Longa de Todd Phillips que foi sucesso de público e dividiu a crítica é líder em indicações ao Oscar 2020. Sul-coreano Parasita concorre em seis categorias, e Scarlett Johansson é indicada duas vezes
Por Mariana Peixoto
14/01/2020 04:00 - Atualizado em 13/01/2020 22:01
Com seis indicações ao Oscar, Parasita deverá se tornar neste ano
uma série ou um remake da HBO (foto: pandora filmes/divulgação)
Se houve surpresa, foi pela quantidade de indicações. Em campanha pelo Oscar desde outubro passado, Coringa recebeu 11 indicações ao prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, tornando-se o líder na disputa da 92ª edição do prêmio. Sétima maior bilheteria de 2019 – com arrecadação global de US$ 1,062 bilhão – o longa de Todd Phillips junta-se a Pantera Negra (2018, três Oscars) no time de produções inspiradas em quadrinhos que foram indicadas a melhor filme. E a narrativa do vilão da DC Comics vai além: é o primeiro longa do gênero a receber o maior número de indicações em um ano.
Três épicos, cada qual à sua maneira, seguem bem próximos a ele, com 10 indicações cada um: Era uma vez em... Hollywood, de Quentin Tarantino, O irlandês, de Martin Scorsese, e 1917, de Sam Mendes. Logo em terceiro lugar em número de indicações está outra surpresa: o sul-coreano Parasita, de Bong Joon Ho, foi indicado a seis (as apostas mais otimistas eram para quatro), incluindo filme, direção, roteiro e filme internacional. Tornou-se, desta maneira, o 11º filme estrangeiro a ser indicado na categoria principal e o primeiro da Coreia do Sul.
Também levaram seis indicações História de um casamento, de Noah Baumbach, Adoráveis mulheres, de Greta Gerwig, e Jojo Rabitt, de Taika Waititi. O Brasil tem uma chance real de levar um Oscar, com a indicação do documentário Democracia em vertigem, da mineira Petra Costa. Mesmo que Fernando Meirelles não tenha sido indicado como melhor diretor, Dois papas fez bonito, levando três indicações em categorias importantes: ator, ator coadjuvante e roteiro adaptado.
Mal saíram as indicações, na manhã de ontem, e as redes sociais não deixaram barato. Ainda que as nomeações ao Oscar tenham dominado o topo do Twitter, os nomes da diretora Greta Gerwig e da atriz Lupita Nyong'o (por sua ausência nas categorias de direção e atriz) também entraram nos trending topics. A falta de representatividade feminina já vinha chamando a atenção nesta temporada de prêmios, desde o Globo de Ouro.
Com uma bilheteria que já ultrapassou os US$ 100 milhões e uma indicação a melhor filme, Adoráveis mulheres não conseguiu emplacar Gerwig na disputa pela melhor direção – ela entrou na de roteiro adaptado. Outra cineasta que muitos apostavam, Lulu Wang, tampouco foi mencionada – seu A despedida, que levou um Globo de Ouro, foi ignorado pelo Oscar.
(foto: piki films/Divulgação)
ÓBVIO
“Estou feliz que todos estejam chateados. É ótimo quando você não precisa apontar o óbvio. Como Greta disse antes, foi um ótimo ano para criadoras do sexo feminino e espero que isso incentive uma conversa maior. É literalmente por isso que Greta fez o filme – sobre mulheres que vivem no mundo masculino, relacionado a dinheiro e sucesso. Esta notícia apenas destaca a mensagem do filme”, afirmou Florence Pugh, indicada na categoria de atriz coadjuvante pelo filme de Gerwig.
A diretora, vale dizer, vai disputar o principal prêmio do Oscar literalmente dentro de casa – o marido, Noah Baumbach, é diretor do também indicado História de um casamento.
