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Estado de Minas PAI AUSENTE?

'Dads' questiona tabus envolvendo o homem e a paternidade

Filme de Bryce Dallas Howard questiona a forma como TV, cinema e literatura lidam com os homens, geralmente retratados como pais ausentes ou incompetentes


postado em 29/06/2020 04:00

Dads, filme em cartaz na plataforma Apple TV , mostra o dia a dia de pais e filhos dentro de casa(foto: Apple TV /divulgação)
Dads, filme em cartaz na plataforma Apple TV , mostra o dia a dia de pais e filhos dentro de casa (foto: Apple TV /divulgação)


Assim que foi convidada por uma marca de produtos de higiene pessoal para dirigir o documentário Dads (Pais, em português), sobre os desafios da paternidade hoje, Bryce Dallas Howard, mais conhecida como atriz da série Jurassic World e do filme A vila, ficou surpresa com uma informação. “A maior parte dos homens que têm direito à licença-paternidade não usufrui dela, porque pais que cuidam dos filhos são estigmatizados”, diz a diretora. “A imagem é que eles não estão priorizando o trabalho. Isso é absurdo e completamente retrógrado.”

Disponível no serviço de streaming Apple TV+, o documentário quer mostrar que os homens podem e devem participar ativamente na criação dos filhos. “O que não me surpreendeu foi que há toneladas de pais maravilhosos por aí”, diz Bryce Dallas.

O filme entrevista atores e apresentadores, pais famosos. Entre eles, Will Smith, Jimmy Kimmel, Conan O'Brien, Neil Patrick Harris e Jimmy Fallon. “Todos me disseram que nunca responderam a tantas perguntas sobre a paternidade”, conta a diretora. “Achei estranho, pois sempre me perguntam sobre maternidade. Então, como mãe, sou respeitada. Há uma pressão que vem com essa consideração, mas os pais não têm reconhecimento, o que coloca sobre eles toda a pressão para mostrar resultados. Que tal se equilibrássemos um pouco isso?”

A preferência por comediantes se deu porque ela os considera filósofos modernos. “E, claro, eles veem tudo por uma ótica engraçada”, brinca a diretora.

O pai de Bryce Dallas, o ator e diretor Ron Howard, vencedor do Oscar por Uma mente brilhante (2002), relutou um pouco em participar, o que é compreensível, na opinião da filha. “Sempre quis incluir um homem que estava esperando ser pai pela primeira vez para mostrar o antes e o depois. Durante o processo, minha cunhada, mulher do meu irmão Reed, ficou grávida. Isso abriu caminho para a minha família participar, inclusive meu pai.”

Além de depoimentos de Ron Howard e do pai dele, Rance, morto em 2017, há imagens de arquivos da família.
Os verdadeiros astros do documentário são homens comuns de diversas partes do mundo, que Bryce chama de “pais heróis”. Um deles é o carioca Thiago Queiroz, que faz um podcast e tem um canal no YouTube chamado Paizinho, vírgula!.
“Thiago foi um dos últimos que filmamos. Logo na primeira conversa por telefone, fiquei tocada, porque ele estava preocupado que as câmeras pudessem atrapalhar o ritmo da família”, revela Bryce Howard. “Adorei ouvir a mulher dele, Annie, dizer que a licença para os pais precisa existir não apenas para que eles criem laços com os bebês, mas para que sejam parceiros das companheiras num momento de reconstrução da identidade. Achei isso muito bonito.”

Bryce considerou importante incluir no filme pais de diversas origens, culturas, etnias, classes sociais e orientações sexuais, para derrubar mitos associados a esse ou aquele grupo.

O primeiro escolhido foi Glen “Beleaf” Henry, que também é youtuber e fez uma TED talk sobre paternidade. Por sua vez, Robert Selby assumiu parte dos cuidados do filho que tem problemas de saúde, mesmo sem ser casado com a mãe do menino. Ambos são afro-americanos.

O carioca Thiago Queiroz é um %u201Cpai herói'%u201D, afirma a diretora Bryce Dallas Howard(foto: Acervo pessoal)
O carioca Thiago Queiroz é um %u201Cpai herói'%u201D, afirma a diretora Bryce Dallas Howard (foto: Acervo pessoal)


Adoção

O japonês Shuichi Sakuma parou de trabalhar e assumiu o dia a dia com o filho. Já Rob Scheer e seu marido, Reece, falam da experiência de serem pais adotivos de quatro crianças e adolescentes.

