Jornal Estado de Minas

Professores da UFMG opinam sobre polêmica dos prêmios literários

(foto: JONATHAN NACKSTRAND/AFP)
Há como desvincular a literatura da política nos tempos atuais? Certamente que não, se tomarmos como exemplo polêmicas recentes que envolveram autores de obras relevantes. Por causa de opiniões manifestadas fora de suas obras, escritores tiveram prêmios e homenagens contestadas.



O caso mais célebre é o do Nobel de Literatura. Peter Handke recebeu na última terça-feira (10) o prêmio (830 mil euros) sob uma chuva de protestos e boicotes – o austríaco de 77 anos apoiou o regime genocida do sérvio Slobodan Milosevic na Guerra da Iugoslávia, nos anos 1990.

No Brasil, a norte-americana Elizabeth Bishop, primeira autora estrangeira a ser homenageada pela Festa Literária de Paraty (Flip), tornou-se, 40 anos após sua morte, o centro de um debate nas redes sociais. Bishop, que viveu duas décadas no Brasil, teria apoiado os militares no Golpe de 1964, afirmam seus detratores.

Em setembro passado, o Prêmio Nelly Sachs, concedido pela cidade alemã de Dortmund, simplesmente reverteu a decisão de premiar a britânico-paquistanesa Kamila Shamsie ao descobrir, após a entrega do prêmio, que ela apoia a iniciativa de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra Israel.



Saias justas literárias não são novas – uma das mais célebres é o fato de o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) nunca haver recebido o Nobel, motivo de piada do próprio: “Não me entregar o prêmio Nobel virou já uma antiga tradição escandinava. Cada ano me dizem que estou sendo cotado e sempre dão o prêmio a outro. É uma espécie de rito”, afirmou Borges, em 1979.

Uma razão política é apontada como o motivo maior desta recusa da Academia Sueca em reconhecê-lo. Borges visitou o Chile da ditadura Pinochet em 1976, recebeu dos mãos do general um título honoris causa da Universidade do Chile e ainda elogiou o regime: “Nesta época de anarquia, sei que aqui, entre a Cordilheira e o mar, há uma pátria forte”.

“Prêmios são sempre polêmicos, pois vão contrariar algum grupo, principalmente se o escritor tiver alguma militância”, afirma o professor da Escola de Letras da UFMG Wander Melo Miranda. “Como a Europa passou por muitas guerras, pelo nazismo, pelo Holocausto, a questão política é sempre muito premente no Nobel. Agora, pessoalmente, acho que em num prêmio literário o primeiro a ser julgado é a qualidade da obra. Mas outros valores acabam entrando no julgamento.”



Na opinião de Miranda, por exemplo, Borges, a despeito da ligação com Pinochet, é um dos maiores injustiçados do Nobel. “É evidentemente um dos maiores escritores do século 20. Eu daria o prêmio para ele, pois acho que ele não tinha noção da política da época, vivia em outra esfera. Por vezes, a conjuntura política e histórica pesa de maneira exagerada.”

Por outro lado, Miranda faz parte do coro dos descontentes da escolha da Flip em homenagear Bishop. Mas por uma questão literária: “João Cabral de Melo Neto é um poeta com uma qualidade superior a dela. Colocá-lo de fora no ano de seu centenário (o pernambucano completaria 100 anos em 9 de janeiro de 2020) é, no mínimo, discutível”.
 

ARREPENDIMENTO 

Também da Faculdade de Letras, o professor Georg Otte acha contestável, eticamente, o prêmio dado a Peter Handke. “O próprio Alfred Nobel, fundador do prêmio, tinha uma história marcada pelo arrependimento. Ele foi o inventor do dinamite. Para tentar concertar isto, criou o prêmio no intuito de defender a paz. Certamente a literatura de Handke tem seus méritos, mas havia outros bons candidatos. Ele solidarizou-se com um ditador. E agora parece que virou chique questionar a democracia, os movimentos antidemocráticos estão sendo valorizados.”



Para Otte, Handke via o apoio à Sérvia como um assunto encerrado. “Havia mais de 10 anos que ele não falava sobre isto. Claro que, na hora em que o tema voltou à tona, ele poderia mostrar arrependimento. Mas a mim me pareceu muito orgulhoso.” Para o acadêmico, a polêmica escolha do Nobel de Literatura de 2019 vem se somar a acontecimentos recentes que fizeram a Academia Sueca perder prestígio – há dois anos, um escândalo sexual com um marido de uma integrante da Academia fez com que a escolha do Nobel de 2018 e a entrega do prêmio fossem canceladas. A vitória da polonesa Olga Tokarczuk foi tardiamente anunciada (junto com a de Handke) e ofuscada pela polêmica em torno do austríaco.