Produções bem cotadas como Nós, de Jordan Peele (o primeiro negro a receber o Oscar de roteiro por Corra!, 2017), estrelado por Lupita, e O último negro em São Francisco, de Joe Talbot, passaram despercebidos na votação da Academia. Cynthia Erivo, que concorre a melhor atriz por Harriet, é a única negra na categoria. De quebra, seu nome aparece em outra indicação: canção original por Stand up, dividindo os créditos com Joshuah Brian Campbell. Houve quem comentasse que a edição 2020 do Oscar por pouco não consegue repetir a “façanha” do ano que desatou a campanha #OscarsSoWhite (OscarTãoBranco) por representatividade e inclusão em Hollywood.
Nas categorias de interpretação, ninguém se deu melhor do que Scarlett Johansson, indicada a melhor atriz por História de um casamento e a melhor atriz coadjuvante por Jojo Rabbit. Até então, apenas 11 atores, sendo Cate Blanchett o exemplo mais recente, em 2008, haviam sido indicados no mesmo ano nas duas categorias. Em História de um casamento, Scarlett vive a ponta feminina de um casal com filho em processo de divórcio. Em Jojo Rabbit ela é a mãe do garoto que tem Hitler como seu amigo imaginário.
A conquista de Scarlett é impressionante, agora, bater as marcas de John Williams já é algo mais complicado. Com a trilha de Star Wars: A ascensão Skywalker na disputa por trilha sonora, o compositor quebrou seu próprio recorde como pessoa viva com mais indicações: são 52, até agora.
PROPAGANDA
Com sua quarta indicação ao Oscar, Joaquin Phoenix, um dos favoritos nesta temporada de prêmios, tem feito seu dever de casa. O ator tem ido aos prêmios e badalado seu Coringa onde pode. No entanto, ao receber o Globo de Ouro de ator em drama – batendo Antonio Banderas, Adam Driver, Jonathan Pryce e Christian Bale, todos, à exceção do último, também competidores no Oscar –, Phoenix se saiu com esta: "Todos nós sabemos que não tem como concorrer aqui. Não é uma competição. Tudo isso é para vender propaganda”.
O que não deixa de ser verdade. Quem mais ganha com o Oscar são os estúdios – basta uma indicação para o interesse do público crescer e, com isto, a bilheteria também. Ao colocar Coringa como ponta de lança de sua 92ª edição, a Academia de Hollywood também visa a um público mais jovem, a exemplo do ocorrido com Pantera Negra.
É no poder de atração dos filmes populares que os organizadores do Oscar ancoram suas expectativas de reverter a tendência de queda de audiência da transmissão. Já não é de hoje que o público da cerimônia da rede ABC vem caindo progressivamente. Repetindo o ocorrido em 2019, a festa, no próximo dia 9 de fevereiro, não terá um apresentador fixo. Grandes nomes do entretenimento, para dar agilidade ao evento, vão apresentar diferentes categorias. O teste da edição passada foi positivo. A audiência subiu 12% em relação à de 2018. O que não é um grande feito, pois, dois anos atrás, o Oscar teve a pior audiência de sua história.
ONDE VER OS FILMES
A boa notícia é que dá para entrar na corrida do Oscar com (quase) tudo em dia. Dos nove indicados a melhor filme, três estão atualmente em cartaz em Belo Horizonte: Adoráveis mulheres, Era uma vez em... Hollywood e Parasita. O irlandês e História de um casamento estão disponíveis na Netflix. Coringa está em pré-lançamento em vídeo sob demanda. 1917, que estreia no próximo dia 23, terá pré-estreias neste sábado (18) e domingo (19) na capital mineira. Ford vs. Ferrari já saiu dos cinemas e deve, em breve chegar ao VOD. Somente Jojo Rabbit deverá ficar para a véspera do Oscar. Sua estreia no Brasil está para 6 de fevereiro, a quinta anterior ao domingo do Oscar. Mas com suas seis indicações, não é improvável que a distribuidora consiga antecipar o lançamento, aproveitando a curiosidade despertada no público.