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Estado de Minas

Sinfonia do adeus

Músico prodígio que começou a compor aos 6 anos, dono de extraordinária carreira no cinema, autor de mais de 500 músicas, Ennio Morricone se despede da vida aos 91 anos, deixando uma carta de amor à família e aos amigos e uma peça em tributo a vítimas de acidente


postado em 07/07/2020 04:00 / atualizado em 06/07/2020 22:58

O maestro e compositor italiano Ennio Morricone foi internado em Roma, após sofrer uma queda e fraturar o fêmur (foto: Filippo Monteforte/AFP)
O maestro e compositor italiano Ennio Morricone foi internado em Roma, após sofrer uma queda e fraturar o fêmur (foto: Filippo Monteforte/AFP)
Ennio Morricone foi grande até na hora da morte. “Não quero dar trabalho”, foi como o compositor e maestro italiano resumiu sua intenção de não ter um funeral público, num texto de despedida que escreveu de próprio punho.

Morto nesta terça-feira (6), aos 91 anos, ele estava hospitalizado em uma clínica de Roma, após sofrer uma queda na qual fraturou o fêmur. “Ele estava totalmente lúcido e com uma grande dignidade até o último momento”, afirmou o advogado e amigo da família Giorgio Assumma, num comunicado sobre a morte.

Foi também Assumma quem revelou a existência do texto final do maestro, no qual se lê: “Ennio Morricone está morto. Anuncio assim a todos os amigos que estiveram próximos e àqueles um pouco distantes, a quem saúdo com grande afeto. É impossível nomear todos”. O obituário de Il Maestro, como era chamado em sua Itália natal, deverá ser publicado na íntegra hoje nos principais jornais do país europeu. 

No texto, além de citar nominalmente algumas pessoas próximas, Morricone fez uma apaixonada declaração a Maria Travia, sua mulher, com quem permaneceu casado por 64 anos. “A ela, renovo o amor extraordinário que nos manteve juntos e o qual lamento abandonar. A ela, o mais doloroso adeus.” 

FAMÍLIA O casal teve quatro filhos: Marco, Andrea (também compositor e colaborador do pai), Alessandra e Giovanni. Maria, além de ser a primeira a ouvir as composições de Morricone, também colaborou com a letra de alguns temas dos filmes Era uma vez no Oeste (1968), A missão (1986) e Cinema Paradiso (1988).

Morricone já havia feito história no cinema muito antes de a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood reconhecer sua extraordinária carreira com um Oscar honorário, em 2007. O primeiro e único Oscar de melhor trilha sonora (havia sido indicado anteriormente por cinco filmes) ele só veio a receber em 2016, por Os oito odiados, de Quentin Tarantino. 

Naquela ocasião, aos 87 anos,  acabou se tornando o mais velho vencedor da estatueta. “Não há uma grande trilha sonora sem um grande filme que a inspire”, ele disse, ao agradecer Tarantino por tê-lo convidado para o trabalho. O compositor já havia dito não ao cineasta: declinou de fazer a trilha de Bastardos inglórios (2009), mas cedeu algumas músicas a Django livre (2012).

O reconhecimento tardio do Oscar veio quando Morricone já tinha criado praticamente toda a sua obra, que reúne 500 composições para cinema e televisão. Foi adequado vê-lo vencendo pelo filme de Tarantino, pois Os oito odiados está associado ao western, o gênero que foi o marco inicial de sua carreira.

PROFESSOR Nascido em 10 de dezembro de 1928, em Roma, era o primogênito dos cinco filhos de Mario Morricone, trompetista, e Libera Ridolfi. Foi o pai seu primeiro professor. Morricone começou a compor aos 6 anos. Em 1940, entrou para a Academia Nacional de Santa Cecília, onde estudou trompete, composição e direção.

