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Estado de Minas

Daniela Mercury diz que gravadora ignorava suas opiniões, por ser mulher

Prestes a lançar seu 20º álbum de estúdio, 'Perfume', cantora baiana afirma que, mesmo no auge do sucesso, o diálogo era ''cansativo''


postado em 24/12/2019 04:00

A cantora baiana foi uma das atrações da Virada Cultural 2019, realizada em julho, em Belo Horizonte (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
A cantora baiana foi uma das atrações da Virada Cultural 2019, realizada em julho, em Belo Horizonte (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)

Aos quase 35 anos de carreira, Daniela Mercury mostra o mesmo fôlego artístico que tinha na virada entre as décadas de 1980 e 1990, quando cantava em bares, palcos e trios elétricos de Salvador, apresentando-se com a Companhia Clic e o Bloco Eva. "Sou workaholic nata", diz ela.

No hall de cantoras brasileiras que mais venderam discos no exterior, Daniela foi uma das grandes responsáveis por popularizar a axé music. Cerca de duas décadas depois de seu primeiro disco solo, a baiana continua usando o gênero para puxar multidões e, ao mesmo tempo, denunciar questões sociais. Em janeiro deste ano, lançou Proibido o carnaval, uma parceria com Caetano Veloso. O refrão fala sobre assumir a sexualidade e sobre censura às artes. Dez meses depois, o clipe de Rainha da balbúrdia trouxe referência dupla: ao filme Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e à declaração do ministro da Educação, Abraham Weintraub, sobre as universidades brasileiras. Neste mês, o lançamento de Triatro e de uma releitura de Imagine, de John Lennon, serviu também como anúncio de Perfume, seu 20º disco de estúdio.

Na entrevista a seguir, Daniela Mercury fala sobre carreira e política.

O Canto da cidade foi um dos discos mais vendidos de sua carreira e dos anos 1990. Depois dele houve alguma mudança em relação à sua gravadora na época?

Em vez de ser mais fácil, era tudo muito mais difícil. O diálogo foi cansativo o tempo inteiro. Tenho certeza de que isso aconteceu porque sou mulher e nordestina, e porque trazia uma música nova, que precisava se afirmar em um cenário de preconceito. Eles estão acostumados com a mulher sendo apenas intérprete, mas não sou cavalo de santo. Sempre resisti, desde o início, para impor nos meus contratos que eu teria a última palavra artística sobre o meu trabalho.

Acredita que havia, na época, a noção de que não estava apta a ter o controle criativo sobre sua obra, por ser mulher, jovem ou nordestina?

Lógico que sim. A gente vive em uma sociedade extremamente machista, o que a mulher fala não interessa. Ouvi o diretor da companhia dizer claramente: ‘Não me interessa o que você pensa, não interessa o que mulher pensa’. Isso era dito com todas as letras.

Atualmente, uma artista consegue ter mais autonomia?

Quem sofre opressão sofre no todo. E, obviamente, quem está no poder exerce essa opressão. Isso é estrutural. Quando uma mulher dá uma ordem, precisa falar 10 vezes para ser ouvida. Eu tive de fazer isso a minha vida inteira. Acham que a mulher é uma pessoa nula, que canta muito bem e olhe lá. Eu era chamada de canário até meus músicos entenderem que eu tinha conhecimento musical e capacidade de liderar. É cansativo. O machismo está ali quando eu tento que a pessoa faça uma coisa e ela não faz porque não quer me obedecer. Mas não quer me obedecer por falta de respeito a mim, por ser mulher.

Suas músicas sempre abordaram temas sociais. O que pensa dos que defendem que um artista não deve falar de política?

Há uma confusão entre política partidária e ser um cidadão. A democracia é um caminho escolhido e construído por nós, com a participação de todos. Sou militante social como cidadã e como artista, não dá para separar as duas pessoas. A artista deu poder e voz à cidadã, não só para cantar, mas para falar e formar opinião. Tenho alegria de usar esse poder. E isso vem com uma responsabilidade enorme. Leio muito, busco entender o contexto sociopolítico brasileiro e as nossas questões sociais. Fui aprendendo em casa e, depois, com a vida. Quando me casei com Malu (Verçosa), a causa LGBT, para mim, foi natural, afirmativa e política. E sou nordestina, né? Nordeste é resistência.

Em 2013, o anúncio do casamento com Malu Verçosa foi feito pelo Instagram. Como você recebeu a reação das pessoas a esse anúncio e por que fazê-lo dessa forma?

Não era uma escolha falar ou não falar. Diante de uma causa social da magnitude que é o combate à homofobia, nós tínhamos um desafio claro: lutar pela liberdade de amar. Tinha um quê de rebeldia também. Fácil? De jeito nenhum. Discutimos a melhor maneira de fazer, da forma mais humana e mais bonita. Lutar pela felicidade de nossas famílias é um ato político. Publicar as fotos das nossas filhas e da nossa casa continua sendo um ato político, afirmativo e importante. Porque a gente sabe que as nossas famílias são atacadas e há muito que lutar contra o preconceito estrutural.

Como ser a rainha da axé music e ter de conciliar isso com a maternidade?

Nunca cogitei abrir mão do meu sonho individual, da minha carreira e da minha trajetória. Ao mesmo tempo, sempre celebrei e amei a possibilidade de ser mãe. Digo que nasci pós-feminista, porque tinha muito claro para mim o que queria fazer, meus direitos e quem queria ser como pessoa. E nasceria mulher mil vezes com essa mesma consciência. (Agência Estado)


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