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Estado de Minas

TUDO MISTURADO

Qual seria a resposta de Guimarães Rosa à polarização? Especialistas na obra do escritor mineiro se debruçam sobre o tema da confluência entre o bem e o mal em sua obra, a partir desta segunda (27). Saiba como acompanhar


27/07/2020 04:00 - atualizado 27/07/2020 10:45


 
Em sua obra prima, Grande sertão: veredas,  Guimarães Rosa escreveu que o “sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar”. Numa época de deslocamentos e encontros comprometidos pela COVID-19, tal ideia encoraja a possibilidade de explorar os entendimentos sobre a literatura do grande escritor mineiro à distância, na 32ª edição da Semana Rosiana, desta vez em formato totalmente virtual. 
 
Habitualmente realizado em Cordisburgo, pelo Museu Casa Guimarães Rosa, neste ano o evento ocupará diversas plataformas e linguagens virtuais, a partir desta segunda-feira (27) até o próximo sábado. 
 
A programação inclui palestras, podcasts, sarau, contação de histórias, música e cinema, com acesso remoto do público. Apesar da diversidade, que procura contemplar a amplitude da obra rosiana, há um recorte temático específico para esta trigésima segunda edição da semana: “O bem e o mal na obra de Guimarães Rosa”.
 

"Essa máxima de tudo 'é e não é' substitui a máxima shakespeariana, que dizia 'ser ou não ser é a questão'. Rosa diz que 'ser e não ser' é a questão"

Márcia Marques de Morais, professora de literatura

 
 
Desde a live de abertura, na noite de hoje, com a palestra  “Algumas estórias sobre o bem e o mal, em Grande sertão: veredas”, da professora Elni Elisa Willms, da Universidade Federal de Mato Grosso, o tema terá várias abordagens.
 
Doutora em educação pela Universidade de São Paulo (USP) e especialista na obra de GuImarães Rosa, a professora afirma que “Guimarães Rosa trabalha o tempo todo com diversos pares que, talvez, pensamos ser contraditórios, como ruim e bom, próximo e distante. Porém, percebemos que ele apresenta essas características humanas não como contraditórias, mas sim complementares”.
Elni aponta o enredo de Grande sertão: veredas, para exemplificar sua observação. “Um bando de homens, atravessando o sertão, passando por muitas dificuldades, como dormir ao relento, passar por comunidades totalmente desassistidas, encontrando personagens marginalizadas, como crianças abandonadas, leprosos, e percebemos atitudes de homens simples, que não são simplórios. Guimarães Rosa verteu para homens simples questões complexas da humanidade”, diz.
 
Na opinião da professora, “o bem e o mal é um tema que nós não acabamos de olhar, de tratar, tocamos em alguns pontos, mas é algo que todos portamos, em nossas atitudes”. Ela destaca que “a literatura não é terapêutica, mas nos coloca em situação de pensar onde estamos, quem somos, o que fazemos, e isso pode nos assistir nesse momento de tantas transformações abruptas de ansiedade e conflito”. 
 
A partir de tal ideia, é possível observar melhor a realidade contemporânea segundo ela. “Nós herdamos da modernidade, principalmente a partir de descobertas na física quântica, nas ciências duras, essa racionalidade dicotômica que separa razão e emoção, bem e mal, certo e errado, como se as coisas fossem contraditórias, binárias, e não é assim. Essa dicotomia tem que ser superada no nosso pensamento e nas nossas atitudes.”
 

"A literatura não é terapêutica, mas nos coloca em situação de pensar onde estamos, quem somos, o que fazemos, e isso pode nos assistir nesse momento de tantas transformações abruptas de ansiedade e conflito"

Elni Elisa Willms, professora de literatura

 
 
Elni Elisa Willms cita uma fala do personagem Jõe Bexiguento para ilustrar esse aspecto. “Então – eu pensei – por que era que eu também não podia ser assim, como o Jõe? Porque, veja o senhor o que eu vi: para o Jõe Bexiguento, no sentir da natureza dele, não reinava mistura nenhuma neste mundo – as coisas eram bem divididas, separadas. – ‘De Deus? Do demo?’ – foi o respondido por ele – ‘Deus a gente respeita, do demônio se esconjura e aparta... Quem é que pode ir divulgar o corisco de raio do borro da chuva, no grosso das nuvens altas?’”
 
PODCAST A importância desse conceito na obra de Guimarães Rosa, sobretudo no Grande sertão, será discutida ainda em uma série de podcasts, lançados a partir de terça-feira (28) no Spotify. 
A edição que irá ao ar na próxima sexta-feira (31) será apresentada por Márcia Marques de Morais, professora de literatura do programa de pós-graduação em letras da PUC-Minas. Especialista no tema, ela mostrará como “essa mistura de categorias, que parecem antagônicas, são o norte, o refrão importantíssimo dentro da obra rosiana”. 
 