Antes de chegar ao cinema – sua estreia na tela grande foi com O fascista (1961), de Luciano Salce –, ele escreveu músicas para rádio. A fama não demorou a chegar. Antigo colega de escola de Sergio Leone, Morricone já deixou sua marca na trilogia do cineasta italiano estrelada por Clint Eastwood: Por um punhado de dólares (1964), Por uns dólares a mais (1965), e Os bons, os maus e os feios (1966).

No entanto, considerava Por um punhado de dólares o “pior filme de Leone e a pior trilha que já fiz”, segundo afirmou ao jornal britânico The Guardian em 2006. Com Leone na direção, ainda criou mais duas trilhas antológicas: as de Era uma vez no Oeste (1968) e Era uma vez na América (1984).  

A versatilidade da música de Morricone pode ser exemplificada por uma de suas criações mais conhecidas, The ecstasy of gold, música-tema de Os bons, os maus e os feios. A canção já foi utilizada em shows de várias bandas, incluindo Ramones e Metallica.

Ainda que o western seja um divisor de águas na carreira do compositor para o cinema, Morricone trabalhou com um vasto número de diretores e em produções de diferentes gêneros. Os intocáveis (1987), de Brian De Palma, traz um de seus temas mais conhecidos, assim como o drama Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore (outro cineasta com quem o compositor manteve longa parceria), cuja música é facilmente identificável pelo grande público. Foi com o drama histórico A missão (1986), de Roland Joffé, que ele recebeu o primeiro de seus três Globos de Ouro. 

PEDIDOS Ao falar sobre sua versatilidade e a capacidade de trabalhar com o cinema, Morricone afirmou que a liberdade era essencial. “Há diretores que pedem coisas razoáveis e, neste caso, eu os ouço. Mas, depois, coloco a minha assinatura. Essa aceitação dos pedidos dos diretores não é passiva. Não posso trair a minha música.”

Para além do cinema, Morricone escreveu cerca de 100 peças de concerto e orquestrou músicas para Joan Baez, Paul Anka, Zucchero e Andrea Bocelli. Em 2018, fez uma grande turnê de despedida.

Sua derradeira composição, Tante pietre a ricordare (Muitas pedras para lembrar, em tradução livre), foi criada para homenagear as 43 vítimas do desabamento da Ponte Morandi, em Gênova.

Em agosto de 2018, uma parte da ponte, que fica em uma área de muita densidade demográfica, cedeu, matando 43 pessoas. A nova ponte, que vai substituir a original, datada dos anos 1960, está prevista para ser inaugurada no final deste mês. 

A Orquestra do Teatro Carlo Felice, de Gênova, vai executar o tema orquestral de Morricone na noite anterior à inauguração. Com quatro minutos, a música é a última partitura concluída pelo maestro. (Com agências de notícias)

O compositor recebeu um Oscar pelo conjunto da carreira, entregue pelo ator e diretor Clint Eastwood, em 2007, e venceu a estatueta de melhor trilha sonora em 2016 (foto: Gary Hershorn/AFP)
O compositor recebeu um Oscar pelo conjunto da carreira, entregue pelo ator e diretor Clint Eastwood, em 2007, e venceu a estatueta de melhor trilha sonora em 2016 (foto: Gary Hershorn/AFP)


PÉROLAS DO COMPOSITOR
15 trilhas inesquecíveis de Ennio Morricone
1964 – Por um punhado de dólares (Sergio Leone)
1965 – Por uns dólares a mais (Sergio Leone)
1966 – Três homens em conflito (Sergio Leone)
1978 – Cinzas no paraíso (Terrence Malick)
1982 – O enigma de outro mundo (John Carpenter)
1984 – Era uma vez na América (Sergio Leone)
1986 – A missão (Roland Joffé)
1987 – Os intocáveis (Brian De Palma)
1988 – Busca frenética (Roman Polanski)
1989 – Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore)
1991 – Bugsy (Barry Levinson)
1994 – Assédio sexual (Barry Levinson)
2000 – Missão: Marte (Brian De Palma)
2001 – Malena (Giuseppe Tornatore)
2015 – Os oitos odiados (Quentin Tarantino)






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