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Estado de Minas NO STREAMING

Documentário mostra em que Bolsonaro e Collor são iguais

'Não toque em meu companheiro', de Maria Augusta Ramos, mostra como os 'marajás' de Collor nos anos 1990 e os 'parasitas' de Paulo Guedes traduzem uma mesma visão de Estado


22/07/2020 04:00 - atualizado 22/07/2020 16:28

Filmado antes da pandemia do novo coronavírus, filme acabou sendo lançado diretamente nas plataformas de streaming, neste mês(foto: No Foco Filmes/Divulgação)
Filmado antes da pandemia do novo coronavírus, filme acabou sendo lançado diretamente nas plataformas de streaming, neste mês (foto: No Foco Filmes/Divulgação)

 
Entre muitos fatos no recém-redemocratizado Brasil do início dos anos 1990, a  mobilização dos trabalhadores bancários em defesa de 110 funcionários demitidos da Caixa Econômica Federal (CEF) pode não ser o mais lembrado, historicamente. Porém, guarda uma simbologia especial, capaz de chamar a atenção da documentarista Maria Augusta Ramos, que acaba de lançar Não toque em meu companheiro, sobre o episódio. 
 
Já disponível em plataformas de streaming, o longa intitulado com o nome do movimento rememora a ação dos bancários e traça um paralelo entre a política noventista do governo Collor de Mello e as atuais diretrizes da administração brasileira, propondo uma reflexão a respeito do neoliberalismo e seus reflexos nas relações de trabalho. 
 
 O foco principal do filme são os líderes da mobilização ocorrida há quase 30 anos. O documentário reúne parte das 110 pessoas que perderam o emprego no banco estatal, depois de uma greve nacional dos bancários, em reação à política de redução salarial de Collor, implementada em 1991. 
Em todo o país, apenas esses 110 trabalhadores perderam o emprego, mas tiveram seus salários pagos durante um ano pelo restante da categoria, que se organizou e pressionou pela readmissão do grupo. A partir do reencontro deles e dos depoimentos sobre a grandiosa demonstração de solidariedade, o filme contextualiza as narrativas políticas daquela época e amplia a questão para os dias de hoje, entrevistando também atuais funcionários da Caixa.
 
(foto: Rogério Reis/Divulgação)
(foto: Rogério Reis/Divulgação)
 

"Fui descobrindo semelhanças nos discursos de Collor e Bolsonaro, que são governos muito similares em termos de modelo econômico. Eu sabia que existia similaridade, mas algumas coisas são tão parecidas que me surpreenderam e se tornaram elemento importante no filme"

Maria Augusta Ramos, documentarista 

 
 
CONSEQUÊNCIAS “Poucas pessoas conhecem essa história. Quis retratá-la, mas trazendo também para o presente. Então o filme dialoga com passado, presente e futuro, no sentido das consequências que as ações e adoções de algumas medidas econômicas atuais podem ter na sociedade brasileira, na economia, no trabalhador e na condição dele como cidadão. Esse diálogo me interessa muito”, afirma a diretora.
 

"O documentário não quer explicar a realidade, achar uma solução ou simplesmente mostrar uma tese de denúncia ou defesa. A importância do documentário é gerar reflexão. E, nesse sentido, pensar e apresentar várias visões, levantar questionamentos, mostrar dilemas, desafios, para que o público possa inferir, concluir, refletir sobre prós e contras desse modelo econômico neoliberal, o que ele traz de bom e o que traz de não tão bom assim!"

 
 
Maria Augusta entrou em contato com essa história por meio de um amigo que trabalha na Fenae (Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal, fundada em 1971). Ele compartilhou depoimentos com a cineasta e lhe abriu as portas para o trabalho de pesquisa.
 Diretora do premiado O processo (2018), dedicado aos bastidores do impeachment de Dilma Rousseff, Maria Augusta Ramos traz novamente as contradições da política nacional para as cenas. As filmagens incluem relatos dos trabalhadores, trabalhadoras e membros da organização sindical, muitos emocionados e orgulhosos dos resultados daquela mobilização, e imagens de arquivo resgatadas da época. 
 
