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Aproveitando a vida


postado em 13/06/2019 04:11

 

Já contei aqui que quando resolvi levar minha mãe para conhecer Portugal e Roma, o resto da minha família achou que eu estava doida. Onde já se viu levar uma “velha” de 70 anos para passear na Europa? Enfrentei o desconforto e me mandei com ela e a viagem de 30 dias ocorreu sem o menor problema. Ela aproveitou muito mais do que nós, não acreditava que alguém possa ir viajar e perder tempo dormindo depois do almoço. Enquanto fazíamos isso, ela se mandava para fazer seu reconhecimento em torno do hotel. E na abertura do livro Rua Direita, que escreveu relatando suas memórias da cidade, meu marido conta como ela, em lugar de maravilhar-se com o Coliseu, que queria muito conhecer em Roma, perdeu um bom tempo colhendo pequenas flores nascidas no matinho raso da região. Encantada com as flores que não conhecia.

Pois é – idade é isso, aproveitar o que é possível, com disposição e atenção, porque estamos vivendo muito mais e não vale perder tempo. A menos que o corpo nos cobre um preço alto, não permitindo que aproveitemos mais. Quando comecei a ir para o exterior, não perdia tempo e nem oportunidade para bater asas. Fui parar na Rússia ainda comunista, depois de passar um dia inteiro na embaixada em Brasília, labutando para sair de lá com meu visto de entrada, porque devia viajar dois dias depois e, sem o visto, nada feito. Acho que enchi tanto a paciência dos russos que eles me deram o visto já no fim do dia para ficar livres de mim. E até onde sei, consegui um milagre pouco comum, naquela época era preciso tempo para entrar no país.

Atualmente, luto com dois empecilhos: a saudade incontornável do meu companheiro de viagens e a falta de destreza para andar um dia inteiro descobrindo caminhos e lugares que muitas vezes (o que era o mais normal) não fazem parte de guias turísticos. E naqueles tempos quando viajava muito, tudo era mais fácil: conseguir passaporte, passagens, reservas de hotéis (quase sempre os mesmos, para marcar conhecimento e atendimento). Muitas vezes, a programação antecipada batia em algum problema do destino, perdi muitos lugares que queria conhecer na França por absoluta falta de condições de chegar ao destino, por causa de muita chuva ou muito frio.

Andar muito é um dos tormentos da idade, principalmente para quem, como eu, herdei o DNA da família que detesta frequentar academias, caminhar, fazer o tal do necessário esforço físico. Meu neurologista Francisco Cardoso já nem me aconselha mais a fazer exercício – não quer perder tempo com conselhos que não serão certamente seguidos. Mas me aconselha muito tomar um avião para outros países, procurar novos conhecimentos, evitar pontos onde a saudade pode bater forte.

Outro lance terrível da idade, que não ocorre com todos, é a tal da labirintite, que ataca sem avisoprévio, da noite para o dia. Tenho um santo médico para isso, Humberto Guimarães, um craque que manipula a cabeça de lá para cá e coloca o labirinto no lugar. Estou em fase de crise, mas a aparição é nova, não é igual aquela que joga a gente no chão, não é possível dar um passo sem proteção. A atual à esvazia a cabeça, que fica parecendo de outra pessoa e descobrir o que é possível fazer não é muito fácil.

Nem sei mais a razão de entrar em tal assunto, mas o caso é que já não aguento mais escutar pessoas reclamando da idade sem procurar aproveitar o que existe de bom na experiência que ela nos dá, nas memórias que nos animam e revivem, nas recordações de um tempo que pode até não voltar mais, mas que foram parte importante de nossas vidas.


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