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Estado de Minas ENTREVISTA/ BEBEL GILBERTO /CANTORA E COMPOSITORA

Bebel Gilberto critica descaso do governo com a COVID-19

Após morar 20 anos em Nova York, cantora agradece ao destino por trazê-la de volta ao Rio neste momento de pandemia. 'A cada dia fico com mais medo do futuro aqui no Brasil', afirma


postado em 13/05/2020 04:00

(foto: Luigi Iango/divulgação)
(foto: Luigi Iango/divulgação)

"Estar apaixonado sempre ajuda se temos que escrever uma música..."

Aos 53 anos, a cantora e compositora Bebel Gilberto se prepara para lançar um novo álbum imerso em uma tristeza contida, diluída pela atmosfera dos arranjos eletrônicos. Na verdade, ela já começou a fazer isso divulgando duas músicas, Deixa e Bolero, do álbum Agora. A produção é assinada pelo pianista Thomas Bartlett, especialista em criar ambientações que já foram requisitadas em álbuns de artistas em busca de alguma sofisticação eletrônica – da banda The National a Yoko Ono, passando por Anna Calvi, Norah Jones, Florence + The Machine e Glen Hansard.

Já está tudo pronto. Bebel aguarda o melhor momento para lançar Agora. É o primeiro trabalho da cantora carioca depois da perda da mãe, a cantora Miúcha, em dezembro de 2018, e do pai, João Gilberto, seis meses depois. Nesta entrevista, ela fala da vida sem os pais, da volta ao Brasil e sobre a pandemia que assusta o mundo.

Ouvindo Bolero e Deixa, podemos esperar um disco novo na aura de clima eletrônico? Essa seria uma indicação da produção do Thomas Bartlett?
Sim, esse disco tem um clima eletrônico e também um clima nostálgico. Thomas é um tecladista que gosta de trabalhar com loops e acaba por misturar teclado com outros instrumentos também eletrônicos. A ideia de fazer um disco totalmente eletrônico, na verdade, veio de nós dois quando começamos a trabalhar juntos. Chegamos à conclusão de que a gente queria para esse projeto ter apenas ele e o Magrus, baterista brasileiro que mora nos Estados Unidos há 25 anos e trabalha comigo há 20.

Já havia um conceito antes da gravação?
Começamos a gravar sem nos dar conta de que estávamos realmente compondo para um novo disco. Quando eu e Thomas nos encontramos pela primeira vez, o objetivo era apenas compor sem absolutamente nenhuma direção. Como ele conhece muito o meu gosto musical, foi preparando algumas ideias que se encaixaram nas minhas melodias perfeitamente. Quando nos demos conta, tínhamos 17 músicas! Onze delas estão no disco.

Você cantará com parceiros?
A convidada especial deste disco é a querida Mart’nália. A gente compôs a letra de Na cara por WhatsApp, e ela gravou comigo quando esteve em Nova York. Ainda ganhei seu vocal numa outra composição minha, Raio. Amei ter a Mart’nália no disco.

A música Bolero, você diz, é você dançando pelas ruas de Madri com um amor que deixou escapar. Há um texto em que você escreve assim: “Nós dois dançando no escuro era como um sonho dentro de um sonho. O mistério desse amor especial que poucos temos a sorte de encontrar... Como se Pedro Almodóvar estivesse nos dirigindo em uma de suas maravilhosas fantasias”. Coisas que, de repente, parecem não ser mais possíveis de existir. Como você está vivendo essa quarentena?
Quando escrevi Bolero, estava terrivelmente apaixonada. Estar apaixonado sempre ajuda se temos que escrever uma música... Assim como quando estamos com dor de cotovelo. O barato é que usar experiências verdadeiras como as dessa música não deixa de ser um sonho. E você se deixar viajar neste momento de quarentena é pura inspiração... Pois sonhar, viajar, repensar e relembrar acontecimentos funcionam para você refletir e depois decidir o que ainda é bom para sua vida e o que não é mais.

Você era superligada a João Gilberto. Como ficou o mundo, o seu mundo, sem ele?
A minha relação com meu pai sempre foi muito especial e intensa. Éramos muito próximos. É impossível explicar em poucas palavras o vazio que estou sentindo, sem meu pai e minha mãe. O que me dá força neste momento é focar no meu novo disco, na minha carreira.

Como você vê a atuação do presidente Jair Bolsonaro em relação ao combate da epidemia?
É extremamente preocupante o que estamos vivendo. Não consigo acreditar que o senhor presidente possa nos tratar com tamanho desrespeito e desprezo. A cada dia fico com mais medo do futuro aqui no Brasil, especialmente diante da forma como o governo vem lidando com a pandemia. Essa falta de responsabilidade só faz aumentar a desigualdade no país, que já era imensa. A população mais vulnerável é quem mais está sofrendo com esse descaso. Isso me entristece e revolta.

Onde é melhor estar nestes tempos de pandemia: Rio ou Nova York?
O melhor lugar para estar durante a pandemia é dentro da sua própria casa. Depois de 20 anos morando em Nova York, a minha casa, nos últimos dois anos, tem sido o Rio de Janeiro. Realmente sou muito grata que o destino tenha me trazido de volta e que tenha permanecido aqui neste momento, falando português, perto da minha família.


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