Publicidade

Estado de Minas

FÉ NA FESTA

Concentrada no Hipercentro de Belo Horizonte, Quinta Virada Cultural foi marcada pela controvérsia em torno da suspensão de uma performance com referência religiosa e manifestações de cunho político de artistas e do público


postado em 22/07/2019 04:15

Fiéis rezam em frente à Igreja de São José, em agradecimento à suspensão da performance Coroação de Nossa Senhora das Travestis, que ocorreria na noite de sábado, na programação da Virada Cultural(foto: Fotos: Leandro Couri/EM/D.A.Press)
Fiéis rezam em frente à Igreja de São José, em agradecimento à suspensão da performance Coroação de Nossa Senhora das Travestis, que ocorreria na noite de sábado, na programação da Virada Cultural (foto: Fotos: Leandro Couri/EM/D.A.Press)

 
Na 5ª Virada Cultural de Belo Horizonte, a primeira na gestão Alexandre Kalil (PSD), a ocupação do espaço urbano com eventos artísticos se mostrou, mais uma vez, um ato político. Em consonância com o clima de polarização que domina o país, demonstrações pró e contra o cancelamento da performance Coroação de Nossa Senhora das Travestis, da Academia TransLiterária – anunciado na sexta (19), por decisão de Kalil, acolhendo pedido de grupos católicos que consideraram o espetáculo um ato de blasfêmia e ofensa religiosa – marcaram o evento ao longo de suas mais de 24 horas, a partir das 19h de sábado (20).

No no local e horário em que ocorreria a Coroação (Espaço Rio de Janeiro, às 20h de sábado), um grupo de fiéis rezou a Ave Maria. O ato teve discordância entre participantes por causa da presença de políticos no local – alguns temiam que a manifestação de fé religiosa pudesse ser utilizada para atingir fins políticos. No Viaduto Santa Tereza, o rapper Roger Deff apoiou o coletivo: “Se censuram, censuram a todos”.

No Palco Guaicurus a reação ao corte veio de Marcelo Veronez, que leu, durante seu show Não sou nenhum Roberto (que contou com a participação de Odair José) a oração da Nossa Senhora das Travestis, que o TransLiterária havia enviado para artistas locais, com o pedido de que o lessem e pedissem réplica do público.

Mas houve protestos que foram além do polêmico corte na programação local. No mesmo show de Veronez, parte do público começou a gritar "Bolsonaro, vai tomar...". O cantor discordou: “Sem carinho, nem aquele ser horrível merece”. Na plateia, o secretário municipal de Cultura, Juca Ferreira, que até então não havia se manifestado sobre a decisão de Kalil, disse ao Estado de Minas que “os artistas estão livres para se manifestar”. No entanto, Ferreira afirmou que “é injusto dizer que o prefeito censurou”, apontando uma “pressão dos setores mais conservadores da cidade” para justificar o veto.

Na mesma Guaicurus, The Pulso in Chamas – nascido há três anos como uma banda drag, hoje se denomina uma “banda diversa” – apresentou um show contundente que foi além da manifestação a favor da TransLiterária. Com um repertório que aposta em pérolas da música pop – Lady Gaga, Talking Heads, Karol Conka, Bonnie Tyler, Pabllo Vittar são relidos de forma inteligente e irônica – o grupo de sete integrantes, três deles vocalistas, falou de resistência. Com a bandeira trans empunhada, lembrou-se da morte de homossexuais, de negros, do preconceito sofrido pelas lésbicas. “Todas as músicas, por mais superficiais que possam parecer, têm uma mensagem política”, destacou Bella la Pierre.

"É o grito das mulheres, ocupações urbanas, LGBTs... Armas, não!", bradou Nara Torres, percussionista do Chama o Síndico, que lançou seu primeiro álbum na Praça da Estação, palco que concentrou o maior público da Virada.

NORDESTINOS Foi também ali que Daniela Mercury, principal atração do sábado, homenageou o Nordeste, em resposta à declaração do presidente Jair Bolsonaro, que usou o termo “paraíba” para se referir aos governadores da região, em conversa com o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. A cantora baiana citou vários artistas nordestinos e disse "salve o povo do Nordeste, salve o povo brasileiro e todos os brasileiros que amam esse lugar", antes de cantar Paraíba, de Luiz Gonzaga. “O povo negro quer exuberar, como os LGBTs”, disse a baiana mais tarde, lembrando de outras lutas. O show, vale dizer, foi aberto com sotaque mineiro: a canção Coração civil (Fernando Brant/Milton Nascimento), que começa com os versos “Quero a utopia, quero tudo e mais”.

