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Estado de Minas

Marky e Anderson Noise, os 'super DJs', assumem as picapes em BH

Neste fim de semana, o paulista e o mineiro, que fizeram história na música eletrônica brasileira, vão se apresentar no Deputamadre e no Centro Cultural Lagoa do Nado


postado em 22/06/2019 04:09

O DJ paulista Marky, referência mundial no drum%u2019n%u2019bass, ama tocar e não abre mão do toca-discos(foto: Chelone Wolf/Divulgação)
O DJ paulista Marky, referência mundial no drum%u2019n%u2019bass, ama tocar e não abre mão do toca-discos (foto: Chelone Wolf/Divulgação)



Dá para contar nos dedos os DJs brasileiros que, na virada dos anos 1990 para 2000, empreenderam uma carreira no exterior (por vezes antes lá do que aqui) e, duas décadas mais tarde, continuam na ativa tocando o estilo que os consagrou. Eram os super DJs, que carimbavam o passaporte com a mesma frequência com que íamos à padaria.


Marky e Anderson Noise são dois deles – o restante, vale dizer, completa os dedos de uma só mão. A despeito de gêneros distintos (o primeiro no drum’n’bass, o segundo no techno), dividiram line ups em clubes e festivais, tocaram juntos (no chamado back to back) e prosseguem com as carreiras, independentemente das mudanças da música e da passagem do tempo.


O paulista Marco Antônio da Silva, o Marky, 45 anos completados há uma semana, não se lembra da última vez em que se apresentou em Belo Horizonte. Volta para dupla missão: neste sábado (22), no Deputamadre (outro sobrevivente da cena eletrônica), será uma das atrações da festa In Joy, que promete ir até a manhã de domingo. O mineiro Anderson de Almeida Alves, o Anderson Noise, que chega aos 50 em julho, toca na mesma festa.


Domingo, à luz do dia, Marky será a principal atração do projeto Nujazz no Parque, evento realizado mensalmente no Lagoa do Nado. Promovido pelo Coletivo OHM, busca levar jazz e música negra para um novo público. A domingueira será deliciosa para Marky, pois ele vai tocar as suas influências – música brasileira, soul, disco, funk e reggae.

VINIL Afinal, por que os dois continuaram e outros não? Com a palavra, os próprios. “Sempre fui um cara muito centrado. A coisa com que mais gasto dinheiro é disco. Tenho 26 mil (só vinis), compro todos os dias. A música me leva a dimensões que nada substitui. Nunca precisei de aditivo para tocar. Amo o que faço, e não faço só pelo dinheiro. Este é um dos meus maiores trunfos: tenho, mesmo, prazer em tocar”, afirma Marky.


Com Noise não é muito diferente. “Tudo na minha vida aconteceu por uma combinação de coisas. Aprendi com meu pai que a gente tem de botar força e amor para elas acontecerem. Quando a gente vê essa moçada nova fazendo um monte de coisas, parece que já deu. Mas, de repente, acontece algo: na semana passada, cheguei a uma cidade do interior do Rio Grande do Sul e, na hora em que subi na cabine, parecia show de rock. Então, tudo depende do lugar onde você está. Podem até falar ‘esses caras estão velhos’, mas é a mesma coisa quando você vê o Milton Nascimento. Vê e chora. É muito diferente de um moleque de 18 anos com milhões de seguidores.”


A raiz do drum’n’bass e do techno é a música negra. Mas cada estilo tem a sua forma. Nascido na Inglaterra no fim dos anos 1980, o drum’n’bass, bateria e baixo, é mais melodioso. Já o techno, forjado na Detroit no mesmo período, é mais duro, repetitivo, pesado.


Marky e Noise, com históricos de famílias simples, aprenderam tudo na marra. Marky queria ser baterista. Como os pais não tinham dinheiro para comprar o instrumento e pagar curso de música, ele teve de se virar com os discos. “Quando escutei DJs como (os pioneiros) Sylvio Muller e Ricardo Guedes, que tocavam uma música em cima da outra, aquilo me chamou a atenção”, conta Marky. Ele não passava dos oito anos – tinha 12 quando começou a se apresentar em clubes paulistanos. Noise deu os primeiros passos aos 7, comandando o som nas festas da família Alves. O ano de 1988 marcou sua estreia como DJ fora da sala de visitas.

HÉRNIA DJ que é DJ toca no processo “analógico” – ou seja, na mão, com discos de vinil. De alguns anos para cá, Noise aposentou o vinil. Passou a usar CDJ (equipamento digital mais utilizado pelos DJs) desde que adquiriu uma “hérnia de disco music” por carregar as pesadas cases. Marky não, permanece na velha escola. “Só toca-discos, me recuso a usar CDJ. Agora, cada um toca com o que quiser. Com o CD player, a tecnologia praticamente faz a mixagem para você. Gosto de fazer a minha, não quero computador fazendo o meu trabalho.”


Noise acrescenta: “É maravilhoso ver como o Marky continua desenvolvendo a carreira dele. Quando está tocando, é um garotão”, diz o mineiro, que considera o colega “o melhor DJ do mundo em termos de técnica.” “Marky é uma biblioteca musical. Tem sacada muito rápida para buscar uma música no set, coisa que você não consegue ver nos jovens de hoje.”
A despeito de continuar na ativa, a dupla admite: os tempos são outros. “Do mesmo jeito que ocorreu uma transformação em todos os tipos de música, as pessoas também mudam. Deixam de sair porque têm filho, outros viram crentes, outros pagodeiros, outros vão para a cadeia. Então a gente acaba mudando o círculo”, diz Marky.


As cenas europeia e asiática de música eletrônica continuam se renovando, afirma o DJ. Pai de um adolescente de 14 anos (Gabriel prefere videogame a picapes), Marky se divide entre São Paulo, por causa do garoto, e Londres, onde vive sua namorada e fica a sede de sua gravadora, Innerground Records, que em breve alcança o centésimo lançamento.


“No auge da música eletrônica, conversava com o Anderson, tinha medo, dizia que uma hora ia acontecer (a carreira acabar). Mas continua do mesmo jeito. Sou bem-sucedido fora do país, posso escolher onde quero tocar. A música não morreu, assim como techno, house, trance e drum’n’bass continuam existindo. Infelizmente, no Brasil, ou você está no auge ou não está. Nesse caso, é sinal de que morreu”, diz Marky, que capitaneia há 18 anos o programa Terremoto na rádio paulistana 97 FM.
Noise, que mantém ativo o selo Noise Music, toca fora, mas com frequência muito menor do que antes. “Tenho turnês marcadas, mas não aquele monte de festas em que ficava dois meses fora de casa. Não toco mais no maior festival, no maior clube, mas há lugares em que meu nome continua vivo. O que importa é que quando você escuta um DJ com muita experiência, a diferença é nítida. Somos parte da geração que botou o DJ em cima do palco. Sem efeitos especiais, só no vinil”, conclui.


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