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Estado de Minas

Documentário 'Na marca da cal' dá voz a juízes do futebol amador

Árbitros enfrentam tensão, más condições de trabalho e até violência nos campos de várzea em BH. Dirigido por Fábio César Marcelino, filme estreia neste sábado (15), no MIS Cine Santa Tereza


postado em 15/02/2020 04:00 / atualizado em 14/02/2020 23:54

(foto: Fotos: Fábio César Marcelino/divulgação)
(foto: Fotos: Fábio César Marcelino/divulgação)

Revelar o cotidiano dos árbitros do futebol de várzea. Esse é o objetivo do belo-horizontino Fábio César Marcelino, autor do documentário Na marca da cal, que será lançado neste sábado (15), no MIS Cine Santa Tereza. Formado em relações públicas e mestre em comunicação social, ele tinha o hábito de jogar em campos de terra batida. “Ficava impressionado com situações vividas pelos juízes em BH e na região metropolitana. Foi assim que tive a ideia de produzir um documentário sobre a realidade desses profissionais”, conta Marcelino.

O projeto dele foi aprovado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte. Com 22 minutos, Na marca da cal aborda as relações dos árbitros da Federação Mineira de Futebol (FMF) com o esporte. “O filme mostra os desafios desses profissionais para seguir uma carreira cheia de obstáculos”, afirma o cineasta.

Os quadros da FMF contam com cerca de 370 árbitros – homens e mulheres. Fábio Marcelino e sua equipe percorreram os bairros Cachoeirinha, Jardim Inconfidência e Santa Lúcia, além da região de Venda Nova, acompanhando o cotidiano dos jogos e treinamentos para mostrar como se dá a formação de juízes.

O filme aborda o universo feminino nos campos, além de casos de agressão e superação vividos pelos 26 entrevistados – a maioria sonha em atuar em partidas profissionais. Pressões de toda ordem, falta de estrutura e violência física e psicológica são motivos para o abandono da carreira.

''O campo é de terra. Muitas vezes, ali não há nem vestiário. Raros campos de várzea oferecem estrutura razoável para o árbitro''

Fábio Marcelino, diretor



PÊNALTI 

O título do documentário se inspirou na tensão experimentada pelo árbitro ao marcar o campo com cal na hora do pênalti. “É uma relação de autoridade durante a tomada de uma decisão que vai agradar a alguns e desagradar a outros”, diz Marcelino. “A ideia do documentário surgiu da matéria de TV que vi em 2015, sobre uma partida em que jogadores não concordaram com a arbitragem. Eles queriam agredir o juiz, que foi amparado em campo pelos colegas.”

Aquele juiz era policial. Quando o jogo acabou, ele foi ao vestiário, armado, tirar satisfação com os jogadores. “Esse foi o mote maior, mas, antes disso, fui jogador e disputei vários campeonatos de várzea. Depois da matéria na TV, resolvi fazer uma pesquisa para saber como as coisas funcionavam”, conta o diretor.

Candidatos a árbitro têm de fazer um curso de seis meses na FMF. Antes de apitar uma partida profissional, o juiz deve passar por período probatório nos campos de várzea. “Visitei vários deles, conversei com árbitros, fui à FMF colher depoimentos de pessoas vinculadas à escola de arbitragem”, explica Marcelino.

Em suas conversas com os juízes, o diretor descobriu que quase 90% queriam ser jogadores de futebol. “Como não conseguiram, viram na arbitragem uma forma de estar perto do esporte. Apitar foi a maneira que encontraram de se aproximar do universo do futebol profissional. Nos campos de várzea, alguns trabalham pela quantia que recebem para apitar, mas outros porque gostam mesmo”, diz o documentarista.



SACRIFÍCIO 

O trabalho é quase sacrifício. “O campo é de terra. Muitas vezes, ali não há nem vestiário. Raros campos de várzea oferecem estrutura razoável para o árbitro. Às vezes, eles têm de lidar com a violência, que, aliás, está presente em todos os estádios do mundo”, diz o documentarista.

O sonho de ser juiz tende a virar desilusão. “Muitos acabam deixando o quadro de arbitragem. Outros continuam apitando, mas nem chegam à categoria do futebol profissional. Na realidade, a pessoa entra com aquele sonho de apitar no Campeonato Brasileiro, Taça Libertadores da América e até na Copa do Mundo, mas quando ela se depara com a realidade, é outra coisa”, diz o diretor.

Natural de Guanhães, o professor de educação física Leonardo Godinho se mudou para BH há cerca de 10 anos. Ele conta que já arbitrava na cidade natal. “Quando vim para BH, fiz o curso da FMF. Com o tempo, cheguei a ser do quadro profissional da federação, apitando jogos da Terceira Divisão do profissional”, relembra.

Godinho adora o que faz. “Vamos até as comunidades, onde somos bem recebidos. A pressão é muito grande no campo, mas saímos dali respeitados e agradecidos. É muito bacana ser árbitro de futebol, pois amamos esse trabalho, que não é exatamente uma profissão. Somos árbitros porque amamos ser, esta é a verdade.” Compositor, Godinho fez uma canção – Juiz, a alma do futebol –, que foi incorporada à trilha sonora do documentário.

''Juiz não tem voz, principalmente no futebol amador. Um filme como este é de suma importância, pois nos dá a oportunidade de expor os problemas''
''Juiz não tem voz, principalmente no futebol amador. Um filme como este é de suma importância, pois nos dá a oportunidade de expor os problemas''


PORTAS 

Há sete anos, Felipe Lima se mudou de Pouso Alegre para BH, onde se dedica ao ofício. “O futebol amador é o começo de tudo tanto para o atleta, antes de ir para a base, quanto para o árbitro, que almeja chegar a um nível profissional melhor. Apitei a finalíssima da Copa Itatiaia, um divisor de águas pra mim. Depois daquela partida, as portas se abriram no futebol profissional. Hoje, faço parte do quadro da CBF. No ano passado, fiz sete jogos como árbitro principal da Série A e agora vou tentar entrar no quadro da Fifa.”

Professor de educação física, Lima trabalha como personal trainer. Para ele, o documentário mostra grande parte das dificuldades do futebol amador. “Ser árbitro ali é não ter reconhecimento e ser mal remunerado. Portanto, você tem de amar o esporte, gostar, almejar coisas maiores. O árbitro que está apenas no futebol amador é um eterno apaixonado pelo futebol, pois não trabalha por dinheiro”, garante, elogiando o filme por mostrar as agruras da profissão.

Fernando Roberto do Carmo veio de Itamarandiba para BH há seis anos. “Na minha cidade, também trabalhava arbitrando jogos. Aqui, trabalhei no Campeonato Módulo 2, da Segunda Divisão, fui o quarto árbitro na Primeira Divisão do Campeonato Mineiro. Sou formado em física e continuo dando aulas”, conta.

O documentário, acredita, valoriza juízes como ele. “Pude dar a minha opinião, como uma pessoa que está dentro do sistema. Falei sobre o que acontece nos campos de várzea. Geralmente, o juiz não tem voz, principalmente no futebol amador. Um filme como este é de suma importância, pois nos dá a oportunidade de expor os problemas que os árbitros do futebol amador enfrentam”, conclui.


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