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Estado de Minas

Famoso escritor francês é investigado por pedofilia

Justiça abre caso um dia após a publicação de 'Le consentement', em que a editora Vanessa Springora narra a relação que teve com Gabriel Matzneff quando ela tinha 14 anos e ele 50


postado em 04/01/2020 04:00 / atualizado em 03/01/2020 16:53

O escritor Gabriel Matzneff em registro de 2014, em Paris. Autor descreveu em livros romances com menores de 16 anos e viagens de turismo sexual à Ásia(foto: JACQUES DEMARTHON/AFP)
O escritor Gabriel Matzneff em registro de 2014, em Paris. Autor descreveu em livros romances com menores de 16 anos e viagens de turismo sexual à Ásia (foto: JACQUES DEMARTHON/AFP)

A Justiça francesa abriu ontem (3) uma investigação contra o escritor Gabriel Matzneff, de 83 anos, por suas relações com menores descritas em um livro da editora Vanessa Springora lançado na última quinta-feira (2), segundo anunciou o procurador da República de Paris, Rémy Heitz.

Essa investigação foi aberta por "estupros cometidos contra um menor" de 15 anos de idade, em detrimento, principalmente, de Vanessa Springora, hoje com 47 anos. Essas revelações abalaram o mundo literário da França. "Além dos fatos descritos por Vanessa Springora", as investigações "procurarão identificar outras possíveis vítimas que possam ter sofrido infrações semelhantes em território nacional, ou no exterior", disse Heitz.

O procedimento foi iniciado 24 horas após o lançamento do livro de Springora, recentemente nomeada diretora da Éditions Julliard. O conteúdo do livro, no entanto, havia sido divulgado em entrevista da autora à revista L'Obs no fim de dezembro, desatando uma polêmica nos meios literários franceses sobre a condescendência com que Matzneff foi tratado ao longo de décadas.

No romance autobiográfico intitulado Le consentement (O consentimento), Springora conta como foi seduzida por Gabriel Matzneff quando tinha 14 anos e relata o peso dessa história em sua vida, pontuada por depressões.

Em entrevista ao jornal Le Parisien, Vanessa Springora disse que não planejava registrar uma queixa, mas o Ministério Público de Paris decidiu assumir o caso como parte de um "inquérito de iniciativa própria".

"Aos 14 anos, você não deveria ser esperada por um homem de 50 anos na saída do colégio, não deveria morar num hotel com ele, nem se encontrar na cama dele, ou ter seu pênis na boca na hora do lanche", escreve ela no livro.

"Por que uma adolescente de 14 anos não pode amar um homem 36 anos mais velho? Não era minha atração que deve ser questionada, mas a dele", acrescentou a escritora.

TESTEMUNHO

Vanessa Springora é a primeira a testemunhar entre as adolescentes seduzidas por Gabriel Matzneff, autor há muito celebrado pela comunidade literária francesa e premiado com o prêmio Renaudot em 2013.

A investigação aberta pode convencer outras pessoas a falar, enquanto os fatos relatados por Vanessa em seu romance se chocam com um problema de prescrição. Uma lei de 2018 contra a violência sexual prolongou de 20 para 30 anos o prazo de prescrição para crimes sexuais cometidos contra menores, a contar da maioridade, a fim de facilitar a repressão a esses atos.

No entanto, essa lei, que não estabeleceu uma idade mínima para consentimento em um ato sexual, não é retroativa. Os fatos contados por Vanessa Springora remontam à segunda metade da década de 1980.

O autoproclamado gosto do escritor por "menores de 16 anos" e pelo turismo sexual com meninos na Ásia, que ele contou em numerosos livros, não havia provocado grande alarde até agora. Mas o lançamento do livro Le consentement está mudando a situação.

Gabriel Matzneff já havia declarado à L'Obs estar “triste” com as revelações de Springora, cujo livro ele classificou de “hostil e maldoso”. Anteontem, com a chegada do romance às livrarias, ele divulgou para a revista L'Express uma carta na qual se dirige a Springora. No texto, ele afirma não merecer o "retrato horrível" que o livro de Vanessa Springora faz dele; diz que os fatos não descrevem “o que nós vivemos” e assegura que houve entre eles um “amor excepcional”. O escritor chegou a ser convocado a depor no passado, após cartas anônimas, mas sem outros desdobramentos. (AFP)


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