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Estado de Minas

Mais seletivo, Arnaldo Cohen volta a tocar com a Filarmônica de Minas

Aos 70 anos, pianista carioca radicado nos EUA tem priorizado atividades de ensino, mas se considera um 'padrinho' do grupo mineiro, com o qual se apresenta nesta quinta (25) e sexta (26)


postado em 31/07/2019 04:11

 Arnaldo Cohen, pianista(foto: Philadelphia Chamber Society/Divulgação)
Arnaldo Cohen, pianista (foto: Philadelphia Chamber Society/Divulgação)

Foi Arnaldo Cohen, um dos mais conceituados e virtuosos pianistas brasileiros, o primeiro solista convidado a se apresentar com a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Era março de 2008 e a obra executada foi Concerto para piano n.1, de Tchaikovsky. De lá pra cá, Cohen fez diversas outras apresentações ao lado da Filarmônica, como as que celebraram seus 70 anos, no fim do ano passado, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e na Sala Minas Gerais, em Belo Horizonte. "Para você ver como a minha relação com a Filarmônica é especial. Eu, carioca, escolhi uma orquestra mineira para comemorar essa data tão importante em BH e na minha cidade", afirma.

Na opinião de Cohen, a formação mineira já está no mesmo patamar de excelência da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). "Eu me sinto um pouco como um padrinho da Filarmônica de Minas. Acompanho a orquestra desde os seus primórdios e por isso é sempre um privilégio me apresentar com esses músicos tão excepcionais. É formidável ver o que ela se tornou. Nessa conjuntura atual do país, espero que as lideranças mineiras tenham sabedoria e visão para entender o que ela representa, não só para o estado, mas para o Brasil. A Filarmônica não é uma conquista apenas dos mineiros, mas do povo brasileiro", diz o instrumentista,  que também destaca o trabalho do maestro Fabio Mechetti. "É um grande músico, um grande regente, além de ser um grande amigo. Temos uma parceria musical que data até antes da própria Orquestra Filarmônica. É sempre um prazer estar ao lado dele."

E a recíproca é verdadeira. Mechetti não esconde sua admiração pelo pianista, que estará nesta quinta (25) e sexta (26) em BH, tocando mais uma vez com a Filarmônica, na Sala Minas Gerais. "É, sem dúvida, um dos principais nomes da música brasileira e sempre abraçou a excelência em todos os aspectos. É ótimo contar com sua presença e talento aqui", diz o maestro.

Nos concertos desta semana, Cohen vai interpretar duas peças essenciais para piano e orquestra: o Concerto para piano nº 17 em sol maior, K. 453, de Mozart, e a célebre Rhapsody in blue, de George Gershwin. Ainda de Gershwin, a Orquestra executa a suíte da ópera Porgy & Bess. O programa tem início com Frevo, uma das composições mais interessantes do amazonense Claudio Santoro, cujo centenário de nascimento se comemora neste 2019. Antes das apresentações, entre as 19h30 e as 20h, o público poderá assistir aos Concertos Comentados. O convidado desta semana é Marcus Julius Lander, clarinetista principal da Filarmônica. As palestras são gravadas em áudio e ficam disponíveis no site da Orquestra. "Frevo é uma obra curta, feita inicialmente para piano e que, depois, Santoro orquestrou. Mostra esse calor da música do Nordeste, uma orquestração bem vívida e é o exemplo da união de um elemento folclórico nacional revestido de um colorido erudito. Temos também um clássico de Mozart e duas obras de Gershwin, com uma forte influência jazzística", analisa o maestro.

AULAS Há algum tempo, Arnaldo Cohen vem diminuindo o ritmo de apresentações ao redor do mundo. Segundo ele, não é uma questão de trocar a sala de concertos pela de aula. "Não existe uma substituição, mas sim um redimensionamento da minha atividade. Só quem conhece a rotina de um concertista, com 80, 90 apresentações por ano, com viagens, estudos, hotéis e ainda com uma carreira acadêmica por trás sabe do que estou falando. Continuo tocando, mas num outro ritmo. É muito mais uma questão de saúde mental do que física", diz.

