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Estado de Minas MÚSICA

João Bosco fala da perda de Aldir Blanc: 'É muito difícil sem ele'

Compositor diz que está 'meio perdido' sem o parceiro 'de 50 anos', preocupa-se com a sobrevivência dos músicos durante a pandemia e diz que cantar diante do celular em lives é 'brochante'


postado em 31/05/2020 04:00

(foto: Marcos Hermes/Divulgação)
(foto: Marcos Hermes/Divulgação)

“A ficha ainda não caiu, estou meio perdido”, diz João Bosco a respeito do parceiro Aldir Blanc, que morreu no início de maio, vítima da COVID-19. A amizade de 50 anos foi interrompida, mas a vida segue. E o mineiro lança o disco Abricó-de-macaco (Som Livre/MP,B). Das 16 canções, duas são inéditas – a faixa-título e Horda, compostas em parceria com o filho, Francisco Bosco. De Aldir, estão lá releituras de Profissionalismo é isso aí e Nação, esta em pot-pourri com Cordeiro de Nanã, de Mateus Aleluia e Dadinho, do grupo Os Tincoãs.

“O disco tem uma música que compus com meu filho, um samba muito similar aos que fiz com Aldir, como Linha de passe, por exemplo. Sambas que não têm, necessariamente, a primeira e a segunda parte. É como uma linha de carretel. Você vai puxando a linha e quanto mais puxa, mais samba vem”, diz João a respeito de Abricó-de-macaco. O título remete à árvore com belos frutos encontrada na Amazônia e também em praças cariocas.

Nesta entrevista, o mineiro fala de música, da ausência do parceiro e da importância da aprovação, pela Câmara dos Deputados, do projeto de lei batizado com o nome de Aldir Blanc, prevendo R$ 3 bilhões para o pagamento de renda mensal a trabalhadores da cultura, manutenção de espaços artísticos e ações que ajudem o setor a enfrentar a pandemia. Agora o projeto segue para o Senado e, posteriomente, para sanção ou veto do presidente da República. 

Como é seguir em frente sem o parceiro Aldir Blanc?

Para mim, ainda não aconteceu, a ficha ainda não caiu, estou meio perdido. É muito difícil sem ele. Por outro lado, qualquer isolamento que não seja voluntário é muito difícil. Somos um país hospitaleiro, gostamos de abraçar, de dar dois beijinhos, de falar abraçado com a pessoa. Temos um afeto muito extrapolado. Agora você não pode ver uma pessoa, ninguém. Não pode sair, estar perto de alguém, apertar a mão e conversar. Fica difícil. Esse isolamento é terrível. É preciso tomar muito cuidado com ele, porque mexe com o interior da gente. As pessoas têm de ficar atentas, pois é um momento que nunca experimentamos. Temos de ficar atentos para não adoecer por causa disso. Além do fato de ser um vírus novo, a gente vai aprendendo sobre ele à medida que ele vai ceifando vidas.

Qual de suas canções com o Aldir foi a mais difícil de fazer? Qual delas é a sua preferida? 

Todas. Essa parceria sempre foi dinâmica, não me lembro de nenhuma em que ficamos engasgados, procurando uma solução. Foi uma parceria que nasceu para dar certo. Tínhamos muita afinidade, um adivinhava o outro. Fizemos isso diversas vezes – um perceber o outro. Há um samba naquele disco Não vou pro céu, mas já não vivo no chão, chamado Sonho de caramujo, em que fiz a música e ele a letra. O Aldir fez assim: metade era ele e a outra metade eu. É um samba que fala de nós dois. Ele falava dele, equando era eu que teria de falar, ele falava por mim, porque sabia quem eu era, o que eu pensava. Aldir começou o samba assim: “Nem menino eu era garotinho/ Vivia adulto sozinho/ Nunca fui aonde eu ia/ Andava em má companhia/ Entrava no livro que lia e fugia”. Ou seja, ele sempre fez isso, sempre entrou nos livros e se tornou personagem deles. As letras do Aldir sempre foram assim. Sempre entrava no livro e sumia lá dentro, misturando-se com os personagens. Até me lembro de Monteiro Lobato, quando fizemos Visconde de Sabugosa (para a trilha da primeira versão de Sítio do Picapau Amarelo, da Globo, série que estreou em 1977). A gente se transformou no próprio personagem. Na segunda parte do samba de Não vou pro céu, ele fala de mim: “Cumpri o astral de caramujo musical/ Hoje eu gripo ou canto/ Não vou pro céu, mas já não vivo no chão/ Eu moro dentro da casca do meu violão”. Falava isso porque eu vivia gripado. Certa vez, fui a um clínico, que me falou: “Cara, tem que ter 40 unidades de vitamina D no organismo e você tem duas. É por isso que você vive gripando”. O Aldir botou isso no samba. Dá pra ver que são duas pessoas que se conhecem profundamente.