Com seu documentário, a diretora espera que homens se deem conta de novas possibilidades, sobretudoo neste período em que muitos deles são obrigados a trabalhar em casa. “É difícil ser algo que não vemos no mundo”, comenta Bryce Howard.

“A maneira como os homens têm sido retratados na TV, no cinema e na literatura é negativa, como pais ausentes, incompetentes. Espero que meu filme os ajude a se sentirem reconhecidos ao ver na tela homens cuidando de seus filhos, seja ensinando a andar de bicicleta, lavando a louça ou fazendo o café da manhã. Espero que aqueles que queiram ser bons pais se enxerguem neste filme e, quem sabe, se sintam inspirados a fazer ainda mais”, conclui.a diretora americana.

  • DADS
  • Documentário de Bryce Dallas Howard
  • 87min
  • Disponível na Apple TV

A jornada dos desesperados


Recursos desumanos foi um infeliz trocadilho escolhido pela Netflix para substituir em português o título original da série francesa Dérapages (Derrapagens), que combina muito mais com a obra. Com apenas seis episódios, esse grito de guerra contra o capitalismo selvagem tem como ator principal uma figura que é a encarnação da rebeldia contra o sistema: o mitológico Eric Cantona.

Para quem não se lembra, em 25 de janeiro de 1995, ele protagonizou, como jogador de futebol, um incidente que ficou marcado na história da Premier League inglesa. Expulso no empate por 1 a 1 entre Crystal Palace e Manchester United, o atacante francês Eric Cantona, considerado um dos melhores jogadores da história do Manchester, reagiu à provocação de um torcedor xenófobo, correu até as arquibancadas e deu uma voadora no sujeito, um jovem hooligan fascista.
Se não fosse pelo pavio curto e o gosto por brigas, Cantona poderia ser considerado um Doutor Sócrates britânico.

Pensador de esquerda inquieto, era um monstro em campo, idolatrado pela torcida e leal ao seu time. O craque, porém, se aposentou cedo e, para espanto dos fãs, tornou-se ator de primeira linha.

Em Recursos desumanos, Cantona está no centro de uma história baseada em fatos reais que parece um filme de Ken Loach – o diretor que, em 2009, produziu o longa À procura de Eric, no qual o ex-jogador interpreta a si mesmo.

Cadeia

A narrativa começa na prisão, com o protagonista relembrando os fatos que o levaram até lá. Alain é um homem de 55 anos que está desempregado há seis e vê as contas se acumularem. Ele foi demitido após 25 anos como chefe de RH de uma empresa. Com o seguro-desemprego chegando ao fim, Alain passa a fazer bicos e ser humilhado em serviços braçais. A pobreza bate à porta.

Amargurado, deprimido, rancoroso e revoltado, vê a decadência social como irreversível para pessoas de sua idade. Não há espaço para velhos no mercado de trabalho. Os primeiros três episódios mergulham fundo na construção do personagem e seu entorno: a mulher (30 anos de matrimônio), os filhos, os colegas de trabalho. A salvação surge na forma do inusitado convite para disputar a vaga de alto escalão de uma multinacional francesa em crise.

A missão do escolhido como gerente será demitir mais 1 mil pessoas de uma unidade da empresa que passa por acelerado processo de automatização. O local é um barril de pólvora. Os operários estão mobilizados, fechados com o sindicato da categoria. A comunidade local vive em pé de guerra com a empresa. O cenário é descrito como “brutal e extremo”.

EXPLORAÇÃO

A série retrata o mundo corporativo como ambiente cínico, desumano, frio e sádico. Os discursos motivacionais escondem as verdadeiras intenções de exploração total em busca do lucro. As verdadeiras intenções estão nas entrelinhas do discurso liberal embalado a vácuo.

Eric Cantona faz o papel de Alain, ex-chefe de RH que vai parar no presídio(foto: Netflix/divulgação)
Eric Cantona faz o papel de Alain, ex-chefe de RH que vai parar no presídio (foto: Netflix/divulgação)


Do terceiro episódio em diante, a série ganha outra dinâmica, com mais ação e violência. E um certo gosto de vingança da classe operária.

O gancho é o método sui generis escolhido pelo CEO da multinacional para testar os candidatos e escolher aquele que melhor se comportar num ambiente de extrema pressão: a simulação de um sequestro e a consequente negociação com os reféns.

  • RECURSOS DESUMANOS
  • Série com seis episódios
  • Primeira temporada
  • Direção: Ziad Doueiri
  • Disponível na Netflix

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