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Astros latinos protagonizam longa da Netflix sobre espiões cubanos

Wagner Moura e Gael Garcia estão no elenco de 'Wasp network - Prisioneiros da Guerra Fria', que será lançado nesta sexta (19). Trama é baseada em livro de Fernando Morais


postado em 17/06/2020 04:00 / atualizado em 17/06/2020 07:35

O brasileiro Wagner Moura volta a formar um casal na tela com Ana de Armas. Ele interpreta o cubano que se arrepende da ação(foto: Fotos: NETFLIX/DIVULGAÇÃO )
O brasileiro Wagner Moura volta a formar um casal na tela com Ana de Armas. Ele interpreta o cubano que se arrepende da ação (foto: Fotos: NETFLIX/DIVULGAÇÃO )
No início dos anos 1990, o piloto cubano René González se despede da mulher e da filha para mais um dia de trabalho. Mas aquele não foi um dia igual aos outros. René desertou. A bordo de um pequeno avião, deixou Havana e desembarcou em Miami. Resolveu deixar para trás o regime de Fidel Castro, que naquele momento sofria o impacto da dissolução da União Soviética. René virou um traidor da pátria, inclusive para a própria família. Só que a história não era bem essa, o tempo veio mostrar.

Wasp network – Prisioneiros da Guerra Fria, que estreia nesta sexta-feira (19) na Netflix, é um filme dirigido pelo francês Olivier Assayas (Acima das nuvens, Personal shopper) coproduzido pela brasileira RT Features. Traz um elenco de latinos consagrados ou em ascensão no cenário internacional: o mexicano Gael García Bernal, a espanhola Penélope Cruz, o brasileiro Wagner Moura, o venezuelano Edgar Ramírez, o argentino Leonardo Sbaraglia e a cubana Ana de Armas.

A partir da deserção de René González (Edgar Ramírez), o filme acompanha a trajetória dos integrantes da Rede Vespa, agentes da inteligência cubana que atuaram, infiltrados, em associações anticastristas fundadas nos EUA – eram 47 ao todo. Na época, tais formações, criadas por dissidentes contrários ao regime de Fidel Castro, eram responsáveis por atos terroristas cometidos em nome da contrarrevolução ao regime comunista. Os agentes se infiltravam para tentar contê-los.

O mexicano Gael García Bernal faz o papel do líder dos cinco agentes, que acabaram sendo detidos
O mexicano Gael García Bernal faz o papel do líder dos cinco agentes, que acabaram sendo detidos
CONDENAÇÃO 

René é um dos Cinco Cubanos, como ficou conhecido o quinteto de agentes presos em 1998 em Miami e indiciados por vários crimes. Condenados, os integrantes da Rede Vespa (que totalizava 12 agentes homens e duas mulheres) cumpriram longas penas.

Wasp network nasceu do livro Os últimos soldados da Guerra Fria (Companhia das Letras, 2011), do escritor e jornalista mineiro Fernando Morais, que revelou essa história quando nem todos haviam deixado a prisão. Na vida real, os espiões cubanos não tinham nada de James Bond – viviam com dificuldades, como tantos imigrantes latinos.

A força da história de espionagem se desvanece no drama pessoal dos personagens e em um roteiro confuso. O diretor criou três núcleos dramáticos. O principal é o de René e sua mulher, Olga (Penélope Cruz). Wagner Moura e Ana de Armas voltam a viver um casal, como no recente Sergio, sobre o diplomata Sérgio Vieira de Mello.

Aqui, o brasileiro interpreta Juan Pablo Roque, espião que se arrepende e volta para Cuba. Ana de Armas é Ana Margarita, a mulher com quem ele se casa em Miami. Gael García Bernal vive Gerardo Hernández, o chefe da Rede.

Os últimos soldados da Guerra Fria é o mais recente livro de Fernando Morais, que na última década vem se dedicando a um livro sobre o ex-presidente Lula. É também seu quarto livro-reportagem adaptado para o cinema – os anteriores foram Olga (1985), Chatô, o rei do Brasil (1994) e Corações sujos (2000).
A espanhola Penélope Cruz vive Olga, mulher do piloto que sai de casa para o que seria um voo regular e não volta
A espanhola Penélope Cruz vive Olga, mulher do piloto que sai de casa para o que seria um voo regular e não volta


WASP NETWORK – PRISIONEIROS DA GUERRA FRIA
De Olivier Assayas. Com Gael Garcia Bernal, Wagner Moura, Penélope Cruz, 
Ana de Armas e Edgar Ramírez.  O filme estreia nesta sexta (19), na Netflix.

O venezuelano Edgar Ramirez é René González, protagonista da versão cinematográfica da história
O venezuelano Edgar Ramirez é René González, protagonista da versão cinematográfica da história

Cinco perguntas para...

