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Índios ceramistas se isolam com medo de nova tragédia

Os Wauja, que ensinaram sua técnica em BH em 2018, cortaram contato com os brancos no Alto Xingu. Nos anos 1960, a chegada do sarampo à aldeia quase extinguiu a tribo


postado em 17/05/2020 04:00 / atualizado em 15/05/2020 21:34

(foto: Fotos: Letícia Leite e acervo pessoal)
(foto: Fotos: Letícia Leite e acervo pessoal)

Mais de mil anos de história, costumes e crenças do povo indígena Wauja são representados por meio das cerâmicas moldadas e produzidas artesanalmente pelos membros da tribo. Em sua maioria, as peças retratam figuras zoomórficas, com desenhos geométricos.

“Essa cerâmica é muito importante para o nosso povo, porque é um símbolo da nossa etnia. Nós somos ceramistas. Nosso povo só faz cerâmica ou negócio”, afirma Kaji Waurá, de 46 anos.

A tribo Waujá, localizada na terra indígena do Alto Xingu, no Mato Grosso, se sustenta sobretudo com a venda de peças em cerâmica, moldadas pelas mulheres da tribo e pintadas pelos homens. “Tem outras três etnias que aprenderam com a gente a fazer essa cerâmica”, diz Kaji.

Por causa da pandemia do novo coronavírus, a aldeia decidiu evitar o contato com os brancos e se isolar desde que teve conhecimento, há três meses, dos relatos de que o vírus havia chegado ao Brasil. Em consequência disso, as peças deixaram de ser vendidas, e a tribo está sem acesso a combustível e alimentos industrializados.

“Lá na aldeia, a gente faz pescaria, roçada, comendo todo dia e pescando. Nossa vivência é principalmente da tapioca e do peixe. Às vezes tomamos café e leite, quando (esses itens) vêm da cidade. Mas já acabou toda a comida do branco. Por isso eles estão revoltados; querem comprar arroz e feijão”, conta Kaji, sobre a situação de seu povo.

Apesar de estar há cinco meses em Campinas (SP) com o filho Januário, de 18, Kaji conversa diariamente com os membros da aldeia que permanecem na tribo e tenta encontrar maneiras de ajudá-los. “Eles estão esperando que a doença não entre na aldeia. O pensando deles é que essa pandemia irá terminar mês que vem. Mas eu falei para eles que esse vírus não vai terminar amanhã, então tem que controlar bem.”

Kaji decidiu ir para Campinas para cursar um mestrado em educação. Ele afirma que a preocupação em se prevenir da contaminação não é unânime na aldeia. “Tem sempre alguém achando que não vai pegar (o vírus). Mesmo assim, cacique fica lutando, conversando com eles, falando que não pode sair (da aldeia). Aí nós vamos ajudando, mostrando para eles vídeos sobre como é ruim (a COVID-19). Se hoje, (o coronavírus) entrar na aldeia, acaba com tudo”, diz ele.

Kaji Waurá(foto: Fotos: Letícia Leite e acervo pessoal)
Kaji Waurá (foto: Fotos: Letícia Leite e acervo pessoal)


''Lá na aldeia, a gente faz pescaria, roçada, comendo todo dia e pescando. Nossa vivência é principalmente da tapioca e do peixe. Às vezes tomamos café e leite, quando (esses itens) vêm da cidade. Mas já acabou toda a comida do branco. Por isso eles estão revoltados; querem comprar arroz e feijão''

Kaji Waurá, mestrando em pedagogia


TECNOLOGIA

O mestrando conta que as notícias do surto de um novo coronavírus em Wuhan, na China, chegaram à aldeia porque hoje a aldeia dispõe de tecnologia. “Mas achávamos que não ia chegar aqui. Só depois do carnaval, mês de fevereiro, que o pessoal recebeu informações de que estava se alastrando pelo Brasil e resolvemos nos isolar.”

A medida foi tomada para evitar que a aldeia seja infectada novamente por um vírus. Kaji conta que, nos anos 1960, a tribo foi atingida pelo sarampo, o que provocou a morte de mais de 3 mil indivíduos. “Se uma doença entrar (na aldeia), acaba tudo. Foi isso o que aconteceu nos anos 60. A população era grande e restaram apenas 93 pessoas.”