Um outro baiano não teve tanta sorte em seu show. Com um ótimo público que o aguardava no Parque Municipal, Moraes Moreira sofreu com a precariedade do som. "Estou tentando, mas é impossível tocar com um som desses. Além de tanta sacanagem que está tendo no Brasil, a gente chega aqui pra cantar e...", reclamou Moraes, que teve que interromper sua apresentação várias vezes. Tanto ele quanto Odair José pediram, do palco, “Lula Livre”, bordão que também apareceu em cartazes empunhados pelo público em alguns dos palcos.
Se durante a noite a Virada é  música e protesto, de dia rola de tudo, na maior tranquilidade. No Parque Municipal, o domingo teve início com a Viradinha, com atrações para as crianças, e atividades esportivas e de bem-estar, como massagem e aula de yoga. Já na Avenida Assis Chateaubriand houve um simpático encontro dos adeptos dos carrinhos de rolimã. Na Guaicurus, à tarde, foi a vez de uma atração que se popularizou na Virada: a Gaymada.

A expectativa da organização da Virada Cultural era atrair 500 mil pessoas. Até a conclusão desta edição, passadas as 24 horas do evento, a PBH não tinha uma estimativa do público. O orçamento para promover as mais de 400 atrações em 25 palcos no Hipercentro de BH foi de R$ 2,5 milhões. Mesmo sem o balanço oficial, comerciantes e ambulantes ouvidos pela reportagem afirmaram que o movimento estava mais fraco do que em edições anteriores. A “culpa” seria do frio. A temperatura na noite de sábado teve máxima prevista de 17ºC e mínima de 11ºC.

Djonga incendeia a Praça da Estação
 
Foi com um verso de Atípico – “O terror voltou”, ecoado pelo público – que o rapper Djonga abriu seu show, numa Praça da Estação lotada, no encerramento da Virada Cultural, às 19h de ontem. Um dos maiores nomes do rap nacional, o belo-horizontino contou que assistiu a vários shows ali. "Muito feliz. Lembro de eu tomando batida aí embaixo. Os cara me tratando mal. Os cara me deram umas porrada, agora eu tô em cima do palco."

Entre uma música e outra, Djonga comentou: “Parece que vocês não gostam desse cara”, quando a multidão entoou “Bolsonaro vai tomar...”. Sob a regência do rapper, a plateia gritou com ele "Fogo nos racistas!", seu lema contra a discriminação racial. A abertura foi com Hat-Trick, em que ele pede um "abre alas para o rei". Djonga já havia participado de outras edições da Virada – ao lado de Elza Soares, do grupo Filhos de Sandra, do coletivo DV Tribo e da banda TremBemDitos –, mas o show de ontem, como atração principal do domingo, carregou vários significados.

Sua presença simboliza a importância do rap, do funk, da música negra e da periferia para a cultura brasileira. E a juventude negra e da periferia compareceu em peso. Talvez nenhum outro show da Virada tenha visto tantos celulares apontados. E nem tanto público, embora ainda não haja estatística oficial. Djonga não canta sozinho e os fãs recitam seus versos e vibram junto. O rapper mesclou a apresentação sucessos de seus álbuns (O menino que queria ser Deus e Ladrão) e singles, levando o público ao delírio com as letras que abordam racismo, desigualdade social e discriminação.Djonga não impõe limites entre ele e o público. Deixa claro que não há diferença entre ele e quem vai assistir ao seu show. Por isso mesmo, no seu principal sucesso, Olho de tigre, no qual convoca ao "fogo nos racistas", foi "bater cabeça" com o público. Na faixa Bença, do disco Ladrão, dedicada à família e à luta da avó para criar as filhas, Djonga recebeu dona Maria Eni no palco. A avó do rapper entrou com o terço nas mãos e fazia o sinal da cruz em direção ao público. Ele convidou ao palco o rapper Zulu, um dos precursores na capital mineira do trap, e mencionou os irmãos do "sistema prisional", já que Zulu está em regime semiaberto até 2021. Os dois cantaram a composição Yeah, que assinam juntos. "É um contraste de realidade. Deus é justo. Você pode passar pela escuridão e depois viver isso. O Djonga é uma dose de motivação para nós", disse Zulu.

A música Leal  ele dedicou à mulher – “O amor da minha vida”. Malu Tamietti esta grávida de cinco meses. Eles já são pais do Jorge e agora esperam Iolanda.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade