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Estado de Minas

Talento a toda prova

Três atrizes transexuais vêm conquistando espaço no mundo artístico e ganhando a simpatia do público com personagens de destaque no cinema e na televisão


postado em 14/07/2019 04:09

Gabrielle Joie é aposta do Canal Brasil numa série sobre diversidade:
Gabrielle Joie é aposta do Canal Brasil numa série sobre diversidade: "Finalmente consegui me achar e me descobrir neste ofício" (foto: Filipe Vasconcelos Vianna/Divulgação)



Gabrielle, um dos destaques da terceira temporada de Sob pressão, estará na próxima novela das 19h, Bom sucesso, e é protagonista da grande aposta do Canal Brasil para 2019, uma série sobre diversidade. Já Glamour está brilhando como Britney na trama das 21h, A dona do pedaço, enquanto que Kika vai estrelar Vestido branco, véu e grinalda, novo filme de um dos diretores mais aclamados do cinema nacional, o pernambucano Marcelo Gomes (Cinema, aspirinas e urubus). As três são atrizes na faixa dos 20, 30 anos, que, aos poucos, estão conquistando seu espaço nas artes. E, mais que isso, provando que não são menos mulheres ou menos talentosas pelo fato de serem trans. "Antes de mais nada, sou atriz, independentemente de gênero. Espero que algum dia as pessoas possam focar no meu trabalho, sem ficar querendo rotular se é trans ou não. Acho muito bacana todo esse espaço que artistas trans têm tido, espero que continue nesse ritmo, mas que não seja para ficar focando no que é o diferente", ressalta Gabrielle Joie.

Com apenas 21 anos, ela é natural de Ceilândia, cidade-satélite de Brasília, mas já morou em São Paulo e atualmente vive no Rio. A jovem conta que a grande virada foi quando o dramaturgo Marcelo Pedreira assistiu a um vídeo dela no YouTube. "Ele me convidou para fazer um teste e acabei passando. O desejo de ser atriz sempre esteve presente. Fiz alguns cursos pontuais, mas a coisa foi ficando de lado. Mas finalmente consegui me achar e me descobrir neste ofício", destaca. Marcelo é o autor da série Toda forma de amor, dirigida por Bruno Barreto e que estreia no Canal Brasil no mês que vem. Na trama, Daniel (Rômulo Arantes Neto) é um empresário da noite paulistana de pouco sucesso. Filho do pastor Alvim (Juan Alba), ele enxerga uma saída para a falência ao abrir a Trans World, boate voltada para o público LGBTQI, cujas picapes são comandadas pela DJ Marcela (Gabrielle Joie), uma mulher trans, com quem acaba se envolvendo. A primeira temporada tem cinco episódios e conta com outros artistas trans no elenco, como Wallie Ruy, que participou de Carcereiros, na Globo. "Marcela tem uma história um pouco parecida comigo. Ela começou a trabalhar jovem, foi tentar a vida em São Paulo. Poderiam até correr o risco de não encontrar a intérprete ideal, mas acho muito interessante uma atriz trans fazer uma personagem trans, até porque, em 2019, a gente não tem mais essa desculpa. O que não faltam são meninas talentosas, que estão aí, despontando no cinema, no teatro", observa.

Gabrielle também participou de um dos episódios da atual temporada de Sob pressão e chamou a atenção como uma garota trans que colocou silicone em uma clínica clandestina e teve uma grave infecção. "É uma série que tem muita visibilidade e, apesar de eu ter gravado Toda forma de amor bem antes, foi ali que as pessoas passaram a me conhecer. Foi emocionante fazer aquele trabalho", enfatiza. A atriz também está em Bom sucesso, substituta de Verão 90 na faixa das 19h. Ela será Michelly, também uma mulher trans. "Acho que o que mais gosto na minha profissão é essa versatilidade, o desafio de ficar imaginando e criando personas diferentes. Estimula a criatividade. Esses meus três trabalhos são de trans, considero superválido, mas acho e espero também o momento em que vou fazer outros papéis, e não necessariamente trans ou travestis", comenta.

MARCO Também com um pé em Ceilândia (DF), a escritora, poeta e atriz Kika Sena, de 24, celebra o bom momento profissional. Natural de Marechal Deodoro, em Alagoas, ela conta que começou a fazer teatro na escola já no Distrito Federal, com 15 anos. Prestou vestibular para artes cênicas na Universidade de Brasília (UnB) e hoje celebra o seu primeiro papel na telona. "Já estava desistindo de fazer cinema e aí veio essa oportunidade que, certamente, já é um marco na minha careira. Primeiro filme, e ainda protagonista. Sem contar que trabalhei com um diretor muito sensível, como o Marcelo Gomes", comemora. O longa Vestido branco, véu e grinalda já foi rodado, mas não tem previsão de lançamento e é baseado numa história real. Kika interpreta Paloma, uma agricultora trans, moradora do sertão nordestino, que tem o sonho de se casar com o servente de pedreiro Zé (Ridson Reis). "A Paloma é muito sonhadora e acho que esse foi um dos pontos com que mais me identifiquei. Ela nunca desiste do que quer, além de toda a força que encontra para enfrentar toda a pressão. Sem contar que acho muito representativo uma atriz trans interpretar uma personagem que é trans", frisa.

Atualmente, Kika está fazendo mestrado em arte cênicas e tem pesquisado justamente a representação de mulheres trans e travestis no teatro e no cinema. "Mesmo com o mercado se abrindo mais, ainda é muito pouco. E continuamos sendo o país em que mais se mata trans e travestis no mundo. O preconceito ainda existe, infelizmente", lamenta. A artista alagoana enfatiza que não é contra atores cisgêneros (pessoas cuja identidade de gênero corresponde ao sexo que lhes foi atribuído no nascimento) interpretarem trans, pois, para ela, o ator – independentemente de gênero, raça ou opção sexual – tem a função de representar. No entanto, defende que, como há poucas opções de trabalho para trans, isso é uma questão de empregabilidade. "Quando se é ator ou atriz, a nossa missão é representar. Mas tem que se ter o mínimo de ética. O que mais tem são atores e atriz trans atrás de emprego, de uma chance. Estamos falando de uma questão que é oportunidade de emprego, por isso, bato tanto nessa tecla. Um trans interpretando um papel trans é significativo para toda uma população", frisa.

Com um trabalho mais local – seja como escritora, poeta ou realizando performances – ela ainda não tem dimensões do que essa produção vai provocar em sua trajetória, mas acredita que vá colher muitos frutos. "No mês que vem, já embarco para o Acre, onde vou fazer um outro filme. Dessa vez não é uma protagonista, mas vou fazer uma travesti. Passo a passo, as coisas vão acontecendo", enfatiza.



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