Segundo Kaji, quando houve o surto de sarampo, apenas três pessoas na aldeia não foram infectadas e ficaram encarregadas de enterrar os corpos. “O cemitério parecia uma aldeia.” As 93 pessoas que sobreviveram foram aquelas que saíram da região e foram procurar ajuda em outros lugares. Atualmente, a tribo conta com 650 indígenas.

“Fiquei muito preocupado com os jovens e meninos. Pensei que seria bom para mim trabalhar em sala de aula e passar conhecimento para crianças. Vejo muitas que não estão estudando, e a gente precisa alfabetizar na língua materna e depois no português”, diz Kaji, a respeito do que o motivou a estudar.

Kaji Waurá é graduado em pedagogia pela Licenciatura Intercultural da Universidade do Estado de Mato Grosso e dá aulas de português, matemática, história e maipure, língua materna dos Waujá, desde 2001. “Acho muito importante para minha vida os estudos”, afirma.

Ainda em relação à prevenção da COVID-19, ele diz que suas tentativas de ajudar os que ficaram na tribo nem sempre são bem recebidas. “Alguns ficam revoltados e não acreditam (nas informações). Falo para eles que essa doença não é brincadeira. Eles não queriam obedecer o isolamento. Mas eu falei para eles que não pode fazer isso, não. Estou tentando orientá-los daqui e falar o que está acontecendo na cidade.”

''Kamalu Hai (Grande Cobra tipo Canoa) apareceu carregando nas costas uma cerâmica e veio mostrar para o povo. Aí o meu povo viu essa cobra carregando essa cerâmica e, quando eles viram, a cobra afundou deixando a argila. Quem viu contou aos outros e conseguiu pegar a argila e fazer um tipo de cimento. Depois que a gente pega esse barro no fundo da água, onde cobra deixou, levamos para casa e fazemos as cerâmicas"

Kaji Waurá, mestrando em pedagogia



Celebração na tribo
Celebração na tribo

EXPOSIÇÃO

Em 2018, Atapuwalu e Tamuwa Waurá, irmão de Kaji, vieram a Belo Horizonte para expor, vender e ensinar a fazer as peças de cerâmica produzidas pela tribo. “É uma coisa meio inatingível para a gente que é branco. Tem muito a ver com uma questão cultural. Ela (Atapuwalu) tinha uma facilidade e uma destreza que chegava a ser simples. Tem muita coisa que ela fazia que a gente achava que era tabu, que não que daria certo”, lembra o ceramista José Alberto Bahia.

José e Jéssica Martins, também ceramista, foram os responsáveis por trazer o casal Waujá para a capital mineira há dois anos. Ambos são fundadores do ateliê Saracura Três Potes, em Brumadinho, onde as oficinas ocorreram. Foi a primeira vez que membros da tribo saíram da aldeia para compartilhar os conhecimentos que têm sobre a modelagem de cerâmica e a história por trás dela.

“Kamalu Hai (Grande Cobra tipo Canoa) apareceu carregando nas costas uma cerâmica e veio mostrar para o povo. Aí o meu povo viu essa cobra carregando essa cerâmica e, quando eles viram, a cobra afundou deixando a argila. Quem viu contou aos outros e conseguiu pegar a argila e fazer um tipo de cimento. Depois que a gente pega esse barro no fundo da água, onde cobra deixou, levamos para casa e fazemos as cerâmicas”, explica Kaji.

Algumas das peças são feitas como um modo de agradar Kamalu Hai, ao dar vida a desenhos vistos pelo pajé da tribo em sonhos. “Ele ensina o pessoal e pede para fazer os desenhos. Cada cerâmica, cada modelo, cada pintura, tem seu significado”, ressalta o indígena. Uma peça leva em média 10 dias para ficar pronta.

“Foram dois finais de cerâmica ensinando a técnica. Veio gente da França, antropólogo, pessoas de várias áreas. Ao aprender a técnica, se passa a valorizar o trabalho. Quando você vê e não sabe como faz, então não dá valor”, afirma José Alberto Bahia.

O dinheiro arrecadado com a venda das cerâmicas (não apena sem BH) foi utilizado na compra de dois barcos, um motor, três motos e uma placa solar completa para a aldeia. Os barcos são usados para levar os artesanatos até a cidade, recolher material e na pesca. No momento, estão sem poder circular.

*Estagiária sob a supervisão da editora Silvana Arantes


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