Professor da Escola de Música da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, o pianista tem se dedicado aos alunos de pós-graduação e pretende, daqui para a frente, dedicar a maior parte de seu tempo à atividade pedagógica. No entanto, assegura que não foi fácil optar por esse caminho. "Sair dessa engrenagem é complicado também. Até por uma questão profissional, você acaba dizendo sim na maior parte das vezes. Mas,  hoje em dia, meus critérios para aceitar (um convite) são diferentes. Após muitos anos, estou me sentindo livre; é como se a minha vida profissional fosse um hobby e isso é muito bom."

Para um profissional da música que começou a tocar ainda criança – primeiro o violino e, depois, o piano – acordar e não ficar pensando para onde vai viajar ou tocar daqui a três dias tem sido uma experiência nova e agradável. "Quero não só me dedicar aos meus alunos da pós-graduação, ensinar, dar um conselhos, mas também ler os meus livros, estudar uma peça que vou tocar daqui a um mês e meio e também me dedicar a meus projetos pessoais."

Os planos ainda incluem um tempo maior com a família – não só com a mulher, Karina, também professora na Universidade de Indiana, e os dois cachorros que vivem com o casal na cidade universitária de Bloomington, onde Cohen mora desde 2004, mas também com o filho Gabriel, hoje vivendo em Denver (Colorado), e os netos Manoela, de 7 anos, e Lucas, de 2. "Meu filho é um craque na área de marketing e também adora música. Manoela está fazendo balé e vou assistir no fim do ano ao primeiro espetáculo dela. Já o Lucas, mesmo com pouca idade, está batendo no pianinho. Ele promete", gaba-se o vovô coruja.

Morando fora do Brasil desde 1981, entre Inglaterra e Estados Unidos, o pianista não sabe se, um dia, voltará a viver em seu país, mas se vê passando mais tempo em sua terra natal. "Eu me considero muito brasileiro, sou muito apegado às minhas origens. Provavelmente, minha vida teria sido muito diferente se eu continuasse morando aqui, com o tipo de vida e sociedade que temos. E a situação só piorou, infelizmente. No Rio, minha cidade, a gente é obrigada a ficar numa autoprisão, já que o Estado não nos protege", lamenta. O músico também lastima outras questões no país, como o descaso com a cultura. "Sei que todas as áreas são relevantes, mas é importante que nossos líderes vejam a importância da cultura na formação de qualquer povo civilizado, na própria qualidade de vida e na movimentação da própria economia."

Durante a curta temporada brasileira, que inclui os concertos em BH, o pianista tomou a iniciativa de oferecer uma masterclass na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde se formou. "Sou muito grato a tudo que aprendi ali e por isso quero ajudar os alunos de alguma maneira. Considero uma obrigação", afirma. E, principalmente, matar as saudades das irmãs Anita e Miriam e da mãe, dona Rachel, uma ucraniana de 95 anos que veio para o Brasil ainda criança. "Mamãe fica me dando broncas porque falo que tenho que estudar. Aí questiona: ‘Mas você já não estudou tanto na vida? Estudar o quê?’. Ela quer que eu fique mais tempo com ela, é natural. Se está dando broncas, é porque ela está ótima, né?", diverte-se.

Orquestra Filarmônica de Minas Gerais
Série Allegro, amanhã (1º), às 20h30. Série Vivace, sexta (2), às 20h30, na Sala Minas Gerais (Rua Tenente Brito Melo, 1.090, Barro Preto). Fabio Mechetti, regente. Arnaldo Cohen, piano. Ingressos: R$ 46 (coro), R$ 52 (balcão palco), R$ 52 (mezanino), R$ 70 (balcão lateral), R$ 96 (plateia central), R$ 120 (balcão principal), R$ 140 (camarote par). Meia-entrada para estudantes, maiores de 60 anos, jovens de baixa renda e pessoas com deficiência, de acordo com a legislação. Mais informações: (31) 3219-9000 e www.filarmonica.art.br.

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