Por que a parceria de vocês deu tão certo?

É uma coisa muito interessante, porque ele nasceu no Rio de Janeiro, no Bairro do Estácio, e eu na Zona da Mata mineira, em Ponte Nova, mas morei muitos anos em Ouro Preto. Nasci barroco e ele era um cara do samba. Juntou as duas coisas. Como conhecíamos muito o mundo do outro, nos complementamos de uma forma impressionante. Como é que se explica um sujeito barroco encontrar um cara do Estácio e fazer uma parceria de 50 anos? É empatia mesmo.

Você tem ideia de quantas canções João e Aldir fizeram?

Não, mesmo porque há aquelas que nem chegaram a ser gravadas. E o legal é que todas as nossas parcerias se tornaram sucessos, clássicos. Costumo dizer: é coisa de Minas Gerais. A música de Minas, para mim, é a que tem tudo, até coisas que as outras não têm. Por exemplo: (a música mineira) tem um silêncio dentro dela, aquele silêncio que atordoa. Isso é uma coisa de Minas. Interna, silenciosa, que sai de uma profundidade que só o mineiro entende. A característica da música de Minas é ser muito rica. E o Aldir, na percepção dele, tinha essa dimensão, pois conhecia essa sonoridade toda, que vinha dos livros que lia. Quando me viu fazendo uma música como Agnus dei, ele trocou o nome para Agnus sei. Começa dizendo: “Faces sob o sol, os olhos na cruz”. Quer dizer, um cara do Estácio. É um dom mesmo. Ele me deu letras, como as de Caça à raposa, O caçador de Esmeralda, Cabaré, Navalha, Sonho de caramujo... Nessa última, ele me deu aquele texto falando de mim, que musiquei. Musicava as coisas dele como se fosse ele, como ele gostaria. Como é o caso de Me dá a penúltima: “Eu gosto quando alvorece/ Porque parece que está anoitecendo”, aquela coisa de boemia. Musicava do jeito que ele queria. E ele letrava as minhas coisas do jeito que eu gostaria, como se fosse eu mesmo. Ele era ele. Eu era ele. E ele era eu. As próprias músicas estão aí pra dizer isso.

Como vocês se conheceram?

O nosso encontro foi em Ouro Preto, em 1969. Eu tocava em alguns bares lá. Tinha um quarteto com colegas de escola, estudava engenharia civil. Depois do show, ficava tocando e cantando sozinho, tomando a minha cervejinha. Certo dia, um amigo do Aldir entrou no bar. Ficou sentado perto de mim, me ouvindo. Já tinha feito Agnus sei e Bala com bala. Aí, o cara chegou e disse: “Moro no Rio e sou muito amigo de um letrista. Estou ouvindo você, essas músicas são suas. Acho que esse amigo vai adorar botar umas letras aí pra você. Você gostaria de conhecê-lo?”. “Claro”, respondi, “mas não tenho nenhum projeto para ir até o Rio”. Passados uns 15 dias, eles apareceram lá em Ouro Preto em uma Kombi. Era uma turma grande, inclusive esse rapaz, que se chamava Pedro Lourenço. Foi ele quem me apresentou ao Aldir. Depois daquele dia, Aldir foi comigo para Ponte Nova e passamos o dia lá. E o Lourenço disse pra mim: “Mostra pra ele aquelas músicas que você me mostrou”. Mostrei Agnus sei e Bala com bala, e ele gravou. Voltou para o Rio e mandou as letras por carta, dias depois. Aí nasceu a parceria, já em 1970. Foram 50 anos. Tínhamos a mesma idade, somos de 1946 – ele de setembro e eu de julho.