A professora também explica a desconstrução das dualidades feitas pelo escritor. “Esse hibridismo, à primeira vista, é paradoxal, mas paradoxos são o que move o mundo da contemporaneidade. Reafirmo que é um bordão que, muito antes de se pensar isso, ele anteviu essa não divisão cartesiana do mundo em categorias distintas e antagônicas. Ele mostra esses hibridismos, mistura estilos, gêneros, erudito e popular, oral e escrito, masculino e feminino, deus e diabo, dramático e lírico. Dentre essas categorias, para qual todas convergem, está o bem e o mal”, explica Márcia Marques de Morais. 
 
A professora ainda ressalta que “essa máxima de tudo é e não é’ substitui a máxima shakespeariana, que dizia ‘ser ou não ser é a questão’. Rosa diz que ‘ser e não ser’ é a questão”. 
 
Um exemplo da ideia, segundo ela, é Diadorim, que carrega a dualidade no nome: “Maria Deodorina significa dada a Deus. Ela morre virgem, sem conhecer o amor em sua resolução carnal. E ela também é Diadorim, do prefixo ‘dia’, de diabo, dúbio, diablo. É Deus e demônio, encarna essas duas figuras”, afirma Márcia.
“O paradigma do Grande sertão é de uma coisa dentro da outra. O bem brota do mal, como o mal brota do bem. Uma coisa não existe sem a outra. Isso aponta para uma matriz filosófica de ordem oriental, sobre a convergência dos contrários”, indica a professora.
 
DIÁLOGO A relação do pensamento rosiano com os dias atuais não escapa à observação da professora. “Esse tempo pandêmico traz uma série de reflexões para a gente. Não que a obra faça pregação dessa união dos contrários, mas, na nossa contemporaneidade, os opostos estão irremediavelmente separados e precisam dialogar para lidar com o paradoxo que é a realidade. A obra rosiana ajuda demais. Sem fazer pregação, pois não há essa função pragmática na literatura, não é uma autoajuda. Porém ela vai se desenvolvendo como narrativa e vai encenando para que o leitor internalize e introjete como as categorias são misturadas e como essa mistura é capaz de fazer a travessia. Quando atravessamos o Grande sertão, nossas dificuldades de radicalismo, de maniqueísmo se arrefecem.”
 
Até mesmo a realização virtual, novidade na Semana Rosiana, guarda esses traços, segundo a professora. “O que era presencial agora é virtual. Temos a presença na ausência e a ausência na presença”, aponta.
 
Embora lamente que o encontro não ocorra em Cordisburgo, como de costume, ela celebra o fato de que pessoas que não poderiam ir à cidade participem, a distância, desta vez, e lembra que até o nome da terra natal de Guimarães Rosa surge da mistura do latim com o alemão. “Metonimiza o pensamento dele ao mundo.”
 
PERFIS Ronaldo Alves de Oliveira, coordenador do Museu Casa Guimarães Rosa, explica que a realização virtual é nova e desafiadora, já que a presença on-line da instituição era tímida até então. Foram criados um perfil no Instagram e um canal no YouTube, que abrigarão parte das transmissões da programação. 
O aplicativo Zoom também será usado em palestras, conversas e no sarau virtual, além do Spotify, que vai veicular podcasts. Sobre a escolha do tema, o diretor diz: “Nossa vida é uma travessia, vivemos esse momento agora, que travessia é essa a partir de março, quando a pandemia chega ao Brasil? Não há uma resposta, mas um questionamento. É um momento de reflexão, temos visto coisas absurdas acontecendo, falta de solidariedade, empatia, amor, isso leva a certos conflitos, certas maldades, mas é possível ver o outro lado também”. 
 
A agenda dos próximos dias inclui participações de outros especialistas na literatura rosiana, em palestras e nos podcasts diários. Também estão previstas narração de Conversa de bois, com Dôra Guimarães e o Grupo Miguilim, exibição de filmes de Anita Leandro e Elisa Almeida, leitura de trechos de Grande sertão: veredas com o ator Odilon Esteves, e uma live musical com o cantor e compositor mineiro Celso Adolfo, apresentando canções de seu álbum Remanso do rio Largo, inspirado nos contos do livro Sagarana. 
 
Além disso, atrações mais interativas, como o Sarau Poético da Academia Cordisburguense de Letras Guimarães Rosa, no qual o público poderá participar como ouvinte ou declamador. A programação pode ser acessada via Facebook (https://www.facebook.com/museucasaguimaraesrosa.mg/), Instagram (https://www.instagram.com/museuguimaraesrosa/) e Youtube (https://bit.ly/museuguimaraesrosa).


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