento. Em nota, a Prefeitura e a Belotur, órgão responsável pelo carnaval em BH, afirmam que, diante dos esforços no combate à COVID-19, a folia segue suspensa e só deverá ser discutida quando a doença for controlada.

“A Prefeitura de Belo Horizonte segue focada nas ações de combate à pandemia e, por meio da Belotur, tem acompanhado e participado de discussões sobre o Carnaval 2021 junto aos principais carnavais do país, como Salvador e Rio de Janeiro. Ainda não há nenhuma definição e o diálogo permanece constante com toda a cadeia produtiva do Carnaval.”

A nota prossegue dizendo que “a decisão de uma nova data depende das condições sanitárias acompanhadas pelo Comitê de Enfrentamento à COVID-19 da Prefeitura, além de medidas que possam garantir a segurança dos foliões. Permanecem suspensas as autorizações para eventos em propriedades particulares e em logradouros públicos, incluindo desfiles de escolas de samba e dos blocos caricatos. Não há qualquer previsão legal para realização de festas em clubes, em casas de festas ou outros espaços e eventos que estão com os alvarás suspensos”. 


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