A COVID-19 levou o Aldir. A pandemia castiga os artistas, impedidos de trabalhar. Não se sabe quando shows serão liberados.

Está difícil para todos. Inclusive, é muito importante a aprovação da lei complementar de ajuda aos músicos, que estão com necessidades, inclusive de coisas vitais. Deram o nome de Aldir Blanc à lei, o que é muito legal. A classe artística foi afetada diretamente, ela é um espelho da realidade brasileira. No Brasil, 70% da população têm dificuldade de fazer o isolamento, não têm onde se isolar. Moram quatro ou cinco pessoas no mesmo cômodo, muitas sem o mínimo de condição higiênica, sem água. Essa é a realidade. A classe musical não é diferente disso. Há músicos que têm família e não conseguem ganhar o suficiente para pagar as próprias despesas. Tenho um amigo violonista que colocou o instrumento à venda. Aí, os amigos ficaram chocados e resolveram ajudá-lo. Com isso, ele não vendeu sua ferramenta de trabalho. Estamos vivendo essa situação... Aproveito este momento para rever algumas coisas que eu e Aldir fizemos, para ficar próximo dele e para compor também. Fico me lembrando dele, de nós. É uma maneira de trazer a pessoa para perto, de continuar a conversa com ela.

O que você acha das lives, shows ao vivo na internet que se tornaram febre nestes tempos de isolamento social?

Live é complicado, uma vez que também é fruto do isolamento. Cantar para celular é uma coisa muito difícil. Falta emoção e troca, porque quando você está no palco, vê as pessoas e a reação delas diante daquilo que você está fazendo. É uma energia, tem o emocional. Uma energia está pairando ali naquele ambiente. A música vive dessa relação. Agora, chegar para uma live e encontrar o celular na sua frente é brochante, muito difícil. Então, live é uma coisa muito penosa. Até já fiz uma, mas foi muito difícil, senti uma dificuldade imensa. Mas acaba que as pessoas pedem e as pessoas fazem.

Na década de 1980, houve um entrevero entre você e Aldir. A dupla passou muitos anos sem compor, mas retomou a parceria. O distanciamento fez com que vocês ficassem mais próximos?

Não, aquilo fez com que a gente continuasse do jeito que éramos, como se não tivesse acontecido aquele hiato, aquele afastamento. Foi aquela coisa de dar um tempo na relação, pois ela só existe quando é muito próxima. Isso não existe quando a relação não é próxima. Quando é assim, você não tem necessidade de dar um tempo, pois continua porque não tem proximidade, intimidade. A nossa (relação), não. Trabalhamos 12 anos praticamente ininterruptamente, diariamente. Nesses 12 anos, fizemos praticamente quase o nosso repertório todo. Então, tínhamos todo o direito de dar um tempo, não precisava nem de motivo. Sempre levamos para esse lado. Aliás, nunca soubemos direito o porquê disso, mas desconfiávamos que era um tempo necessário do ponto de vista sensorial, humano. Não dava para ficar a vida inteira colado um no outro. Uma hora, teríamos de dar um tempo, como acontece normalmente em todo tipo de relação.

Como foi a retomada da parceria?

Foi como se tivéssemos nos despedido na noite anterior. Não parecia que tínhamos ficado tanto tempo longe um do outro. Demos um tempo, mas, do ponto de vista da afetividade, do companheirismo, da amizade, aquilo ficou intocável, do mesmo jeito. Tanto que quando retomamos, aquilo estava ali imaculado, puro, como era e como sempre foi. A gente retomou naquele disco Não vou pro céu, mas já não vivo no chão. Seguimos em frente. Uma semana antes de ele falecer, já estávamos com dois projetos para fazer, inclusive com convidados. Ele já estava lendo um livro relativo a esse projeto, a esse convite. Estávamos preparando alguma coisa inédita para agora, quando aconteceu essa força da natureza que nos separou com a morte dele. Mas a gente nunca pensou muito. Aldir falava: “É porque ele é Flamengo e eu sou Vasco, então a gente tem, às vezes, que dar um tempo.” Aquela amizade precisava descansar um pouco. Foi isso, não teve nada demais não.

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