Estão presentes também propagandas políticas de Collor, além de pronunciamentos do ex-presidente, que, com a promessa de tornar a administração pública federal mais eficiente, mirou nos funcionários públicos de altos salários, aos quais deu o nome de “marajás”.  Pronunciamentos no mesmo tom do atual presidente Jair Bolsonaro e do ministro da Economia, Paulo Guedes, também estão no filme.
    “Sempre digo que o filme é produto dos processos de filmagem, edição e pesquisa. Neste caso, foi uma pesquisa muito intensa nos arquivos do Sindicato dos Bancários e nas imagens de TV da época do Collor. Então fui descobrindo semelhanças nos discursos de Collor e Bolsonaro, que são governos muito similares em termos de modelo econômico. Eu sabia que existia similaridade, mas algumas coisas são tão parecidas que me surpreenderam e se tornaram elemento importante no filme”, observa a diretora. 
 
Ela alerta para os “discursos de ódio em relação aos servidores públicos, na época chamados de marajás e, agora, de parasitas pelo Paulo Guedes”. Na avaliação de Maria Augusta, "em termos de desmonte e destruição das instituições democráticas que nós criamos, se pensarmos em termos de cultura, educação, meio ambiente, economia, não tem como não traçar esse paralelo”.

estado mínimo A edição final do longa inclui a fala de Bolsonaro na Assembleia-Geral da ONU, no ano passado, na qual o presidente brasileiro reforça sua visão de um estado mínimo e privatização de empresas públicas. A ponte com o presente também se faz no encontro de veteranos com uma geração mais jovem de funcionários da CEF, no qual a importância de um banco público é discutida. 
    O tema da conversa é ilustrado por imagens da “agência-barco” do banco federal, que atende populações isoladas no Amazonas, e de um condomínio construído pelo programa Minha Casa Minha Vida, já que o debate aborda a relação entre o lucro e o retorno social das operações da instituição.
 
"Proponho ouvir a história pela boca dos participantes, dos funcionários demitidos, que fizeram parte daquele movimento de luta, que já vinham de uma mobilização a favor das Diretas Já. É uma geração com embasamento político, e eu queria ouvir e documentar essa experiência. Ao mesmo tempo, como no presente tudo isso acontece, ouvi-los sobre esse momento atual, de adoção de medidas neoliberais, onde a história se repete. Então, essa abordagem também da vivência dos funcionários novos, que vêm de um outro momento histórico, nascidos já na democratização, com um outro jeito de pensar, para entender o que esse conflito de gerações significa. Esse novo mundo do trabalho, quais os desafios e perigos de se acreditar e deixar conduzir por um pensamento único de privatizar e desestatizar, acreditando que o mercado vai resolver tudo, nessa desvalorização contínua das empresas públicas", afirma a diretora.
 
Apesar de as filmagens terem sido realizadas antes da pandemia do novo coronavíurs, a situação de emergência imposta pela COVID-19 no Brasil reforça essa discussão, segundo a cineasta. "Agora, com a pandemia, a importância do sistema de saúde pública, dos bancos públicos fica mais evidente, sobretudo dos servidores públicos, dos servidores funerários, de saúde, de transporte. Fica claro que privatizar isso tudo simplesmente geraria o caos e aumentaria uma desigualdade que já é grande."
Não toque em meu companheiro está disponível nas plataformas NetNow, Oi Play, Vivo Play, FilmeFilme e Looke. O filme complementa a filmografia de Maria Augusta Ramos, conhecida por abordar temas sociais a partir da observação das instituições e suas contradições. Foi assim em O processo, exibido no Festival de Berlim e premiado no Festival Visions du Réel, na Suíça, e no Indie Lisboa, em Portugal. Justiça, de 2004, acompanha o desenrolar de cinco processos, sob a perspectiva dos réus, e o dia a dia de três juízes e uma defensora pública do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, destrinchando as estruturas e procedimentos do sistema judicial. O longa ganhou três prêmios internacionais. 
 
 
É TUDO DOCUMENTÁRIO
Confira a filmografia de 
Maria Augusta Ramos
 
2020 - Não toque em meu companheiro 
 
(foto: Vitrine Filmes/Divulgação)
(foto: Vitrine Filmes/Divulgação)
  2018 - O processo 
 
2015 - Seca 
 
(foto: Alex Fernandes/Divulgação)
(foto: Alex Fernandes/Divulgação)
2015 - Futuro junho 
 
2013 - Morro dos Prazeres 
2011 - Onverwacht 
2007 - Juízo 
2004 - Justiça 
2000 - Desi
1997 - Brasília - Um dia em fevereiro


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