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Estado de Minas SÓ TOCA PORCARIA

'Ditadura não explicitada' veta música boa, diz crítico

Jornalista e pesquisador musical Tárik de Souza analisa o cenário da produção e difusão da música e classifica as 'lives' como uma 'saída improvisada' para o impasse dos artistas na pandemia


postado em 28/06/2020 04:00 / atualizado em 26/06/2020 19:54


Primeira das manifestações artísticas a reagir ao período de confinamento em decorrência da pandemia do novo coronavírus, a música – via streaming, claro – vai bem, obrigada. Pelo menos se olharmos sob o prisma das lives. Dos grandes aos pequenos, com patrocínio ou não, todos têm marcado presença na tela do computador, seja via rede social ou plataformas de vídeo e música.

Qual é o futuro da música? O que o período de isolamento social tem ensinado aos artistas e ao público? E a criação musical, autoral? Resistirá aos novos tempos, que se anunciam sombrios? Como será o “ao vivo”, com aglomeração, suor e cerveja? Por que a música original não chega às paradas de sucesso?

Um dos mais respeitados jornalistas e críticos musicais do país, o carioca Tárik de Souza, de 73 anos, não tem todas as respostas. Mas, com mais de meio século dedicado à cobertura e à pesquisa musical – sua atuação se estende pela imprensa escrita, rádio, TV, cinema e literatura –, ele sabe como são os caminhos e, principalmente, quais são as pedras que estão no meio deles. “Não se permite que nada um pouco menos banal sequer seja apresentado, irradiado ou difundido”, afirma, na entrevista a seguir ao Estado de Minas.

Gilberto Gil classifica a produção musical atual como “varejo musical”, em que canções são vendidas “a granel”. As plataformas de streaming transformaram, irreversivelmente, o mercado. Vivemos na era do varejão?
A música de qualidade e substância continua sendo produzida. Só que os canais de escoamento foram pulverizados pela tecnologia. Como muito bem disse o Gil, as canções passaram a ser vendidas a granel, a preço de banana podre, de xepa de feira. Imagine pagar algumas dezenas de reais por milhares de músicas! O direito autoral foi aviltado. Em recente entrevista ao jornalista Carlos Calado, a refinada cantora Luciana Souza, filha do casal de compositores Walter Santos e Tereza Souza, radicada há anos nos EUA, queixou-se de receber em média
US$ 38 mensais em direitos, apesar de ter um bom nível de acessos, cerca de 50 mil. “Se eu ganhasse um centavo de dólar por cada stream (audição de uma música por mais de 30 segundos), receberia US$ 5 mil por mês, o que já me ajudaria bastante”, admitiu ela. As grandes corporações financeiras que sucederam às gravadoras musicais vendem a preços estratosféricos seus preciosos acervos, acumulados durante anos, para as plataformas digitais, e distribuem migalhas aos artistas. Os produtores de conteúdo, de uma maneira geral, foram miseravelmente lesados nesta era tecnológica.

No cenário do streaming, você vê sentido no lançamento de um álbum nos padrões convencionais: 12 músicas, encarte, conceito?
Vejo sim, porque não há outra saída. Houve uma campanha maciça de desmoralização do formato CD e hoje é cada vez mais difícil encontrar aparelhagem para ouvir estes discos. Tal disrupção provocou em reação a volta do vinil, como nicho, fetiche. Muitos artistas estão lançando LPs novos no antigo formato, para quem curte um som de maior qualidade, além das capas, encartes, selos e demais informações a respeito do que se está ouvindo. Para o público em geral, parece não haver outra saída a não ser o streaming. É a ditadura da obsolescência. Por outro lado, o artista tem todo o direito de se comunicar com seu público através de um enunciado completo, conceitual. Quem preferir lançar single a single (como era no tempo antiquíssimo do 78 rotações), claro que o fará.

Até três meses atrás, mal se falava em lives musicais. Hoje elas estão em todo lugar. Acredita que desse formato pode vir algo permanente (como um show derivado) ou ele só serve para o consumo instantâneo? As lives são os novos programas de auditório?
As lives são uma saída improvisada para o impasse da separação dos artistas de suas plateias. Aos poucos, elas serão aperfeiçoadas, até que os shows ao vivo possam ser retomados. Vale lembrar que o aviltamento do direito autoral do disco no streaming reservou para a subsistência do artista quase apenas a opção das apresentações ao vivo. Os compositores que não são performers foram ainda mais prejudicados. É difícil fazer um programa de auditório só por interação. Sem aglomeração, não rola.