Fernando Morais
autor de Os últimos soldados da Guerra Fria

Qual o sentimento que você tem quando vê um livro seu gerar um filme?

Há muito tempo, fazendo uma entrevista com o Jorge Amado, perguntei isso a ele. Ele me disse que o conselho que dava a autores que tivessem vendido seu livro para o cinema, teatro ou TV era não assistir. Que o seu livro é o seu livro, e a adaptação é outra coisa. Lembro-me de um episódio com a Rachel de Queiroz quando a TV Globo adaptou Memorial da Maria Moura. Ela detestou a minissérie, reclamou com o Roberto Marinho e acabaram mudando os créditos de adaptação para “inspirado no livro”. Digo isso porque, no meu caso, a história é um pouco mais complicada. Escrevo sobre histórias reais, em que a chamada liberdade da dramaturgia é bem menor. Autor de livro não é roteirista nem diretor. Respeitando o rigor da história, o resto é liberdade dramatúrgica.

O que você achou de Wasp network – Prisioneiros da Guerra Fria?

Gostei do filme, já gostava do diretor, dos trabalhos anteriores dele, especialmente da (minissérie) Carlos, o Chacal (2010). Quando o livro foi vendido, imaginei que quem fosse roteirizar iria padecer da mesma dificuldade que eu quando o escrevi. O ideal seria você manter o segredo, mostrar que os personagens não eram traidores, eram infiltrados, até o fim do filme. Mas essa é uma dificuldade da vida real. Eles são presos no meio da história, o que te impede de conduzir o suspense até o fim. Quando escrevi o livro, apanhei muito para resolver isso. Depois, vi que ele (Olivier Assayas) também apanhou, teve que fazer uma mudança. Muita gente que assistiu ao filme (exibido no Brasil no ano passado, na Mostra de São Paulo e no Festival do Rio) não percebeu o cavalo de pau. Mas achei que o filme foi razoavelmente fiel à história real.

Como você chegou à história da Rede Vespa?

No dia em que eles foram presos, estava num táxi, quando ouvi no rádio a história. Pensei que daria uma matéria, não imaginava que fosse um livro. Na primeira oportunidade em que fui a Cuba, procurei alguns amigos e me falaram para nem pensar no assunto. Só descobri que eles estavam protegendo outros agentes que continuavam camuflados em outros lugares. Isso levou quatro, cinco anos. Em 2005, quando eu estava na Feira de Livros de Havana, um coronel do serviço de inteligência me ligou dizendo que aquele negócio que eu estava querendo tinha sido liberado. Entregaram-me o material, fui para a Flórida, México, Nova York, acompanhei o julgamento em Miami. Em Havana, eu ia para a casa das mulheres deles e aproveitava carona nos telefonemas semanais para fazer entrevista.

Com o governo Trump houve um retrocesso nas relações entre Cuba e os EUA. Como você vê o país hoje?

O acordo assinado entre o Raúl Castro e Obama trocou os quatro (integrantes da Rede Vespa que permaneciam) presos por um gringo que estava preso em Havana. Na verdade, a única mudança significativa foi o restabelecimento formal das relações diplomáticas e a criação de embaixadas entre os dois países. Não se fechou Guantánamo, não acabou o bloqueio econômico, apenas se criou uma série de pequenas facilidades como, por exemplo, voos comerciais entre os dois países. Trump voltou atrás nessas flexibilizações, do acordo entre Raúl e Obama só ficaram as embaixadas. Mas os cubanos estão sobrevivendo e resistindo há 60 anos. Já enterraram oito presidentes americanos, podem enterrar mais oito.

Em que pé está o livro sobre o ex-presidente Lula?

Vai ser um livro em dois tomos. Se não fosse a pandemia, talvez já tivesse terminado o primeiro (a obra será publicada pela Companhia das Letras no Brasil e pela Penguin nos EUA e no Reino Unido). Comecei o livro quando Lula deixou a Presidência, em agosto de 2011. Em outubro, ele descobriu o câncer, e como era na garganta, e eu precisava do depoimento dele, só voltamos a trabalhar no livro em julho de 2012. Quando ele voltou à ativa, grudei nele. Descobri que ele fazia palestras no mundo inteiro e um dos melhores lugares para tomar depoimento era em avião, pois não tinha secretária, visita de senador, deputado. Às vezes, ele pegava um voo para Nova Délhi e como ele dorme pouco em avião, eram 23 horas de entrevista na ida e 23 na volta. Fui a mais de 10 países com ele. No período em que ele esteve preso, fui algumas vezes a Curitiba. Mas, para não tomar lugar de parentes nem de contatos políticos, eu fazia uma lista de perguntas e passava para o advogado dele. Ele respondia manuscrito nas costas dos papéis em que eu mandava minhas dúvidas. Tenho uma pilha de manuscritos dele.


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