A despeito de erros e acertos nas escolhas, Sérgio Alcides, também professor da Faculdade de Letras, vê outro viés nas polêmicas: a má qualidade do debate. “Eu gostaria de ter acesso a um debate um pouco mais informado, menos ávido, leviano e vaidoso. Em países como o Brasil, onde a crítica literária como atividade pública é precária, o problema é pior. Pessoas mais ou menos intelectualizadas têm nas redes sociais um megafone e a sensação de ter uma participação relevante.”

Para Alcides, uma postagem em uma rede social “é uma ilusão de participação efetiva, em algo relevante, em que as pessoas amenizam seu profundo sentimento de impotência diante de um mundo cada vez mais frenético, fora de controle. Estamos presos a bolhas opressivas e antidemocráticas, pois a própria natureza da comunicação nas redes sociais nos impele a ver só o semelhante. Raramente nos confrontamos com o outro, com o dissenso. Ou seja, estamos sempre no deserto pregando para nossos iguais”. Nesse contexto, o professor e poeta observa: “É muito cômodo você começar a tacar pedra na Elizabeth Bishop, pois não vai haver consequência”.



LETRAS EM TRANSE

Entenda as recentes polêmicas no universo da literatura

PETER HANDKE/PRÊMIO NOBEL
(foto: O Cruzeiro/Arquivo EM)

De origem eslovena por parte materna, Peter Handke se posicionou a favor da Sérvia na Guerra da Iugoslávia, nos anos 1990. Publicou, em 1996, o ensaio Justiça à Sérvia, no qual apontava os sérvios como "as vítimas reais da guerra civil". Dez anos mais tarde, ele compareceu (e discursou) no funeral do ex-ditador sérvio Slobodan Milosevic.

Desde que o nome de Handke foi anunciado pela Academia Sueca, em outubro, não faltaram manifestações contrárias. A cerimônia de entrega do Nobel, na terça-feira (10), em Estocolmo, sofreu boicotes tanto de acadêmicos quanto de diplomatas. Após a premiação, manifestação no centro de Estocolmo reuniu pessoas com a bandeira da Bósnia e pulseiras brancas, como as que os não-sérvios foram obrigados a portar no início da Guerra dos Bálcãs, em 1992.

Recluso, Handke, que vive há décadas na França, disse em novembro ao semanário alemão Die Zeit: "Nenhuma das palavras que escrevi sobre a Iugoslávia é de denúncia, nem uma. É literatura."



ELIZABETH BISHOP/FLIP
(foto: SHAUN CURRY/AFP)

Primeira estrangeira homenageada pelo mais chamativo evento literário do país, Elizabeth Bishop (1911-1979) virou alvo de polêmica por causa de cartas datadas dos anos 1960. Na correspondência trocada com o escritor Robert Lowell, a norte-americana escreveu que o Golpe de 1964 foi “uma revolução rápida e bonita” e que “os militares no Brasil jamais na sua história tentaram tomar o poder ou mantê-lo”.

Houve uma onda de protestos nas redes sociais com a sugestão de boicote à Flip, caso a decisão não seja revista. O coro dos descontentes justificou a polêmica chamando a autora de apoiadora dos militares. Bishop foi companheira da arquiteta Lota Macêdo Soares, criadora do Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro, e muito próxima de Carlos Lacerda, um dos articuladores do Golpe de 1964.

No início deste mês a organização da Flip publicou nota afirmando que a "campanha lançada contra a poeta nas redes sociais" chamou "a nossa atenção e escuta". "Estamos ouvindo as manifestações de todos e pensando em seu significado com a serenidade que essa questão merece." A 18ª edição da Flip será realizada entre 29 de julho e 2 de agosto de 2020.



KAMILA SHAMSIE/PRÊMIO NELLY SACHS

Em setembro, o Prêmio Nelly Sachs, concedido pela cidade alemã de Dortmund, anunciou o nome da autora britânico-paquistana Kamila Shamsie como a vencedora de 2019. A premiação de 15 mil euros que leva o nome da autora judia alemã, Nobel de Literatura, é concedida a um escritor que promova “tolerância e reconciliação”. Shamsie é uma ficcionista em cujos romances os personagens são afetados por acontecimentos políticos.

Porém, após ser anunciado, o prêmio foi retirado, porque Shamsie apoia o Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), campanha global criada contra Israel por causa de suas políticas em relação à Palestina. O júri admitiu que não sabia da participação da autora no BDS. “O boicote cultural não transcende fronteiras, mas afeta toda a sociedade israelense, independentemente de sua real heterogeneidade política e cultural”, declarou o júri.

Shamsie afirmou que era uma grande tristeza “que um júri se curvasse para pressionar e retirar um prêmio de um escritor que exerce sua liberdade de consciência e liberdade de expressão”.