Neste período você chegou a assistir a alguma live que destaque? O que vê de positivo no fenômeno para além do puro entretenimento em uma situação de isolamento social?
Vi aquela famosa live internacional da Lady Gaga, juntando artistas do mundo inteiro, num dia de apresentações e recados sociais e sanitários. Fiquei perplexo de não ter um único artista brasileiro, apesar da relevância que a nossa música já ocupou no planeta. Daqui, gostei das lives das cantoras Teresa Cristina e Mônica Salmaso. Acho que elas conseguiram humanizar e dar algum profissionalismo e artesania ao formato ainda precário.

Muitos grandes artistas se renderam ao formato das lives patrocinadas por grandes empresas (cerveja, vestuário, tecnologia, drogaria etc). Obviamente, é o caminho encontrado para o setor sobreviver nesse período sem apresentações ao vivo. Dá para fazer boa música em meio a um cenário de sobreposição de marcas na tela do computador? 
Alguém tem que pagar pela arte, e lembremos que os festivais de música têm várias marcas patrocinadoras, os programas musicais de TV têm intervalos com anúncios etc. Vivemos num regime capitalista. O importante é a maneira como cada artista lida com isso. Alguns têm seus trabalhos dirigidos para o francamente comercial, portanto, não faz muita diferença.

''O mercado musical certamente sobreviverá via streaming e, quem sabe, também a uma volta ao consumo de discos %u2013 gravados sob padrões sanitários rigorosos e entregues via delivery. Também há os podcasts, a nova cara do velho rádio, os shows de artistas solo televisados com patrocínio etc. O problema é saber qual será a devastação que a peste provocará na economia. Ainda haverá um público significativo com dinheiro para gastar em cultura?''

Tárik de Souza, jornalista e pesquisador musical



Neste momento, você consegue imaginar como o mercado musical sobreviverá à pandemia?
Infelizmente, a peste está ganhando de goleada e a ciência está ainda às escuras. O episódio semelhante de um século atrás deixou 50 milhões de mortos e poucas lições aprendidas. O mercado musical certamente sobreviverá via streaming e, quem sabe, também a uma volta ao consumo de discos – gravados sob padrões sanitários rigorosos e entregues via delivery. Também há os podcasts, a nova cara do velho rádio, os shows de artistas solo televisados com patrocínio etc. O problema é saber qual será a devastação que a peste provocará na economia. Ainda haverá um público significativo com dinheiro para gastar em cultura?

Por que estilos diluidores (do samba, do sertanejo) figuram hoje entre os maiorais da música brasileira?
Há uma ditadura não explicitada nos meios de comunicação, pior que a censura do período da ditadura militar. Não se permite que nada um pouco menos banal sequer seja apresentado, irradiado ou difundido. A MPB sobrevive apenas em lugares alternativos. Para dar alguns exemplos, o Circo Voador e a Fundição Progresso (no Rio), os circuitos do Sesc (principalmente em São Paulo), patrocínios da Natura, Itaú Cultural etc. O que não é diluição não passa na peneira dos que decidem o que será sucesso.

Qual o caminho para os grandes da música brasileira alcançarem um novo público? É se unir aos jovens, como vêm fazendo Gil e Milton, por exemplo?
A aliança com os jovens sempre é importante, mas não sei se é eficaz. O que a juventude de massa ouve hoje é outro tipo de música. Esses grandes se tornaram grandes porque as músicas deles eram veiculadas na mídia, em democrática convivência com os artistas populistas.

Com os movimentos antirracistas ecoando em todo o mundo, pergunto: a música brasileira (ainda) é racista?
Como no futebol, ela é mais racista em sua cúpula dirigente – dos chefões que fazem as coisas acontecerem. Milton Nascimento, por exemplo, conta que não podia entrar no clube da cidade onde foi criado, Três Pontas, porque não era permitida e entrada de negros. Os brancos da turma, como Wagner Tiso, tinham que ficar “irradiando” para ele o que acontecia de música lá dentro.

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