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Estado de Minas LITERATURA

O corpo interminável mergulha nos porões da história brasileira

Novo romance de Claudia Lage retrata a trajetória de guerrilheira durante a ditadura militar a partir da busca


postado em 14/06/2020 04:00

No romance O corpo interminável, Claudia Lage explora o universo de uma guerrilheira na ditadura militar(foto: João Cotta/divulgação)
No romance O corpo interminável, Claudia Lage explora o universo de uma guerrilheira na ditadura militar (foto: João Cotta/divulgação)


A escritora Claudia Lage sempre se incomodou com um certo silêncio com relação à época da ditadura militar brasileira. Desse incômodo nasceu o romance O corpo interminável, que acompanha um casal de jovens em uma trajetória de redescoberta de suas histórias familiares.

Claudia conta que começou a desenhar O corpo interminável quando se deu conta de que conhecia pessoas que haviam participado da guerrilha nos anos 1960, mas que nunca haviam falado sobre o assunto. “Para mim, foi assustador. É como se estivessem abafando a própria história pessoal, além da história do país”, diz. “É um assunto que sempre me incomodou, esse silêncio sobre essa época da nossa história. Minha geração sempre teve um desconhecimento muito grande, embora fosse uma geração de filhos da ditadura”.

Um dia, ela se deparou com uma foto de uma guerrilheira morta divulgada pela Comissão da Verdade. A imagem não saiu da cabeça e o romance começou a tomar forma. No livro, um rapaz vai em busca da história da própria mãe, que ele não conheceu, e se depara com a história do país. “Achei que podia ser uma metáfora para esse patriarcado que tem de se deslocar um pouco. As histórias das mulheres foram surgindo, das guerrilheiras que foram silenciadas e que sofreram duplamente nas torturas, que eram muito xingadas pela condição de serem mulheres”, conta.

“A repressão foi muito dura com elas porque era uma transgressão que ia além da política, era existencial. Quando chegavam à sala da tortura eram questionadas: por que não estavam em casa, cuidando dos filhos, por que não tinham se casado?”. À medida que Daniel, o personagem, descobre a trajetória dessas mulheres, ele vai mergulhando num período difícil da história brasileira.

De certa forma, O corpo interminável também fala de um Brasil contemporâneo e de como o desconhecimento histórico pode levar um país a repetir o passado. “Pra mim, tudo ocorreu quando a gente começou a perceber que grande parte da população não conhecia nossa história e por isso embarcou nessa onda maluca conservadora. A gente percebeu que tem um buraco. O 'buraco da Alice', um lugar no qual a gente acaba caindo. Se a gente não consegue enxergar nossa história, não consegue ter o mínimo de consciência”, avalia Claudia, que é também roteirista e criou, em 2012, com João Ximenes Braga, a novela histórica Lado a lado.

O CORPO INTERMINÁVEL
  • De Claudia Lage
  • Record
  • 194 páginas
  • R$ 54,90


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